Postagem engana ao associar alimentos transgênicos a câncer
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Postagem engana ao associar alimentos transgênicos a câncer

Relação entre organismos geneticamente modificados e doenças não tem comprovação científica

Guilherme Bianchini, especial para o Estado

24 de setembro de 2020 | 21h20

 

O que andam espalhando: 

Estão espalhando que produtos transgênicos causam câncer (não é verdade). Um boato contra os transgênicos circulou nas redes sociais em 2019, mas voltou a ganhar repercussão no Facebook no mês de setembro. A imagem mostra em destaque o símbolo de transgênico em um biscoito de maizena da Piraquê, e o texto associa produtos desse tipo a câncer, infertilidade, autismo, doença de Alzheimer e resistência a antibióticos. Uma publicação de fevereiro do ano passado já recebeu mais de 56 mil compartilhamentos.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: 

Não há comprovação científica de que alimentos transgênicos causem câncer e outras patologias ou aumentem a resistência a antibióticos. Um estudo francês de 2012 apresentou essa hipótese ao realizar testes em cerca de 200 ratos, mas a revista Food and Chemical Toxicology promoveu a retratação do artigo, ou seja, o reconhecimento de que era falho, após questionamentos de entidades científicas e de segurança alimentar. Desde então, não houve pesquisa científica que provasse a relação entre os transgênicos e o desenvolvimento de tumores.

Quem espalha isso? 

Grupos que promovem a chamada alimentação alternativa costumam promover a ideia de que alimentos transgênicos fazem mal à saúde. Essa crença não encontra respaldo em evidências científicas.

É falso que alimentos transgênicos causem câncer e outras doenças. Foto: Reprodução

Como verificamos:

  • Ouvimos especialistas no assunto:

O bioquímico Flavio Finardi Filho, professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (FCF/USP) e vice-presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), disse: “São totalmente inverídicas as alegações de câncer ou qualquer tipo de enfermidade causada direta ou indiretamente por ingestão de organismos geneticamente modificados (transgênicos) ou seus derivados. Esse tema é recorrente, aparece de tempos em tempos.”

O biólogo Marcelo de Oliveira Santos, pesquisador e professor do Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), explicou que um produto transgênico precisa passar por uma série de testes de segurança antes de ser liberado ao público. “Essa associação (transgênicos e câncer) é muito genérica, feita para criar um pavor nas pessoas”, disse ele. Marcelo de Oliveira Santos também descarta a hipótese de o consumo de alimentos transgênicos causar resistência a antibióticos. O pesquisador esclarece que algumas plantas selecionadas possuem genes resistentes a antibióticos, mas estes não são transmitidos para os seres humanos nem tornam a pessoa resistente aos medicamentos citados.

  • 2. Buscamos informações com instituições que pesquisam o tema: 

A comunidade internacional conduz testes que investigam a segurança dos organismos geneticamente modificados, com padrões definidos pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO). Até o momento, nenhuma pesquisa que ligue os transgênicos a outras doenças, além do câncer, chamou a atenção das entidades.

Informações adicionais:

O símbolo de transgênico — um “T” preto dentro de um triângulo amarelo — era obrigatório em alimentos geneticamente modificados desde 2003. Uma lei de autoria do então deputado (hoje senador) Luis Carlos Heinze (PP-RS), porém, flexibilizou a exigência. A Comissão de Meio Ambiente (CMA) do Senado aprovou a alteração em abril de 2018, com a justificativa de não haver evidências de danos dos transgênicos à saúde.

A nova legislação isenta os produtores de alimentos de informar sobre a presença de componentes transgênicos, desde que a concentração seja inferior a 1% da composição final. Os produtos com porcentagem superior ao limite continuam com um aviso obrigatório no rótulo, mas o símbolo antigo foi abolido. A lei exige apenas que o rótulo apresente, de forma legível, um destes termos: “(nome do produto) transgênico” ou “ contém (nome do ingrediente) transgênico”.

O assunto ainda é motivo de muitas divergências no meio acadêmico-científico. Defensores da presença do símbolo de transgênico alegam que ainda não houve tempo para pesquisas conclusivas sobre os alimentos geneticamente modificados. Do outro lado, a justificativa é de que o triângulo amarelo assustava os consumidores e os afastava dos produtos, mesmo sem comprovação de qualquer dano à saúde.

Busquem conhecimento:

Algumas sugestões de leitura sobre o assunto: 

Como sabemos que transgênicos são seguros?

Transgênico é seguro, dizem cientistas dos Estados Unidos

Outras checagens sobre esse assunto: 

O Boatos.org também checou esta informação.

Por que verificamos esse boato: 

A equipe do Estadão Verifica trabalha todos os dias para combater a desinformação na internet e nas redes sociais, porque acreditamos que pessoas bem informadas tomam melhores decisões e contribuem mais com suas comunidades. Analisamos conteúdos suspeitos que aparecem em nossas ferramentas de monitoramento ou que são enviados por leitores.

O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens no Facebook potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização, em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

 

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