Vídeo viral mostra robô interativo para entretenimento, não ‘guarda-costas’ de rei do Bahrein

Vídeo viral mostra robô interativo para entretenimento, não ‘guarda-costas’ de rei do Bahrein

Máquina filmada em gravação foi desenvolvida por empresa britânica e é alugada como atração em eventos; não é verdade que robô esteja equipado com armas e munição

Daniel Tozzi Mendes, especial para o Estadão

12 de janeiro de 2022 | 14h27

É falso que o rei do Bahrein tenha chegado a um evento ao lado de um robô gigante que seria seu guarda-costas. Essa alegação viralizou no Facebook junto a um vídeo em que um robô caminha em um salão de exposições. O robô fala inglês, tem a bandeira dos Emirados Árabes Unidos desenhada nos braços e usa uma jaqueta militar. A legenda do post afirma, entre outras coisas, que o robô “pode lutar fisicamente, é equipado com armas e câmeras, tem munição suficiente para combater até 1,5 mil homens” — tudo isso falso. 

Apesar de o vídeo ser verdadeiro, a legenda é falsa. A filmagem original foi feita durante a Exposição e Conferência Internacional de Defesa (IDEX) de 2019, sediada em Abu Dhabi, nos Emirados Árabes. O evento é periódico e reúne governos e empresas de todo o mundo para mostrar as últimas tecnologias e inovações no setor de defesa e segurança. No entanto, o robô gigante mostrado no vídeo não passa de um equipamento de entretenimento desenvolvido pela empresa britânica Cyberstein, chamado “Titan, the robot”. 

Para chegar a essa conclusão, fizemos uma captura de tela de um trecho do vídeo e a busca reversa dessa imagem a partir da ferramenta Yandex (aprenda a usar clicando aqui). A pesquisa nos levou a algumas notícias relacionando o vídeo ao evento de exposição em Abu Dhabi e a conteúdos sobre o robô Titan. Pesquisando no YouTube as palavras “robot” e “idex 2019” chegamos à filmagem original.  

No site da Cyberstein, o equipamento é descrito como “ideal para entretenimento corporativo ou para atrair clientes para seu estande de exposição”. De acordo com a empresa, “Titan, the robot” pode ser alugado para eventos em qualquer lugar do mundo e suas performances podem ser adaptadas para qualquer idioma. 

Nos últimos anos o robô britânico já esteve presente em alguns eventos pelo mundo. Em 2010, por exemplo, uma versão semelhante ao Titan aparece no vídeo que fez parte de uma performance da cantora Rihanna em um show. Já em 2014, o robô esteve em um evento durante os Jogos Olímpicos de Inverno daquele ano, realizados em Sochi, na Rússia.  

A postagem analisada afirma que o robô custa US$ 7 milhões, mas o Estadão Verifica não conseguiu confirmar este valor.

Além de o robô não possuir qualquer fim militar ou bélico, a pessoa que aparece no vídeo próxima ao robô não é o rei do Bahrein. Desde 2002, o monarca do país asiático é Hamad bin Isa al-Khalifa, cuja foto, disponível no site oficial do Bahrein, não guarda qualquer semelhança com a pessoa retratada à frente do robô no vídeo. 

O vídeo tem sido compartilhado com a legenda falsa ao menos desde março de 2021. Um dos posts desse conteúdo que mais teve alcance é de abril do ano passado e, até agora, já passou das 2,5 milhões de visualizações e dos 103 mil compartilhamentos apenas no Facebook. 

Este conteúdo também já foi checado pela Agência Lupa e a AFP.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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