Prefeito de Petrolina, que aparece elogiando Bolsonaro em vídeo, não é do PT
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Prefeito de Petrolina, que aparece elogiando Bolsonaro em vídeo, não é do PT

Miguel Coelho é filiado ao MDB e filho do líder do governo Bolsonaro no Senado, Fernando Bezerra Coelho

Samuel Lima

28 de maio de 2021 | 13h00

Circula nas redes sociais um vídeo que mostra o prefeito de Petrolina, em Pernambuco, Miguel Coelho, fazendo elogios ao presidente Jair Bolsonaro em um evento na cidade, em 2019. A gravação é verdadeira, mas a postagem engana ao afirmar que o político seria filiado ao Partido dos Trabalhadores (PT).

Na verdade, ele estreou na política pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) e faz parte atualmente do Movimento Democrático Brasileiro (MDB). O prefeito é filho do senador Fernando Bezerra Coelho (MDB), líder do governo no Senado. Nem o pai, nem o filho tiveram passagens pelo PT até o momento.

Prefeito de Petrolina, Miguel Coelho, não é do PT, e sim do MDB. / Foto: Reprodução Facebook

No vídeo, que tem o logotipo da TV Brasil, o prefeito de Petrolina começa dizendo que Bolsonaro é “iluminado” e defende a aproximação da gestão do município com o governo federal. “Nesse palanque, não tem cor partidária. Só tem uma cor, a do nosso querido Brasil”, afirma. Em um segundo trecho recortado, Miguel Coelho comenta que o presidente é bem-vindo na região. “Toda vez que o senhor vier ao Nordeste, saiba que pode parar em Petrolina. Aqui o senhor tem amigo, tem aliado.”

O Estadão Verifica confirmou que o conteúdo é autêntico e está disponível no canal da emissora pública de televisão no YouTube. Ele foi encontrado por meio de uma busca simples no Google, contendo os termos “Bolsonaro visita Petrolina” e o nome da TV Brasil. O primeiro trecho da fala do prefeito aparece na faixa de 6 minutos e 10 segundos, e o segundo, a partir de 8 minutos de vídeo.

A legenda informa que o encontro ocorreu em uma cerimônia de entrega de 472 imóveis em um conjunto habitacional do programa Minha Casa, Minha Vida, em Petrolina, no dia 24 de maio de 2019. Esse programa foi rebatizado de Casa Verde Amarela pela gestão atual e recentemente virou notícia ao ter recursos praticamente zerados no orçamento de 2021, colocando cerca de 200 mil obras no País voltadas a famílias de baixa renda sob risco de paralisação.

O portal G1 noticiou na época que aquela era a primeira visita de Bolsonaro ao Nordeste como presidente da República. O empreendimento inaugurado teve as obras iniciadas no governo Michel Temer (MDB), em julho de 2017, e recebeu investimento total de R$ 47,2 milhões. Os imóveis foram entregues a famílias com renda de até R$ 2,6 mil, que é considerada a faixa 1,5 no programa MCMV e conta com subsídio de até R$ 47.500,00 e juros de 5% ao ano.

Prefeito de Petrolina não é do PT, e sim do MDB

O prefeito de Petrolina, Miguel Coelho, não é filiado ao PT, e sim ao MDB. Porém, no momento da visita de Bolsonaro a Petrolina, em maio de 2019, o político estava sem partido. Ele recém havia pedido desfiliação do PSB, em 17 de abril daquele ano, cerca de um mês antes do evento. Seis meses depois, em novembro de 2019, ingressou no MDB.

Em 2020, Miguel Coelho foi reeleito prefeito de Petrolina pelo MDB. / Foto: Reprodução Estadão

O PSB faz oposição a Bolsonaro no Congresso, enquanto o MDB se coloca como um partido independente. Existem integrantes mais alinhados ao bolsonarismo na legenda, como o deputado federal e ex-ministro da Cidadania Osmar Terra (MDB-RS), e outros mais críticos ao governo, como o senador e relator da CPI da Covid, Renan Calheiros (MDB-AL).

De acordo com registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Miguel Coelho estreou nas urnas em 2014, quando foi eleito deputado estadual de Pernambuco pelo PSB. Pela mesma legenda, tornou-se prefeito de Petrolina, em 2016, com 38,80% dos votos válidos, derrotando o candidato do PT, Odacy Amorim, que ficou em segundo.

Em 2020, já como político filiado ao MDB e aliado do presidente Jair Bolsonaro, conquistou a reeleição para o paço municipal, com 76,19% dos votos válidos, em uma chapa formada com o DEM e outros 10 partidos. O PSB não apoiou Coelho, e sim o candidato de oposição Julio Lossio Filho (PSD), que terminou em segundo. O PT disputou a eleição com candidato próprio novamente.

Eleições anteriores de Miguel Coelho, segundo TSE. / Foto: Reprodução TSE

Em nível estadual, o MDB faz parte da base do governador Paulo Câmara (PSB), mas o partido discute internamente abandonar essa aliança. O nome do prefeito é cotado como possível candidato ao governo de Pernambuco nas eleições do ano que vem.

Político é filho do líder do governo Bolsonaro no Senado

O prefeito de Petrolina é filho do senador Fernando Bezerra Coelho (MDB), atual líder do governo no Senado. Ele foi indicado por Bolsonaro para a função em 20 de fevereiro de 2019, logo nas primeiras semanas de mandato do presidente e, portanto, antes do evento em Petrolina. A nomeação está publicada no Diário Oficial da União. Veja a lista atualizada de lideranças parlamentares no site do Senado.

O líder do governo exerce um papel importante para o governo federal entre os parlamentares. Ele é o responsável por articular a votação de projetos de interesse do Planalto, orientar o voto de senadores do bloco e indicar representantes para as comissões, por exemplo, segundo os desejos de Bolsonaro na Casa.

Membro mais proeminente hoje do “clã dos Coelhos” de Petrolina, o senador passou por cinco partidos até hoje e chegou a ocupar o cargo de ministro da Integração Nacional no governo de Dilma Rousseff (PT). Ele rompeu com o partido em um movimento capitaneado pelo ex-governador Eduardo Campos e depois votou a favor do impeachment da petista, em 2016. 

Dois anos antes que o filho prefeito, em setembro de 2017, o senador deixou o PSB por não concordar com a oposição do partido ao presidente Michel Temer, de quem se aproximou e virou colega de partido. Em 2018, Bezerra Coelho chegou a assumir interinamente o cargo de líder do governo Temer no Senado.

Por influência do senador, Petrolina foi uma das cidades mais beneficiadas pelo chamado “orçamento secreto” ou “tratoraço” — esquema do governo federal, revelado pelo Estadão, que entregou a parlamentares da base de apoio o direcionamento de R$ 3 bilhões em emendas controladas pelo Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR). Apenas para a cidade governada pelo herdeiro, Bezerra Coelho ditou a transferência de R$ 46,5 milhões do montante, por meio de convênios com a Codevasf.

Além de Miguel Coelho, outros dois filhos do senador participam da política, ambos do Democratas: o deputado federal Fernando Coelho Filho (DEM), que ocupou o cargo de ministro de Minas e Energia no governo Temer e está em seu quarto mandato na Câmara; e o deputado estadual Antônio Coelho (DEM), eleito para o primeiro mandato na Assembleia Legislativa do Estado em 2018.

Postagem antiga voltou a circular no Facebook

O vídeo analisado pelo Estadão Verifica circula nas redes com a falsa atribuição ao suposto prefeito do PT desde maio de 2019, quando ocorreu o evento. Uma das versões acumulou mais de 570 mil visualizações no Facebook e voltou a ser compartilhada na plataforma. A agência de checagem Aos Fatos verificou o mesmo conteúdo, em março deste ano, e concluiu que a legenda é falsa pelo mesmo motivo.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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