Postagem cria falsa relação entre apreensão de R$ 15 mi em ouro ilegal e atuação de ONGs na Amazônia

Postagem cria falsa relação entre apreensão de R$ 15 mi em ouro ilegal e atuação de ONGs na Amazônia

Polícia Federal informou que operação combateu garimpos no Pará

Pedro Prata

23 de outubro de 2020 | 16h36

Um post no Facebook engana ao associar a atuação de ONGs na Amazônia com uma apreensão de R$ 15 milhões em ouro ilegal pela Polícia Federal. A PF negou que haja participação de ONGs no esquema investigado. Este conteúdo foi compartilhado ao menos 13,2 mil vezes.

PF negou relação de ONGs com os crimes investigados. Foto: Reprodução

O boato se baseia na deflagração da operação Ouro Frio em 9 de outubro. A investigação apura a extração ilegal de ouro em garimpos clandestinos e a tentativa de “esquentamento” do mineral, nome dado à fraude para dar aparência de legalidade ao minério ilícito. Foram apreendidas 4 aeronaves e 72 barras de ouro na casa de um dos investigados, com valor estimado em R$ 14,8 milhões.

Cerca de 30 policiais federais cumpriram mandados de busca e apreensão no Pará. Portanto, a informação da peça de desinformação de que se trataria de ação no Amazonas está incorreta. A assessoria de imprensa da PF ainda negou que a ação tenha relação com ONGs que atuem na região.

A Polícia Federal tem competência para “prevenir e reprimir o contrabando e o descaminho”. Também cabe à PF apurar infrações penais praticadas em detrimento de bens, serviços e interesses da União, como é o caso de garimpos ilegais em terras indígenas.

Apreensão de ouro ilegal não é novidade

A postagem também questiona se “Você já tinha ouvido falar de alguma vez na história do Brasil de apreensão de ouro ou diamante de garimpo?”, sugerindo que este tipo de ação seria novidade. Na verdade, o Estadão Verifica encontrou no acervo do Estadão diversos registros antigos de combate a este tipo de crime pela PF, o que comprova que este tipo de operação não é recente.

Em 2015, o alvo da PF foi um grupo de policiais civis da ativa, um oficial da Polícia Militar da reserva e um vereador que comandavam a exploração ilegal de ouro em Pontes Lacerda, no Mato Grosso.

Dois anos depois, a PF deflagrou a Operação Crisol contra uma gigante do ramo de distribuição de valores mobiliários. Segundo os policiais, o esquema de envio de ouro ilegal extraído no Pará e enviado para São Paulo movimentava 180 kg de ouro por semana, o que geraria cerca de R$ 27 milhões semanais aos investigados. Durante as investigações foram apreendidos 70 kg do minério.

Já a Operação Muiraquitã, em 2018, teve como objetivo acabar com as atividades de um garimpo ilegal do tamanho de 50 campos de futebol na terra indígena Kayapó, no sudoeste do Pará. O garimpo ilegal contava ainda com duas pistas de pouso ilegais.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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