Lista de acordos entre Bolsonaro e Putin sobre fertilizantes, combustíveis e lançamento de satélites é falsa

Lista de acordos entre Bolsonaro e Putin sobre fertilizantes, combustíveis e lançamento de satélites é falsa

Itens listados não foram alvo de compromissos firmados entre os dois presidentes durante visita do brasileiro à Rússia

Clarissa Pacheco

02 de março de 2022 | 14h52

Um texto que circula no WhatsApp inventa uma lista de acordos que teriam sido firmados entre os presidentes do Brasil, Jair Bolsonaro (PL), e da Rússia, Vladimir Putin, durante a viagem do brasileiro ao país nos dias 15 e 16 de fevereiro. Alguns dos temas citados até foram tratados na visita, mas não resultaram em compromissos como os descritos no texto. Entre as informações falsas está a de que os russos teriam concordado em vender combustível mais barato aos brasileiros, de que os dois países teriam anunciado manobras militares conjuntas e ainda de que a Rússia teria se comprometido a triplicar suas importações, tornando-se o oitavo maior parceiro comercial do Brasil.

Os falsos acordos citados no texto viral incluem uma lista de cinco itens, como o fornecimento de fertilizantes e de aviões militares e civis. A mensagem diz ainda que está sendo estudada a construção de uma base para lançamento de satélites e veículos espaciais no Brasil – na verdade, o País tem uma base própria há 56 anos, o Centro de Lançamento da Barreira do Inferno, no Rio Grande do Norte. Nenhum dos alegados acordos foi noticiado pela imprensa.

Leitores pediram a checagem deste conteúdo por WhatsApp, (11) 97683-7490. Veja abaixo o que diz cada ponto do texto viral e entenda o porquê de serem falsos.

Abastecimento de fertilizantes

A primeira afirmação falsa da mensagem é de que os russos vão fornecer fertilizantes, nas quantidades que o Brasil precisar, em troca de alimentos produzidos pelos brasileiros. Os fertilizantes são cruciais para o setor agrícola do Brasil e, embora o assunto tenha sido pauta das reuniões de Bolsonaro na Rússia, Putin não firmou o compromisso citado.

O que o próprio presidente Bolsonaro disse, após a viagem, foi que a oferta de fertilizantes russos ao Brasil irá dobrar. Segundo ele, há chances de que seja reativada uma fábrica de fertilizantes em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul, até a metade do ano, o que aumentaria a quantidade de insumos produzidos no País. Mesmo assim, o Brasil vai continuar dependente de fertilizantes importados, o que pressiona o preço dos alimentos e impacta na inflação.

Jair Bolsonaro e Vladimir Putin, durante visita do presidente brasileiro à Rússia em fevereiro de 2022. Foto: Alan Santos/PR

Fabricação de aviões civis e militares

Também não há evidências de que a Rússia tenha se comprometido fabricar aviões civis e militares no Brasil. Essa possibilidade já foi aventada há alguns anos, mas as conversas não andaram. Em 2010, a Rússia propôs à Embraer produzir aviões no País, o que não aconteceu. Na época, discutiam-se projetos de parceria entre Brasil e Rússia, como a fábrica de fertilizantes no Mato Grosso do Sul, citada acima, e uma linha de montagem de aviões da Embraer numa cidade a 400 quilômetros de Moscou.

Há 12 anos, o presidente da seção russa do Conselho Empresarial Brasil-Rússia, Sergey Vasilyev, disse que negociações com a Embraer estavam em andamento. O assunto permaneceu adormecido, até que, em 2014, o vice-premiê russo tentou fazer uma visita ao presidente da Embraer, no Brasil. A visita foi recusada sob a justificativa de que o presidente da empresa estava com a agenda cheia, e o episódio causou mal-estar entre os dois países.

Combustível mais barato

Outra afirmação falsa no post é de que os russos vão vender combustível ao Brasil abaixo dos preços praticados pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). O Estadão Verifica consultou a Agência Nacional do Petróleo (ANP) sobre o assunto, mas foi orientada a procurar diretamente o governo federal. Já a Secretaria Especial de Comunicação Social do governo federal informou que a demanda deveria ser direcionada ao Ministério das Relações Exteriores, que foi procurado, mas não se manifestou até a publicação deste texto.

Um acordo com esta importância seria notícia em veículos de imprensa do Brasil e do mundo, o que não ocorreu. Não há menções a qualquer intenção da Rússia de vender combustível mais barato, e isto também não condiz com o perfil de participação russa no mercado de exportação de petróleo e seus derivados ao País.

De acordo com dados do Anuário Estatístico Brasileiro do Petróleo, Gás Natural e Biocombustível, de 2021, produzido pela ANP com informações referentes ao ano de 2020, a Rússia não vendeu nenhum barril de petróleo ao Brasil naquele ano. Com relação à venda de derivados do petróleo ao Brasil, o bloco em que a Rússia se insere – da Comunidade dos Estados Independentes – foi a que teve a menor participação no total de importações destes produtos feitas pelo Brasil. Foram 202,2 mil m³ de nafta, lubrificantes e outros como asfalto, gasolina de aviação, óleo combustível, parafina e produtos não energéticos – isso corresponde a menos de 1% de tudo que o País importou em derivados do petróleo em 2020.

Aumento nas importações

Uma das justificativas para a visita de Bolsonaro num momento tão conturbado foi mesmo tentar incrementar o comércio entre os dois países, ampliando a compra de produtos brasileiros pelos russos. O problema é que o post inventou dados sobre o nível de participação da Rússia na balança comercial com o Brasil e ainda mentiu ao dizer que o país vai triplicar as importações.

Diferentemente do que diz o texto, a Rússia não é o 18º parceiro comercial do Brasil, e sim o 36º. Os dados são da Secretaria do Comércio Exterior (Secex), do Ministério da Economia. Também não foi anunciado nenhum compromisso de que o país vá triplicar os pedidos de produtos brasileiros, o que também torna falsa a afirmação de que a Rússia passaria a ser nosso 8º maior parceiro comercial. Hoje, os produtos vendidos do Brasil para a Rússia correspondem a apenas 0,6% do total de exportações brasileiras para o restante do mundo.

Em 2021, foram vendidos US$ 1,7 bilhão para a Rússia, contra US$ 87,91 bilhões para o principal comprador de produtos brasileiros, a China. Para alcançar o oitavo colocado da lista, o México, que comprou US$ 5,56 bilhões em produtos brasileiros no ano passado, a Rússia precisaria mais do que triplicar suas importações.

Participação em manobras militares de 2023

A penúltima afirmação da lista também é falsa: diz que o Brasil foi convidado a participar, com as Forças Armadas, das manobras militares na Rússia em 2023 – e vice-versa. Os chanceleres dos dois países discutiram tecnologia militar durante a viagem à Rússia, mas não foi feito nenhum anúncio a respeito de uma participação de um país ou do outro em manobras militares em 2023.

Base de lançamento de satélites

Ao final do texto, há mais uma afirmação falsa: de que está em discussão a construção no Brasil de uma base de lançamento de satélites e veículos espaciais. Não há qualquer notícia sobre essa eventual discussão e o Brasil, na verdade, já tem uma base com essa finalidade. O Centro de Lançamento da Barreira do Inferno (CLBI) fica no Rio Grande do Norte e funciona há 56 anos, de acordo com informações da Agência Espacial Brasileira.

“O CLBI é entidade pioneira no Programa Espacial Brasileiro, efetuando lançamento e rastreio de engenhos espaciais, nacionais e estrangeiros, desde a década de 60”, informa a Agência, em material sobre a passagem de comando do CLBI, em dezembro do ano passado.

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