A enganação do momento é ‘Ratanabá’: haja picareta para desenterrar cidade de 450 milhões de anos!

A enganação do momento é ‘Ratanabá’: haja picareta para desenterrar cidade de 450 milhões de anos!

Boato sobre ruínas na Amazônia foi difundido pelo criador do chamado 'ET Bilu', líder de organização sem fins educativos

Gabriel Belic, especial para o Estadão

14 de junho de 2022 | 16h52

​​Um vídeo conspiratório sobre a existência de uma cidade chamada Ratanabá, que estaria perdida há mais de 450 milhões de anos sob a floresta da Amazônia, virou o assunto do momento no Twitter e no TikTok. O período mencionado é de muito antes da existência de qualquer civilização.

A “descoberta” da cidade vem sendo reivindicada pelo Ecossistema Dakila, uma organização sem vínculo com universidades e órgãos oficiais de pesquisas. O grupo é também responsável por difundir discurso antivacina e crendices já refutadas, como a noção de que a Terra é plana. No dia 1º de junho, a organização publicou nota em que afirma que Ratanabá foi fundada pelos Muril, supostamente a primeira civilização do planeta, e foi capital do mundo há 450 milhões de anos.

Nessa época, a Terra vivia o período Ordoviciano. O planeta começava a ter seus primeiros animais vertebrados e peixes sem mandíbula. Mas as criaturas dominantes eram os invertebrados marinhos, como os trilobitas. Havia um grande oceano, que hoje chamamos de Pantalassa, e a América do Sul estava unida à Índia, à Austrália e à África no continente Gondwana.

 

 

Os primeiros hominídeos surgiriam centenas de milhões de anos depois, na era Cenozoica. A espécie mais antiga que se conhece, o Homo heidelbergensis, tem cerca de 450 mil anos de idade. Já o ser humano moderno, o Homo sapiens sapiens, apareceu há apenas 200 mil anos, na África.

De acordo com o arqueólogo e pesquisador da região amazônica Eduardo Góes Neves, do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP) , “nem a América do Sul existia há 450 milhões de anos, quanto mais a Amazônia”. O nosso continente começou a se separar da África há cerca de 220 milhões de anos — antes, os dois formavam um só pedaço de terra, chamado Pangeia. Por isso, não há nenhum embasamento na arqueologia e na geologia para a existência de Ratanabá.

Alguns vestígios de assentamentos antigos foram encontrados recentemente na região amazônica, mas nada que embase a teoria da cidade perdida. Em um estudo publicado na revista Nature no dia 25 de maio, pesquisadores da Alemanha descreveram a existência de assentamentos humanos datados de um período pré-colonial na região boliviana da Amazônia. De acordo com a pesquisa, os locais foram construídos pela cultura Casarabe, civilização pré-hispânica, entre 500 a 1400 d.C. 

Segundo Eduardo Góes Neves, também existiam lugares assemelhados a cidades no Pará e no Alto Xingu. “Essas cidades têm, no entanto, alguns milênios ou muitos séculos de idade, e não 450 milhões de anos”, explica o arqueólogo. Nesses casos, existem evidências de construção de terra, valas, canais e estradas, por exemplo. Ainda que exista pouca arquitetura de pedra na Amazônia antiga, as construções eram feitas de terra, madeira e palha. “Havia cidades na Amazônia, mas elas eram dos indígenas e tinham uma história totalmente diferente”, diz Eduardo. 

Boato foi espalhado por criador do ET Bilu

O líder do instituto Dakila é Urandir Fernandes de Oliveira, conhecido por ser criador do boato sobre o “ET Bilú” e por defender a tese de que a floresta amazônica não queima. Procurado, ele não se manifestou para fundamentar a existência de Ratanabá. 

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