Vídeo de desabamento de prédio foi filmado na Faixa de Gaza, não na Ucrânia

Vídeo de desabamento de prédio foi filmado na Faixa de Gaza, não na Ucrânia

Gravação circula fora de contexto no WhatsApp, com mensagens que dizem se tratar de ataque russo com mísseis hipersônicos a Ministério da Defesa ucraniano

Daniel Tozzi Mendes, especial para o Estadão

30 de março de 2022 | 13h59

Circula pelo WhatsApp o vídeo de um prédio desabando após ser atingido por mísseis. Mas, ao contrário do que afirma o texto que acompanha as imagens, não se trata de um ataque russo ao Ministério da Defesa da Ucrânia. A gravação, na verdade, é de maio de 2021 e mostra um ataque de Israel à Palestina. Na ocasião, mísseis israelenses atingiram a Torre Al-Sharouk, edifício de 14 andares que fica na Faixa de Gaza. 

Leitores pediram a checagem da mensagem por WhatsApp, (11) 97683-7490.

No vídeo, a cena do ataque dos mísseis ao prédio é filmada por um homem, que está próximo ao edifício atingido. Segundos depois do ataque, o prédio começa a desabar, enquanto o homem continua filmando. Para checar o conteúdo, o Estadão Verifica fez uma busca reversa por imagem (aprenda a usar aqui) a partir de um frame do vídeo. O resultado encontrado levou a conteúdos publicados em sites internacionais sobre o ataque israelense (1, 2 e 3).

O vídeo foi postado pela primeira vez por um usuário do Instagram, em 12 de maio de 2021, e imediatamente começou a viralizar. De acordo com informações divulgadas na época, a Torre Al-Sharouk foi o terceiro edifício palestino atacado por Israel em pouco menos de três dias. Autoridades israelenses afirmaram que os prédios atacados estavam sendo utilizados pelo grupo palestino Hamas para fins militares. Já a agência de notícias palestina Wafa, afirmou que o prédio abrigava um centro de mídia, escritórios comerciais e residências, e que não havia “nenhuma razão clara” para os bombardeios.  

Mísseis hipersônicos 

Além da afirmação falsa de que o ataque teve como alvo o Ministério da Defesa ucraniano, o texto que acompanha o vídeo no WhatsApp diz que o exército russo teria usado um “míssil hipersônico Kinzhal” na operação. Também segundo o texto, os russos teriam “avisado com antecedência” sobre o ataque e a imprensa teria sido “convidada” a acompanhar a movimentação. 

De fato, na última semana, o Ministério da Defesa da Rússia afirmou que utilizou mísseis hipersônicos do tipo “Kinzhal” em um ataque a um depósito de armamentos ucraniano, localizado na região Oeste do país. Mísseis desse tipo podem voar a mais de 6.000 km/h e atingir alvos até a 2.000 quilômetros de distância. Não há registros, contudo, de qualquer ataque russo direcionado ao Ministério da Defesa da Ucrânia, em Kiev, embora prédios de outros órgãos de governo ou de autoridades locais ucranianas já tenham sido atingidos ao longo do conflito. 

Ataques de Israel à Gaza 

Desde o início da guerra na Ucrânia, em fevereiro, diversas postagens nas redes sociais têm compartilhado imagens ou vídeos de ataques de Israel à Palestina com legendas falsas, indicando que os materiais teriam sido feitos no atual conflito do Leste europeu (veja, por exemplo, aqui e aqui). Boa parte dessas postagens utiliza registros feitos em maio de 2021, quando ocorreu uma intensificação de ataques israelenses à região da Faixa de Gaza. Na época, os ataques de Israel deixaram dezenas de palestinos mortos e foram uma resposta à ofensiva do Hamas, que controla parte da Faixa de Gaza.

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