Vídeo manipula reportagem para relacionar fraudes ocorridas em 2008 ao ex-presidente Lula

Vídeo manipula reportagem para relacionar fraudes ocorridas em 2008 ao ex-presidente Lula

Postagem utiliza trechos da retrospectiva do Globo Repórter daquele ano de forma descontextualizada

Pedro Prata

03 de junho de 2022 | 18h00

Um vídeo que circula no Facebook engana ao resgatar trechos descontextualizados da retrospectiva do programa Globo Repórter de 2008. A postagem analisada passa a mensagem de que haveria suspeição contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por gastos no cartão corporativo do governo federal. Ao assistir o programa original, é possível ver que o sentido original da reportagem foi alterado. As denúncias de irregularidades foram contra integrantes de seu governo, não contra ele. Também são citadas outras fraudes, não relacionadas à gestão federal.

O vídeo traz uma narração do jornalista Sérgio Chapelin. É possível ouvi-lo dizer “Brasil, 2008; um ano que valeu por quantos? Só de viagens, Lula lá fora”. Ele parece emendar “Fartura de gastos com o cartão do governo. Viagens, compras, aluguéis de carro”, dando a impressão que ambas as coisas estariam ligadas. E continua: “Quantos golpes descobrimos em 2008. Fraude no leite em pó. Fraude nos remédios. Fraude nos combustíveis. Fraude no metrô de São Paulo. Fraude na Previdência. Fraude no fundo para os municípios.” Esse vídeo foi compartilhado ao menos 13,9 mil vezes.

Em uma parte do vídeo, é possível ver que se trata da retrospectiva de 2008. Uma parte do programa está disponível no Globoplay. Três partes sem relação uma com a outra foram recortadas e juntadas para passar uma mensagem de que o ex-presidente seria responsável por todas as irregularidades citadas.

Foto: Reprodução

Gastos com cartões corporativos

No programa original exibido em 2008, na parte em que Chapelin fala “Só de viagens, Lula lá fora” (a partir de 5m28s), são mostradas imagens de vários encontros do ex-presidente com mandatários estrangeiros. Em seguida, questiona “E aqui? Ele exagerou no vocabulário?”, ao lembrar que ele soltou um palavrão em uma coletiva de imprensa. Não há menção a irregularidades em viagens.

Pouco antes na retrospectiva (3m52s), o programa relembra o trabalho de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigou o uso de cartões corporativos por autoridades. São citados três casos, mas nenhum deles envolveu o ex-presidente diretamente.

Um deles é o do então ministro do Esporte, Orlando Silva, hoje deputado federal pelo PCdoB. Ele negou irregularidades. Disse que o gasto apontado como irregular teria sido a compra de uma tapioca por engano, e que devolveu o dinheiro.

Outro caso é do ex-ministro da Aquicultura e da Pesca Altemir Gregolin. Ele também justificou as irregularidades como “engano”. Segundo o próprio ex-ministro, ele teria pago R$ 512,60 do almoço de uma delegação estrangeira, o que só é permitido aos cartões corporativos da presidência. Ele alegou ter devolvido os valores.

Por fim, o programa também se referia à ex-ministra Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial. Ela pediu demissão do cargo após serem revelados gastos de R$ 171,5 mil gastos com viagens e aluguel de carros. Ela confessou o uso indevido, mas alegou que foi induzida ao erro por funcionários do ministério.

Golpes mencionados não envolvem o ex-presidente Lula

Outro trecho utilizado de forma descontextualizada pela postagem analisada cita diversas investigações contra desvio de dinheiro público: “Quantos golpes descobrimos em 2008. Fraude no leite em pó. Fraude nos remédios. Fraude nos combustíveis. Fraude no metrô de São Paulo. Fraude na Previdência. Fraude no fundo para os municípios”. Nenhum dos casos envolvia diretamente o ex-presidente Lula.

A “fraude no leite em pó” se voltou contra empresários que vendiam o alimento adulterado. A Polícia Federal também prendeu funcionários do Ministério da Agricultura em Pernambuco que trocavam os produtos adulterados por outros de boa qualidade.

Já a “fraude nos remédios” refere-se à prisão de nove pessoas, pela Polícia Civil de São Paulo, contra advogados, funcionários de laboratórios farmacêuticos e um médico. Os investigadores detectaram um esquema de ações judiciais fraudulentas para o governo bancar medicamentos de alto custo não fornecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Os remédios solicitados, porém, não serviam para curar a doença dos pacientes. O lucro dos laboratórios com a venda dos medicamentos era dividido entre os investigados.

O programa também lembrou de uma investigação contra policiais federais e militares, do Rio de Janeiro e São Paulo, que recebiam propina para permitir a circulação de caminhões de combustível em situação irregular. Também houve a suspeita de que os combustíveis fossem adulterados por empresários dos dois Estados.

Em 2008, o programa Fantástico denunciou a suspeita de sobrepreço em serviços contratados pelo Metrô de São Paulo. O então governador José Serra afirmou que ordenaria a investigação das denúncias.

Ao menos quatro fraudes contra a previdência foram localizadas pelo Estadão Verifica (Gazeta do Povo, Conjur, Governo Federal, G1), em 2008. Em todos os casos, as investigações foram realizadas em conjunto pelo Ministério da Previdência e a Polícia Federal. Os suspeitos eram servidores da previdência que fraudavam processos de aposentadoria. Em um dos casos, os investigados eram um vereador e dois candidatos.

Por fim, a retrospectiva cita um esquema de liberação irregular de verbas do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Os investigados eram magistrados, prefeitos, advogados, procuradores municipais, assessores e lobistas de Minas Gerais, Bahia e Distrito Federal. A quadrilha trabalhava para liberar recursos do Fundo a municípios em débito com o INSS por meio de decisões judiciais.

Delação de Delcídio do Amaral e paralisação da reforma agrária

O vídeo ainda traz duas reportagens antigas. Uma delas é a entrevista que o ex-senador Delcídio do Amaral concedeu ao Jornal Nacional em março de 2016. Ex-líder do governo no Congresso, ele fechou colaboração premiada com a Procuradoria-Geral da República na qual afirmou que Lula sabia da corrupção na Petrobras. Entre outras coisas, falou que o ex-presidente tentou obstruir a Lava Jato ao comprar o silêncio de Nestor Cerveró.

Lula foi inocentado dessa acusação, a pedido do MPF, por falta de provas. O MPF também queria a anulação da delação premiada, mas ela foi mantida porque o juiz entendeu que outras alegações poderiam ser confirmadas.

A outra reportagem também é do Jornal Nacional. Ela fala da paralisação do programa de reforma agrária no país, em abril de 2016, por determinação do Tribunal de Contas da União. Os auditores encontraram milhares de supostas irregularidades em quase 600 mil beneficiários.

Cinco meses depois, o Tribunal suspendeu temporariamente parte da medida cautelar e permitiu a retomada parcial do programa de reforma agrária. A decisão se deu por entender que grande parte dos beneficiários identificados com suspeita de fraude “foram classificados dessa forma principalmente por falhas nos cadastros e banco de dados do Incra e não necessariamente por ação do agricultor”. O Incra apresentou um cronograma de trabalho para sanar as irregularidades apontadas, e a liminar foi revogada totalmente em setembro de 2017.


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