Postagens enganam ao associar ataque hacker contra TSE à urna eletrônica
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Postagens enganam ao associar ataque hacker contra TSE à urna eletrônica

Invasão ocorrida em 2020 teve acesso apenas a dados administrativos antigos, e não a dados da votação; lisura das eleições foi garantida, de acordo com ministro de Bolsonaro

Pedro Prata

21 de julho de 2021 | 17h19

Uma postagem nas redes sociais questiona a integridade das eleições ao dizer que um hacker teria sido preso por “invadir o TSE”, o Tribunal Superior Eleitoral. Esse conteúdo engana porque dá a entender que as urnas eletrônicas e o processo de apuração teriam sido violados — o que não ocorreu. No ano passado, um hacker vazou dados administrativos da Corte, mas não adulterou a votação nem atacou as urnas eletrônicas.

A postagem traz as afirmações “hacker está preso por invadir TSE” e “Barroso diz que é impossível invadir TSE”, para em seguida questionar: “Então por que o hacker está preso?” O ministro Luís Roberto Barroso de fato afirmou que não seria possível invadir o sistema eleitoral, mas estava se referindo à segurança exclusivamente das urnas eletrônicas. Desde sua implementação, em 1996, não houve fraudes comprovadas nas eleições brasileiras.

Essa postagem foi compartilhada ao menos 2,3 mil vezes no Facebook.

Hackers não invadiram sistemas do processo eleitoral. Foto: Reprodução

A que hacker os posts se referem?

No dia do primeiro turno das eleições municipais, em novembro passado, ocorreu o vazamento de dados de servidores públicos do TSE. O então ministro da Justiça e Segurança Pública André Mendonça afirmou que os dados eram referentes ao ano de 2001 e que o acesso aos dados havia ocorrido um mês antes. Mendonça, que seria nomeado por Bolsonaro para o Supremo Tribunal Federal (STF), negou qualquer risco à lisura do processo eleitoral.

Ele também anunciou uma investigação para apurar os responsáveis pelo ataque. Em 28 de novembro, às vésperas do segundo turno, a Polícia Federal prendeu um hacker conhecido como Zambrius, em Portugal, acusado de comandar o ataque ao TSE. Também foram efetuadas buscas e apreensões com outros três investigados brasileiros em São Paulo e Minas Gerais. 

Zambrius deu uma entrevista ao Estadão quando ainda era investigado pelo crime cibernético. Ao ser questionado sobre a influência que o ataque teve na circulação de desinformação sobre o processo eleitoral, disse que não tinha intenção de impulsionar desinformação sobre fraudes. “Bem, a minha invasão ao TSE não afeta ou causa fraudes nas eleições, mas possivelmente exista algum documento que comprometa o TSE, é uma questão de explorar o banco de dados”, disse.

Quatro meses depois, outro dos investigados foi preso preventivamente, porém por um crime diferente. VANDATHEGOD, como é conhecido Marcos Roberto Correia da Silva, é acusado de ter vazado os dados pessoais de 220 milhões de brasileiros. Inicialmente, a origem dos dados foi apontada como a empresa de análise de crédito Serasa, o que a entidade nega.

Como mostrou essa checagem do Projeto Comprova, o vazamento de dados do ano passado expôs apenas dados administrativos antigos disponíveis no site do TSE. Portanto, as postagens que omitem que essas informações vazadas não possuíam nenhuma relação com a realização das eleições,espalham desinformação sobre o processo eleitoral. O registro do voto pelos eleitores é feito em urnas eletrônicas que não possuem acesso à internet, o que impede ataques hackers. Já a apuração é feita em uma rede privada.

VANDATHEGOD aparece em uma entrevista publicada pelo deputado federal Filipe Barros (PSL-PR) em suas redes sociais. No vídeo, ele faz alegações infundadas, como a de que existe a possibilidade de manipular a votação pela internet.

O que diz o TSE sobre a segurança das urnas?

A postagem alega que “Barroso diz que é impossível invadir TSE”, novamente se valendo de uma expressão dúbia. A publicação se refere a Luís Roberto Barroso, ministro do Supremo Tribunal Federal e atual presidente do TSE. O magistrado reafirmou em diversas ocasiões a segurança da urna eletrônica — mas não disse que era impossível acessar os arquivos administrativos que foram vazados. 

Recentemente, Barroso foi convidado a participar de uma sessão da comissão especial da Câmara que discute a implementação de um registro impresso do voto — popularmente conhecido como voto impresso. Barroso rebateu as dúvidas colocadas sobre a lisura do processo e disse que desde a implementação das urnas eletrônicas, em 1996, nunca houve casos comprovados de fraudes.

“A introdução do voto impresso seria uma solução desnecessária para um problema que não existe com o aumento relevante de riscos”, afirmou o presidente do TSE. “O que nós fizemos com o sistema eletrônico de votação foi derrotar um passado de fraudes que marcaram a história brasileira no tempo do voto de papel.”

“Tudo o que diz respeito a informática, tem um grau de vulnerabilidade. JBS foi atacada, o pipeline dos Estados Unidos, foi atacado. A CIA já foi atacada. Portanto, estar sujeito a ataques faz parte da vida moderna”, disse ele. “Nós temos é que nos preparar para que os ataques produzam o menor impacto possível na realidade. Como fizemos isso? Tiramos a urna do sistema. Não tem como atacar a urna. Portanto, não tem como fraudar o resultado eleitoral”.

Os arquivos digitais do TSE possuem assinatura e resumo com criptografia de modo a confirmar sua autenticidade e denunciar caso o software seja alterado. Tanto a assinatura quanto o resumo digital podem ser conferidos por partidos políticos, Ministério Público e OAB.

As urnas eletrônicas só aceitam o sistema eletrônico gerado pela Justiça Eleitoral, assim como o software só funciona em hardwares autênticos. Portanto, nem o sistema funcionaria em uma máquina que tenha sido modificada, nem a máquina autêntica aceita sistemas com irregularidades.

É importante dizer que a urna eletrônica funciona sem conexão com redes de computadores como a internet. Também não possui o hardware (equipamento) necessário para se conectar de maneira remota com uma conexão sem fio.

Há mecanismos de auditoria antes e após as eleições que podem ser feitos por partidos, coligações e pelo Ministério Público. São realizados ainda Testes Públicos de Segurança, eventos nos quais os participantes têm acesso ao código-fonte do software das urnas e tentam violar as barreiras de segurança. Essa é uma forma de colocar o mecanismo à prova, e o último teste foi realizado em 2019.

O TSE é o órgão máximo da Justiça Eleitoral. Ele é responsável, juntamente com os tribunais regionais eleitorais, por administrar o processo eleitoral no País. É composto de três ministros do Supremo Tribunal Federal, dois do Superior Tribunal de Justiça e dois da classe dos juristas.

Contestação das urnas eletrônicas

Em meio a queda de popularidade e pressão devido aos desdobramentos da CPI da Covid, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) faz constantes ataques infundados sobre a lisura do processo eleitoral. Ele já citou uma auditoria do PSDB para dizer que houve fraude nas eleições de 2014, embora a investigação não tenha encontrado nenhuma prova disso.

As investidas de Bolsonaro sobre o processo eleitoral se intensificaram quando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva se tornou elegível devido a decisões no STF que anularam suas condenações na Justiça. O petista figura em pesquisas de intenção de votos como o candidato favorito.

Bolsonaro conturba o processo eleitoral a mais de um ano do pleito em que tentará a reeleição, alegando que caso o registro impresso do voto não seja aprovado no Congresso, haverá fraudes. Essa se tornou uma das principais frentes de atuação dos bolsonaristas na Câmara. A proposta do voto impresso tem autoria de Bia Kicis (PSL-DF) e recebeu relatório favorável de Filipe Barros (PSL-PR), ambos do antigo partido de Bolsonaro. Já o presidente da comissão que analisa o tema é Paulo Eduardo Martins (PSC-PR), da base do governo.

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