Posts enganosos distorcem artigo de Arnaldo Jabor sobre governo Lula escrito em 2006

Posts enganosos distorcem artigo de Arnaldo Jabor sobre governo Lula escrito em 2006

Boato acrescenta trechos inexistentes ao conteúdo original e erra ao afirmar que texto teria sido censurado

Victor Pinheiro, especial para o Estadão

11 de março de 2021 | 19h03

Mensagens enganosas no Facebook e no WhatsApp espalham uma versão distorcida de um artigo escrito pelo cineasta Arnaldo Jabor, em 2006, com críticas ao PT e ao ex-presidente Lula (PT). Além de alterar trechos do texto original, o conteúdo falso acrescenta referências a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e ao governo da ex-presidente Dilma Rousseff, que só assumiu a presidência da República em 2011. 

Leitores pediram a checagem deste boato pelo WhatsApp do Estadão Verifica, (11) 97683-7490.

O cineasta Arnaldo Jabor. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

O artigo de opinião de Jabor foi publicado na edição de 25 de abril de 2006 do jornal O Globo. A coluna, de fato, faz duras críticas ao governo Lula e chega a classificar o petista como “psicopata” e mentiroso. Já a versão adulterada circula nas redes sociais desde pelo menos 2016. Repleto de distorções, o conteúdo enganoso voltou a circular dias após o ministro do STF Edson Fachin anular as sentenças do ex-presidente Lula no âmbito da Lava Jato.

Enquanto o texto original acusa o PT de tentar se perpetuar no poder por 20 anos, a mensagem enganosa eleva o número para 70 anos e inventa uma comparação com a União Soviética. A versão distorcida ainda menciona os nomes de cinco juízes do STF, que não são citados na coluna de Arnaldo Jabor. Repare no exemplo abaixo: 

Original:

“[…] o Judiciário paralítico entoca todos os crimes na fortaleza da lentidão e da impunidade. Só daqui a dois anos serão julgados os indiciados – nos comunica o STF. Os delitos são esquecidos, empacotados, prescrevem. A Lei protege os crimes e regulamenta a própria desmoralização”.

Falso:

“o Judiciário paralítico entoca a maioria dos crimes, na Fortaleza da lentidão e da impunidade, à exceção do STF, que, só daqui a seis meses, na melhor das hipóteses, serão concluídos os julgamentos iniciais da trupe, diz o STF. Parte dos delitos são esquecidos, empacotados, prescrevem, com a ajuda sempre presente, dos TÓFFOLIS e dos LEVANDOWISKIS. (Some-se a estes dois: Marco Aurélio, Gilmar Mendes e Rosa Weber). A Lei protege os crimes e regulamenta a própria desmoralização”

Em outra passagem, o texto modificado diz que um relatório da CPI dos Correios e o parecer do procurador-geral da República enquadraram “39 quadrilheiros do escândalo do MENSALÃO. Faltou o CHEFÃO”. O conteúdo original cita os dois documentos, mas não usa a palavra quadrilheiros nem cita explicitamente o escândalo de corrupção. 

Texto não foi censurado

As mensagens que circulam nas redes também erram ao afirmar que o texto de Arnaldo Jabor foi retirado da rádio CBN por uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Na verdade, a corte mandou o veículo suspender um comentário do cineasta que foi ao ar em outubro de 2006 e não tinha conexão com o artigo publicado no O Globo. 

O discurso retirado de Jabor oferecia uma análise opinativa do debate presidencial entre Lula e Geraldo Alckmin (PSDB). A decisão do TSE atendeu a uma ação da campanha do petista que acusou o comentarista da CBN de exaltar o tucano e se referir de forma negativa ao então presidente.

Segundo o site Consultor Jurídico, ministros do tribunal argumentaram que o conteúdo feriu a legislação, que proíbe emissoras de rádio e TV de rádio de emitir opinião positiva ou contrária a um candidato durante a campanha eleitoral. 

Colunista já foi alvo de desinformação

O tom alarmista do texto adulterado é um fator comum a boatos falsos nas redes sociais. Ao afirmar que o artigo foi censurado, o post sugere que o conteúdo trata de um assunto urgente, exclusivo e importante que merece ser compartilhado. 

Vale ressaltar também que o nome de Arnaldo Jabor já foi enganosamente associado a outros textos virais em plataformas digitais. Em setembro de 2018, o Estadão Verifica desmentiu que o cineasta seria autor de um artigo de apoio à candidatura de Jair Bolsonaro à presidência. O próprio Jabor chegou a escrever um artigo na edição do Globo de 03 de novembro de 2009 em que reclama do uso inapropriado de seu nome na internet. /COLABOROU BRENDA ZACHARIAS

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