É falso que revista ‘Science’ tenha constatado que vacinas contra covid são ‘inúteis e prejudiciais’

É falso que revista ‘Science’ tenha constatado que vacinas contra covid são ‘inúteis e prejudiciais’

Site distorce estudo científico que aponta que imunizantes têm eficácia relativamente reduzida contra transmissão da Ômicron, mas não deixam de proteger contra formas graves da covid

Carolina Cerqueira, especial para o Estadão

06 de julho de 2022 | 11h34

São falsos conteúdos que afirmam que a revista científica Science teria admitido que vacinas contra a covid-19 são “inúteis e prejudiciais”. As publicações distorcem uma pesquisa publicada no dia 14 de junho pelo periódico, um dos mais conhecidos no cenário internacional. De acordo com o estudo original, a Ômicron e suas subvariantes têm mais capacidade de escapar às vacinas, na comparação com as variantes anteriores e o vírus detectado em Wuhan no início da pandemia. Ainda assim, os pesquisadores reforçaram que os imunizantes protegem contra formas graves e morte pela covid-19 — portanto, não são “inúteis”, nem “prejudiciais”.

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O estudo em questão se chama “Reforço imunológico da B.1.1.529 (Ômicron) depende da exposição anterior ao SARS-CoV-2” e é assinado por estudiosos britânicos do Imperial College London e outras instituições. Eles analisaram dados de imunidade de trabalhadores de saúde do Reino Unido que já haviam recebido três doses de vacinas de mRNA e tinham diferentes históricos de infecção prévia por covid. A principal descoberta foi que se infectar com a Ômicron não provoca uma bom reforço imunológico contra a própria Ômicron.

O que os pesquisadores concluíram é que a variante é mais eficiente em escapar às defesas imunológicas do corpo. “Não apenas (a Ômicron) pode romper as defesas da vacina, mas parece deixar muito poucas das marcas que esperávamos no sistema imunológico — ela é mais furtiva do que as variantes anteriores e fica sob o radar, por isso o sistema imunológico é incapaz de se lembrar dela”, disse Danny Altmann, professor do Imperial College e um dos autores do estudo.

Isso quer dizer que foi identificada uma redução na proteção conferida pelas vacinas de mRNA contra a Ômicron. Ainda assim, os imunizantes continuam apresentando eficácia contra formas graves da covid e contra mortes pela doença. “Embora nossas últimas descobertas destaquem preocupações claras sobre a natureza da infecção pela Ômicron, a vacinação permanece eficaz contra doenças graves. Aqueles que são elegíveis para receber uma dose reforço devem ser encorajados a fazê-lo”, completou Altmann.

Variantes da covid e escape da vacina

À medida em que se replicam, vírus vão sofrendo mutações em seu genoma. Algumas dessas modificações podem alterar características do vírus, como a transmissibilidade. Quando há muitas alterações no vírus, surge uma variante ou subvariante. A Ômicron tem características diferentes do SARS-CoV-2 identificado pela primeira vez em Wuhan, na China.

A imunologista e pesquisadora da Fiocruz Fernanda Grassi explica que o surgimento de variantes atrapalha o processo de vacinação, já que os imunizantes foram desenvolvidos a partir da cepa original do vírus. “As mutações (na Ômicron) afetam a proteína spike (uma das estruturas do vírus), o que leva a um escape das vacinas que temos até o momento”, disse. “Esse escape reflete na menor capacidade das vacinas de impedir a transmissão do vírus, mas não altera a proteção contra as formas graves da doença”.

Segundo Grassi, as mutações sofridas por um vírus são comuns e, por isso, pode ser necessário atualizar vacinas contra a covid, assim como ocorre com a da gripe. “As mutações virais são fenômenos absolutamente corriqueiros que fazem parte da dinâmica de uma infecção viral”, disse. “É natural que vacinas que foram feitas com base em sequências originais, ao longo do tempo, diminuam a sua eficácia frente às variantes”.

As publicações falsas afirmam que as vacinas “não fornecem proteção real” contra a Ômicron e que “a proteção de anticorpos e células T não são encontradas em lugar algum após a injeção”. Fernanda Grassi explica que as vacinas e a infecção natural induzem a chamada “memória imunológica” no corpo. Esse processo tem como consequência a expansão de linfócitos T, células que, por sua vez, têm como objetivo aumentar a produção de anticorpos e potencializar a destruição de células infectadas pelo vírus.

“A resposta imune adquirida é muito específica”, afirmou. “O que acontece na Ômicron é que as mutações estão justamente nesses locais de maior proteção induzida, então existe o escape. Mas a resposta imune continua existindo. São como chaves que abrem fechaduras — no caso da Ômicron, a fechadura modificou, então a quantidade de chaves capazes de abrir essa fechadura foi reduzida”.

Vacinação reduziu mortes e internações por covid

A especialista afirma que o avanço da campanha de imunização levou à diminuição do número de mortes e casos graves de covid. “O guarda-chuva Ômicron causa infecções respiratórias que se assemelham mais a um resfriado do que a uma doença que atinge o pulmão, isso por conta da vacinação. Ou seja, quem não completou seu esquema vacinal precisa completar porque, com certeza, vai estar bem mais protegido”, explicou.

Os textos falsos que distorcem o estudo da Science afirmam que as vacinas “deixam para trás substâncias misteriosas dentro do corpo de uma pessoa, muitas vezes levando a doenças crônicas ou morte precoce”. Mas a pesquisa em questão não afirma isso e, segundo especialistas, não há nenhum estudo que embase essas acusações.

O médico infectologista Alexandre Barbosa, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), reforçou que as vacinas não são prejudiciais. “(Dizer isso) é mentiroso e tem nítido viés negacionista”, afirmou. “Vale dizer que está comprovada, por diversos estudos, a eficácia do processo de vacinação. Isso está refletido nos números. Tivemos uma queda no Brasil de 83,2% nos óbitos por covid na comparação entre o primeiro semestre de 2021 e o primeiro semestre de 2022. Isso é muito significativo”.

Outro lado

O texto que chama vacinas contra covid de “inúteis” e “prejudiciais” foi publicado originalmente pelo site Aliados Brasil. Os responsáveis foram contactados por e-mail, mas não responderam até a publicação desta checagem.

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