Protestos no Cazaquistão ocorreram por alta de combustíveis, não por exigência de vacina

Protestos no Cazaquistão ocorreram por alta de combustíveis, não por exigência de vacina

Vacinação é optativa no país; aplicativo de registro vacinal não é usado para saque de dinheiro em bancos

Jullie Pereira, especial para o Estadão

18 de janeiro de 2022 | 12h56

O vídeo de um protesto no Cazaquistão está sendo compartilhado no Facebook para espalhar desinformação antivacina. Nas imagens, dezenas de pessoas correm em uma rua em meio ao trânsito de carros e jogam objetos contra carros de polícia. Um narrador afirma que os manifestantes estão revoltados porque o governo teria imposto a utilização de um passaporte vacinal para retirada de dinheiro em bancos. Mas isso não é verdade: os protestos ocorreram após um expressivo aumento no preço dos combustíveis no país. 

As manifestações começaram na primeira semana de janeiro. Sem aceitar o disparo no aumento dos combustíveis, cidadãos foram às ruas, tomaram prédios públicos, aeroportos e estabelecimentos privados. Até o dia 13, mais de 12 mil pessoas foram detidas pela polícia. No sábado, 16, foram registradas 225 mortes ocasionadas durante os protestos.

O vídeo analisado aqui foi originalmente publicado pelo jornalista Abdujalil A, da BBC News, em seu perfil oficial no Twitter, no dia 4 de janeiro, e mostra uma dessas manifestações. No vídeo editado, acrescido de uma narração em português, um homem diz o seguinte: “Na verdade o que aconteceu lá foi que o governo impôs, o acordo que você tem que ter o aplicativo de vacinação no seu telefone e só com ele ativado que você pode tirar seu dinheiro no banco, a população em 24h botou fogo em todos os prédios do governo”.

De fato, o Cazaquistão possui um passaporte que mostra o status vacinal do cidadão, semelhante ao usado no Brasil, o Conecte SUS, em que é possível verificar quantas doses cada pessoa tomou. O app serve para registro e controle de informações, como nome, qual vacina a pessoa tomou e histórico médico.

Apesar de o passaporte existir, a vacinação no país não é obrigatória. De acordo com o artigo 77 do Código da República do Cazaquistão, os cidadãos têm direito a “dar consentimento informado ao tratamento e outras intervenções médicas, incluindo vacinações preventivas, ou recusá-las”.

Aplicativo de controle

Além do app de histórico vacinal, o Cazaquistão também possui um aplicativo usado por empresas, que mostra se o cidadão está apto a trabalhar e circular em locais públicos. No país da Ásia Central, pessoas com diagnóstico de covid-19, sintomáticas e assintomáticas, são obrigadas a cumprir quarentena em casa e confirmar que estão infectadas assinando um recibo.

Dessa forma, o aplicativo tem acesso ao banco de dados do Ministério da Saúde do Cazaquistão e consegue determinar o período de tempo em que a pessoa está em isolamento. O app se chama Ashyq e usa uma classificação de cores para determinar o grau de risco apresentado.

As empresas usam a plataforma para saber há quanto tempo um empregado teve a doença e se ainda pode transmitir para outros. O aplicativo exibe status em três cores:

  1. O status vermelho significa movimento restrito e isolamento domiciliar rigoroso para pacientes ambulatoriais.
  2. Amarelo significa restrição parcial de movimento – o paciente pode visitar mercearias e lojas de produtos domésticos, farmácias localizadas a não mais de 500 metros do local de isolamento estrito. 
  3. Azul significa que o tráfego da pessoa não é restrito, exceto em locais onde um teste de Covid é necessário.

Diferente do que é dito no vídeo com a narração em português, nenhum desses serviços é usado para retirar dinheiro em bancos. Também não é condicionado ao cidadão baixar o aplicativo para fazer movimentações financeiras. 

Exílio

No áudio, o homem continua: “Praticamente todo o governo de lá tá exilado agora, tentando fugir de lá, desligaram a internet do Cazaquistão, desligaram tudo. Vamos seguir os próximos passos de lá, população com orgulho é isso”. 

O presidente do Cazaquistão, Kassim-Jomart Tokaiev, não está exilado. Ele determinou que a polícia usasse toda a força para impedir os manifestantes, causando mortes e prisões. O presidente também recebeu, em 6 de janeiro, uma tropa de 2.030 mil soldados enviados pela Rússia, para ajudar na contenção dos atos. 

O presidente ordenou corte de internet e telefonia celular; a conexão foi restabelecida após cinco dias. No entanto, a medida não teve relação com qualquer exigência de uso de aplicativo de vacinação no país. 

Esse boato também foi desmentido por Agência Lupa e Boatos.org


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

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