Postagem usa dados imprecisos ao comparar preços de alimentos em 2017 e 2022

Postagem usa dados imprecisos ao comparar preços de alimentos em 2017 e 2022

Post afirma ter havido inflação de até 483% em itens da cesta básica, o que é exagerado

Júlia Cerqueira, especial para o Estadão

02 de agosto de 2022 | 15h00

São enganosas postagens no Facebook que comparam preços de alimentos da cesta básica de 2017 com os deste ano. Embora o valor dos 16 itens listados realmente tenha aumentado, as publicações exageram a inflação registrada no período. Segundo a pesquisa mensal de preços médios da cesta básica do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), ao menos oito dos alimentos presentes na lista têm preços errados.

Um dos posts compartilhado no Facebook foi feito por uma conta anônima e não cita nenhuma fonte.  As postagens afirmam que em 2017 o arroz era vendido por R$ 6,99 e, em 2022, passou a R$ 25,00. Porém, segundo a pesquisa do Dieese nos anos de comparação, o quilograma do arroz era comercializado por R$ 2,96 e, neste ano, é vendido por R$ 4,01 na cidade de São Paulo — capital com a cesta básica mais cara do País. O post afirma ter havido um crescimento inflacionário de 258%, mas na realidade, a alta foi de 35% sobre o item, de acordo com os preços registrados pelo Dieese.

Dentre os oito itens verificados no levantamento, sete tiveram preços exagerados. O óleo de cozinha é o único cujo valor listado na postagem é menor que o real. Confira os dados da publicação e do Dieese na tabela a seguir:

O café não foi acrescentado na verificação por não apresentar equivalência de peso em relação ao valor coletado pelo Dieese. Na publicação, em 2017 o café de 250g estava sendo vendido a R$3,99, e em 2022, passou a custar R$ 9,70. Já a pesquisa mostra que o café de 1kg custava R$ 22,38 em 2017. Neste ano, o produto está sendo vendido, em média, por R$ 42,00.

Os dados foram retirados da pesquisa mensal do Dieese Cesta Básica de Alimentos — Preços Médios. Os valores usados no levantamento do Estadão Verifica foram coletados na cidade de São Paulo e correspondem aos meses de junho de 2017 e de 2022. 

A metodologia da pesquisa considera os gastos médios mensais das famílias de um a três salários mínimos. Os locais de compra pesquisados incluem pelo menos 30 supermercados, além de vendedores ambulantes, vendas em porta da escola, igreja, minimercados, mercadinho, empórios, casas de carne, açougues, frutarias, quitandas, bodegas, tabernas, verdureiras, quermesses e outros. Alguns supermercados podem apresentar valores maiores ou menores do que o preço médio apresentado pelo Diesse, mas o levantamento adota o mesmo padrão em 27 capitais do Brasil.

Post exagera inflação de alimentos

Nem todos os itens listados nas postagens aparecem na pesquisa do Dieese. Porém, segundo dados da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), o aumento dos produtos não foi tão grande quanto o mencionado nos posts. A maior inflação registrada entre junho de 2017 e o mesmo mês de 2022 foi a do óleo de cozinha: 147,71%. O post analisado aqui sugere um salto muito maior, de 344,01%. A menor alta entre os itens citados foi a do macarrão, de 49,77%. Na postagem, o aumento listado é de 203,03%. Veja abaixo a tabela da Fipe.

Preço da gasolina está incorreto

O preço da gasolina listado na postagem não coincide com o valor médio nacional. A publicação informa que em 2017, o combustível custava R$ 3,99 e, agora, passou para R$ 5,89. Porém, segundo o cálculo da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), em julho de 2017 o produto era vendido em média a R$ 2,51. No mesmo mês deste ano, está sendo comercializado em média a R$ 6,05


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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