Post que compara preço de gasolina e salário mínimo engana com recorte enviesado

Post que compara preço de gasolina e salário mínimo engana com recorte enviesado

Empresário Luciano Hang espalha dados incorretos para alegar que poder de compra em litros de combustível é maior hoje do que em gestões anteriores

Samuel Lima

18 de março de 2022 | 17h10

Nas redes sociais, o empresário bolsonarista Luciano Hang vem promovendo posts em que compara a quantidade de litros de gasolina que poderia ser comprada com um salário mínimo em 2006 e em 2022. As postagens sugerem que críticas sobre a alta no preço do combustível são “narrativas” e que a situação era pior em governos do PT. 

Além de conter dados imprecisos, a mensagem faz um recorte enviesado e omite o fato de que o preço médio da gasolina em fevereiro deste ano é o segundo mais alto da série histórica da Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP) para o mês, em valores corrigidos pela inflação. O preço atual é o mais alto desde 2003

O Estadão Verifica fez o mesmo exercício do post sobre o “poder de compra” do salário mínimo em litros de gasolina — mas considerando o preço médio do combustível em todos os meses desde julho de 2001, quando começa a série histórica da ANP, e não apenas os dois períodos citados (2006 e 2022). 

Em 2006, o salário mínimo vigente de R$ 300 poderia comprar em média 119 litros de gasolina em fevereiro, próximo do que espalha o post do empresário bolsonarista. A quantidade sobe para 135 litros em abril, quando há um reajuste do salário mínimo para R$ 350. Em fevereiro de 2022, considerando os dados consolidados da ANP, o salário mínimo poderia comprar 184 litros de gasolina, patamar similar ao observado em 2009. Em novembro de 2021, o valor foi o menor desde fevereiro de 2008.

Em entrevista ao Estadão, Josilmar Cordenonssi, professor de economia da Universidade Presbiteriana Mackenzie, aponta que Hang escolheu um ponto no tempo em que era vantajosa a comparação para sugerir que a gasolina está pesando menos no bolso dos brasileiros do que antes. Esse tipo de estratégia pode transmitir uma ideia enganosa sobre o todo.

Segundo Cordenonssi, quando se analisa a linha do tempo completa, pode-se notar que a quantidade de gasolina que o salário mínimo poderia comprar decaiu em relação aos anos mais recentes. “O poder aquisitivo foi aumentando consistentemente até a recessão 2015-2016. E essa relação ficou mais instável desde então”, analisa.

O professor de economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Marco Antonio Rocha destaca que a postagem também descontextualiza a evolução do salário mínimo no Brasil. O número atual atribuído a Bolsonaro, na verdade, é resultado de uma política de valorização ocorrida ao longo de vários anos e que sucedeu um período de baixa histórica na década de 1990. Em termos de ganhos reais, acima da inflação, o maior crescimento recente se deu nas gestões petistas, e não com Bolsonaro.

Preço da gasolina

Para checar o preço da gasolina no Brasil — em 2006, 2022 e outros anos — o Estadão Verifica pesquisou em uma base de dados da Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP).

De acordo com a série histórica da agência governamental, o preço médio da gasolina comum em fevereiro deste ano foi de R$ 6,60. Esse é o dado mensal consolidado mais recente disponível para coleta.

Há uma trajetória de alta em março, mas ainda longe de configurar preço médio de R$ 8,00 para a gasolina no País, como alega Hang. Na segunda semana deste mês (6/3 a 12/3), o valor pago pelo litro subiu para R$ 6,68, segundo o Sistema de Levantamento de Preços

O que ocorre é que de fato, em alguns lugares, o combustível está sendo vendido a mais de R$ 8,00. No levantamento semanal mais recente, o custo apurado pela ANP varia de R$ 5,19 a R$ 8,77 entre mais de 5 mil estabelecimentos consultados pelo Brasil. O preço máximo foi registrado na cidade de Eunápolis (BA).

Em 2006, a mesma base de dados da ANP informa que o litro de gasolina comum era comercializado a uma média de R$ 2,59 pelas revendas em fevereiro daquele ano.

Para fazer uma comparação justa com os dias atuais, no entanto, é preciso corrigir os valores pela inflação geral acumulada no período. Dessa forma, a cotação de R$ 2,59 equivale a R$ 6,31 atualmente, segundo a calculadora do Banco Central.

O preço permaneceu praticamente inalterado na primeira semana de março daquele ano, chegando a R$ 2,60 entre os dias 5/3 e 11/3. O valor corrigido pela inflação fica o mesmo nesse caso, R$ 6,31. O cálculo foi realizado por meio do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

No gráfico abaixo, o blog compara a evolução do preço do combustível a cada ano, sempre no mês de fevereiro, desde o início da série histórica da ANP. É possível notar que o preço atual da gasolina está 21,3% acima da média de fevereiro no período analisado, em valores corrigidos pela inflação, e que é o mais alto desde 2003.

Salário mínimo

De fato, em janeiro de 2006, o salário mínimo era de R$ 300 no Brasil, e em janeiro de 2022, de R$ 1.212, segundo levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Hang, no entanto, não informa que o reajuste anual concedido pelo governo federal em 2006 ocorreu apenas em abril daquele ano, elevando-o para R$ 350. 

Os reajustes só começaram a ser aplicados no primeiro mês de cada ano a partir de 2010. Ao utilizar os valores de 2006 sem reajuste, o empresário que assina a postagem acaba aumentando artificialmente a diferença de “poder de compra” do salário mínimo em litros de gasolina entre o quarto ano de mandato de Lula (PT) e de Bolsonaro (PL). 

Além disso, falta contexto ao post no que diz respeito à evolução do salário mínimo nas últimas décadas. Durante o governo Lula (2003-2010), este passou de R$ 200 para R$ 510; no governo Dilma Rousseff (2010-2016), de R$ 510 para R$ 880; no governo Michel Temer (2016-2018), de R$ 880 para R$ 954; e no de Bolsonaro (2019-atual), de R$ 954 para R$ 1.212.

O Ipea disponibiliza também uma série histórica sobre o ganho real do salário mínimo a cada ano, ou seja, descontando os aumentos por conta da inflação. A partir de 2000, o maior crescimento se deu durante as gestões petistas. Desde 2015, com a recessão econômica, porém, este apresenta estagnação em valores reais, praticamente apenas acompanhando a perda do poder de compra da moeda, como determina a Constituição.

A última vez que o valor cresceu acima do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) foi em 2019, primeiro ano de mandato de Jair Bolsonaro. Desde então, o salário mínimo foi reajustado sem ganhos reais por três anos consecutivos. A justificativa da equipe econômica é a de conter despesas públicas, considerando que o mínimo serve de referência para benefícios previdenciários, assistenciais e seguro-desemprego. 

O que dizem os economistas

O professor Josilmar Cordenossi explica que durante o governo Bolsonaro houve um pico na quantidade de gasolina que poderia ser comprada com um salário mínimo. Em maio de 2020, ainda no começo da pandemia de covid-19, a redução da mobilidade e da atividade econômica dos países causou uma crise no mercado global que levou ao fechamento de poços de petróleo e a preços historicamente baixos na matéria-prima. Com isso, o preço da gasolina na média do Brasil ficou mais barato no primeiro semestre.

A situação se reverte a partir da segunda metade de 2020, quando sucessivos reajustes da Petrobras nos valores dos combustíveis vendidos pelas refinarias aos distribuidores elevaram o preço da gasolina no País. Essa alta está relacionada a dois fatores principais: alta na cotação internacional do petróleo, com o desequilíbrio entre o retorno da demanda e da produção da commodity, e a taxa de câmbio elevada — o petróleo é negociado em dólares, o que faz com que a desvalorização da moeda brasileira aumente o custo do produto em reais.

Outro fator de instabilidade recente é o conflito geopolítico causado pela invasão russa na Ucrânia. Países como Estados Unidos e Reino Unido anunciaram restrições contra a Rússia, uma nação importante no mercado de petróleo e gás natural. Esse tipo de bloqueio reduz a oferta global do produto e tende a fazer o preço subir, explica o economista.

Outra diferença entre os governos do PT e de Bolsonaro em relação aos preços dos combustíveis é que houve uma defasagem nos preços praticados no mercado internacional e no Brasil, principalmente na gestão de Dilma Rousseff (PT). Esse desequilíbrio amortecia o preço da gasolina aos brasileiros, mas afetava o balanço financeiro da petroleira e desincentivava a concorrência no setor.

Desde outubro de 2016, com Temer, a Petrobras passou a seguir o chamado preço de paridade de importação, ou seja, a reduzir a defasagem com o mercado externo e repassar a variação do preço aos consumidores. Essa política é executada por meio de reajustes constantes no preço praticado nas refinarias aos distribuidores.

Marco Antonio Rocha, professor da Unicamp, afirma que a política de paridade internacional combina dois elementos de alta volatilidade — a cotação do petróleo e a taxa de câmbio — o que traz instabilidade de preços ao consumidor. Ele também entende que o post analisado pelo Verifica se descola da realidade porque, no mundo real, o orçamento familiar desta faixa de renda não é gasto apenas em gasolina, mas principalmente em alimentação.

“O preço da gasolina em relação ao salário mínimo não revela a perda da capacidade de compra generalizada atualmente por conta da inflação da cesta básica. Então, (essa comparação com a gasolina) mostra uma parte pequena que, em termos econômicos, não acrescenta muita coisa.”

Barril de petróleo

O post de Hang menciona supostos valores do barril de petróleo, sem maiores explicações, já que o número não foi utilizado na conta do “poder de compra”. Em 2006, seria de US$ 61, e em 2022, de US$ 115.

Não existe um único preço de petróleo no mundo, pois o produto se diferencia de acordo com a origem e as suas características. Para driblar esse problema, costuma-se tomar como referência certos tipos da commodity — como o brent, petróleo leve e com maior facilidade no refino, produzido no Mar do Norte, na Europa, e negociado em Londres.

De acordo com a série histórica da Energy Information Administration (EIA), agência governamental dos Estados Unidos, a cotação média do barril de petróleo tipo brent, na virada do mês de março (26/2 a 4/3), ficou em US$ 114,43. Em 2006, a média anual ficou em US$ 65,16, mas o barril foi negociado a US$ 61,06 no período correspondente (25/2 a 3/3). Esses valores são próximos daqueles mostrados no post.

Outro lado

O Estadão Verifica tentou contatar Luciano Hang por e-mail na quinta-feira, 17 de março, questionando sobre os critérios de escolha dos anos para comparação, a fonte dos dados e qual era a intenção do post. O empresário não respondeu até a publicação desta checagem.

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