Texto faz uma série de alegações falsas sobre sintomas da variante Delta

Texto faz uma série de alegações falsas sobre sintomas da variante Delta

Nova cepa tem apresentado sinais parecidos com um resfriado mais forte, como dor de cabeça, dor de garganta e coriza nasal; no entanto, febre e tosse também podem estar presentes

Gabi Coelho

23 de agosto de 2021 | 18h45

Circula nas redes sociais e no WhatsApp um texto que alega que a variante Delta do novo coronavírus não causa febre nem tosse. Na verdade, de acordo com especialistas consultados pelo Estadão Verifica e um estudo britânico de monitoramento da covid-19, embora esses dois sintomas estejam mais associados à variante Alpha (inicialmente identificada no Reino Unido), ambos podem ocorrer em pessoas infectadas pela cepa Delta (da Índia). O texto contém ainda outras informações falsas, como a de que a variante não é detectada em exames RT-PCR.

O texto circula com a logomarca da prefeitura de Palestina do Pará, município paraense. Em nota divulgada em julho, a equipe da Secretaria Municipal de Saúde da cidade esclareceu que recebeu a mensagem em um grupo de trabalho e, após notar que continha informações falsas, optou por retirar das redes sociais o conteúdo compartilhado. 

O que é verdade sobre a variante Delta

A variante Delta tem apresentado sinais que podem ser confundidos com um resfriado mais forte, como dor de cabeça, dor de garganta e coriza nasal. A febre permanece bastante comum, mas a perda do olfato não aparece mais entre os 10 principais sintomas, diz o professor Tim Spector, que dirige o estudo Zoe Covid Symptom — grupo de pesquisa liderado pelo King’s College London (KCL) que acompanha os sintomas da doença com o auxílio de 4 milhões de colaboradores em todo o mundo.

Dois especialistas consultados pelo Estadão Verifica o professor Renan Pedra Souza, do Laboratório de Biologia Integrativa do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e o infectologista Celso Granato, diretor clínico do Grupo Fleury — explicam que febre e tosse continuam a ser sintomas relacionados à covid-19. Por isso, é importante ficar atento a esses sinais.

“Há heterogeneidade na manifestação de sintomas”, diz Souza. “Varia desde pacientes sem sintomas, até pacientes com sintomas graves que evoluem para óbito”, conclui o especialista integrante do departamento de Genética, Ecologia e Evolução do ICB. 

Souza contesta outra afirmação do texto que circula nas redes sociais — de que “a cepa não vive na região do nariz e garganta”. Segundo o especialista, “todas as versões do novo coronavírus habitam no trato respiratório [parte da anatomia que possui relação com os processos da respiração] como em outras partes do corpo também. Então, a variante Delta também habita no nariz e na garganta durante seu ciclo no corpo humano”.

Outra alegação incorreta é que o vírus da variante Delta se espalha diretamente para os pulmões, causando pneumonia, que só seria identificada por radiografia. Celso Granato comenta que “o número de genotipagem é tão baixo para saber se realmente esses pacientes citados no texto foram prejudicados pela variante Delta em específico. Acho altamente improvável que isso aconteça”. 

O que é a variante Delta

Identificada pela primeira vez na Índia, em outubro de 2020, a cepa é classificada como uma das “variantes de preocupação” pela Organização Mundial de Saúde (OMS), por causar mais infecções e se espalhar mais rapidamente do que as formas iniciais de SARS-CoV-2. Dados divulgados em julho pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), mostram que a cepa é duas vezes mais contagiosa que as outras. Até o momento, não há estudos científicos que comprovem que a variante Delta cause mais mortes, como afirma o boato.

Dados reunidos pelo Ministério da Saúde mostram que o Brasil chegou na última terça-feira a 1.051 casos confirmados da variante Delta. Houve alta de 84% em relação aos 570 diagnósticos positivos para a cepa divulgados em balanço da segunda semana de agosto

Um estudo feito pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, concluiu que as vacinas da Pfizer e da Astrazeneca são eficazes contra a variante Delta, mas o nível da proteção tende a cair com o tempo. A pesquisa em formato preprint (sem revisão dos pares), publicada na última quinta-feira, 19, também apontou que a carga viral dos pacientes infectados pela Delta, mesmo após imunizados, é maior do que entre aqueles que contraíram o vírus por outras cepas.

Teste ‘swab’ é confiável para diagnosticar covid-19

Os dois especialistas consultados confirmam que o teste RT-PCR é eficaz para identificar pacientes infectados com a covid-19, seja da variante Delta ou de outras cepas. O diagnóstico é considerado “padrão ouro” e permite saber se o paciente está infectado no momento em que o exame é realizado. O infectologista Celso Granato orienta que o RT-PCR seja realizado no início da manifestação da covid-19, especialmente na primeira semana, quando o indivíduo possui grande quantidade do vírus SARS-CoV-2.

O material é coletado da garganta (orofaringe) e do nariz (nasofaringe) com uma haste flexível. De acordo com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), todos os testes são registrados na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e têm que ser liberados previamente para a comercialização e uso para diagnóstico.

“São exigidos documentos da empresa, como Autorização de Funcionamento de Empresa (AFE) e Certificação de Boas Práticas de Fabricação (CBPF). Além disso, devem ser apresentados documentos sobre o produto a ser registrado, tais como ensaios clínicos, fluxo de produção, estudo de estabilidade, segurança, qualidade e eficácia”, conclui o texto da Fiocruz, que também realiza algumas dessas avaliações no Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS). 

A parte final do texto, que fala que é necessário continuar tomando todos os cuidados, é também uma orientação do CDC e de outras organizações de saúde. “Neste momento, à medida que construímos o nível de vacinação em todo o país, devemos também usar todas as estratégias de prevenção disponíveis, incluindo uso de máscaras em locais públicos, para interromper a transmissão e deter a epidemia”, orienta a agência do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos. 

Este boato também foi verificado pelo serviço Fato ou Fake, do portal de notícias G1.

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