Quadro que retrata situação de pedofilia não fez parte da exposição Queermuseu
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Quadro que retrata situação de pedofilia não fez parte da exposição Queermuseu

Obra feita por artista britânica com transtorno de personalidade circula fora de contexto nas redes

Pedro Prata

25 de setembro de 2020 | 20h08

É falso que uma pintura mostrando uma cena de pedofilia tenha sido incluída na exposição Queermuseu, realizada pelo Santander Cultural em 2017. A obra voltou a viralizar recentemente nas redes sociais com uma legenda que afirma ser “um dos quadros que o banco Santander apresentava”. A instituição nega e não há indícios na imprensa que confirmem a alegação. O quadro mostrado na postagem foi pintado por uma mulher britânica que sofreu abusos na infância e desenvolveu um distúrbio de personalidade.

Obra é da artista britânica Kim Noble. Site da pintora tem lista exposições e não consta a Queermuseu. Foto: Reprodução

O boato traz uma foto do quadro e a seguinte legenda: “Um pequeno corpo nu em cima da cama, por cima dele outro corpo nu maior, ao redor da cama outras pessoas nuas em pé, e duas delas seguravam o pequeno corpo nu mantendo braços e pernas abertas. E mesmo assim um promotor teve a coragem de dizer que não havia pedofilia nas imagens. Reparem no bichinho de pelúcia encostado na parede”.

O Estadão Verifica utilizou o mecanismo de busca reversa do Google e identificou sites relacionando o quadro à artista Kim Noble, uma mãe de 59 anos. Sua história ganhou destaque na mídia internacional depois que foi revelado que ela desenvolveu transtorno de identidade dissociativa por ter sofrido abusos sexuais na infância.

Em 2017, o E-farsas publicou uma checagem sobre este mesmo boato. Na ocasião, o site publicou a lista de artistas que possuíam obras expostas no Queermuseu e Kim Noble não estava entre os colocados. Ao Estadão Verifica, a assessoria de comunicação do Santander confirmou que nem a obra, nem a artista fizeram parte da exposição.

Em seu site oficial, Kim divulga uma lista de exposições das quais participou, e não consta a Queermuseu.

Queermuseu

A exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira recebeu críticas, foi duramente combatida por grupos conservadores nas redes sociais e acabou cancelada pelo Santander Cultural. A mostra pretendia “nos fazer refletir sobre os desafios que devemos enfrentar em relação à questões de gênero, diversidade, violência”, segundo o banco.

A exposição tinha ao todo 270 trabalhos de 85 artistas que abordavam a temática LGBT, questões de gênero e de diversidade. Entre os artistas, haviam nomes consagrados como Alfredo Volpi, Cândido Portinari, Clóvis Graciano, Ligia Clark e Leonilson.

O site da GaúchaZH publicou as três obras mais polêmicas e que foram acusadas de incentivo à pedofilia e à zoofilia. Elas são dos artistas Adriana Varejão, Fernando Baril e Bia Leite. Não consta nesta reportagem, nem em outras publicadas à época, o quadro reproduzido no boato.

À época, o promotor da Infância e da Juventude de Porto Alegre, Julio Almeida, negou que houvesse a prática de pedofilia nas obras. Ele também recomendou ao Santander Cultural que, em exposições futuras, mantivesse obras com “cenas de sexo explícito ou pornográficas” em um espaço separado.

No mesmo comunicado, o promotor ressaltou que “algumas imagens de obras que estão circulando esta semana em redes sociais não fazem parte da exposição e, desta forma, não contribuem para o debate saudável acerca do tema”. Não especificou quais eram as obras circulando fora de contexto nas redes.

O Ministério Público Federal recomendou que a exposição fosse retomada, mas o Santander optou por não acatar a sugestão.

Um dos quadros de Ria Platt, a personalidade de 12 anos de Kim Noble. Estilo é semelhante ao do quadro utilizado por boato. Foto: Oprah/Reprodução

As múltiplas personalidades de Kim Noble

O site de Kim Noble mostra como suas múltiplas personalidades afetam sua obra, já que cada uma delas possui uma forma de se expressar. Uma de suas personalidades, Ria Platt, acredita ser uma garota de 12 anos. Ela é quem desenha meninas em situação de vulnerabilidade e expõe os traumas vivenciados por Kim.

Em entrevista à apresentadora norte-americana Oprah Winfrey, ela contou que possui 20 personalidades diferentes. “As coisas se tornaram demais para ela (Kim Noble), então ela simplesmente desapareceu e temos que cuidar do seu corpo”, disse Patrícia, uma das personalidades mais constantes de Kim.

Ao portal britânico The Guardian, o professor de Psicologia Peter Fonagy, da University College London, disse que o transtorno da artista é um sinal de resiliência: “A mente é capaz de se dividir e nós colocamos eventos traumatizantes em ‘caixas’. Isso pode ser útil na medida em que ajuda as pessoas a se desassociar desses eventos”, explicou.

Este conteúdo também foi checado pelo Aos Fatos.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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