Postagens usam números descontextualizados de igrejas queimadas no Chile

Postagens usam números descontextualizados de igrejas queimadas no Chile

Protestos recentes no país causaram incêndios em dois templos religiosos, e não em 15, como afirmam boatos nas redes sociais

Guilherme Bianchini, especial para o Estadão

23 de outubro de 2020 | 11h45

Publicações virais nas redes sociais exageram o número de igrejas queimadas em protestos no Chile. No último domingo, 18, manifestantes colocaram fogo em dois templos, e não em 13 ou 15, como afirmam os boatos compartilhados no Facebook. Os números citados tiram de contexto outros episódios de incêndios em igrejas chilenas, que nada tiveram a ver com os atos do último fim de semana, que marcaram o aniversário de um ano da onda de protestos civis no país em 2019.

Postagens exageram número de igrejas queimadas em protestos chilenos recentes. Foto: Reprodução

As postagens usam os números distorcidos para questionar a postura do Papa Francisco, que ainda não se manifestou sobre os incêndios nas igrejas São Francisco de Borja e Assunção — ambas na capital Santiago. Bispos do Chile e episcopados da América Latina, no entanto, já se pronunciaram em tom de repúdio aos acontecimentos.

Algumas das postagens analisadas fazem referência a ataques em série a igrejas chilenas que ocorreram em janeiro de 2018. Na época, a população protestou contra os gastos com a visita do Papa ao país, estimados em US$ 18 milhões — financiados pelo governo local e pela Igreja Católica. Segundo o Vatican News, portal oficial do Vaticano, houve ataques com bombas incendiárias a 13 igrejas em um período de 11 dias.

Dois anos antes, outra onda de vandalismo no Chile registrou o número de 13 igrejas queimadas, sem qualquer relação com os protestos mais recentes. Em 2016, houve uma série de incêndios em templos católicos e evangélicos na região da Araucanía, em decorrência de conflitos do povo indígena mapuche, que luta pela posse de terras no local.

Estadão Verifica já checou outros boatos que citam o Papa Francisco. Não é verdade que o pontífice tenha sido fotografado de mãos dadas com um ativista gay, que ele tenha dialogado com o presidente Jair Bolsonaro sobre a Amazônia ou que ele tenha usado um crucifixo representando a bandeira LGBT.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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