Post viral distorce informações sobre família real brasileira

Post viral distorce informações sobre família real brasileira

Texto que circula no Facebook e no WhatsApp usa dados insustentáveis para exaltar monarca D. Pedro II e a princesa Isabel

Victor Pinheiro e Gabi Coelho, especial para o Estadão

06 de novembro de 2020 | 16h04

Uma publicação viral no Facebook difunde informações distorcidas e insustentáveis sobre a família real brasileira. Com mais de 45 mil compartilhamentos desde abril, a postagem engana ao apontar que o Brasil foi o maior construtor de estradas de ferro do mundo no século XIX e apresenta dados duvidosos sobre a taxa de analfabetismo registrada na época. 

Para checar as afirmações, o Estadão Verifica consultou a historiadora e professora da PUC Minas Julia Calvo e o coordenador do Núcleo de Estudo de Processos Criativos (Nuproc) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Sergio Romanelli. Os especialistas apresentaram uma série de documentos históricos, bibliografias e pesquisas acadêmicas à reportagem. Também realizamos pesquisas independentes. 

Por falta de informações verificáveis, não foi possível checar uma parte dos dados divulgados no post. Em 2019 o mesmo boato circulou no Whatsapp e foi checado pelo portal Aos Fatos.

Da esquerda para a direita: a imperatriz Dona Teresa Cristina, D. Antônio, a princesa Isabel, o imperador, D. Pedro Augusto (filho da irmã da princesa Isabel, d. Leopoldina, duquesa de Saxe), D. Luís, o conde d’Eu e D. Pedro de Alcântara (príncipe do Grão-Pará). Foto: Otto Hees (1870-1940) / Wikimedia Commons

Veja o que é verdade ou boato sobre a Família Imperial

“A ideia do Cristo na montanha do Corcovado partiu da Princesa Isabel”.

Alguns artigos acadêmicos atribuem a proposta ao padre Pierre Maria Boss. No texto intitulado Brasileiro e europeu: a construção da nacionalidade em torno do monumento ao Cristo Redentor do Corcovado, o professor do departamento de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Emerson Giumbelli afirma que “quase todas as narrativas históricas sobre o monumento religioso no Corcovado reconhecem que a ideia original teria partido do padre lazarista Pierre Marie Boss, que chegou a sugerir a obra para a princesa Isabel”. 

Outro artigo publicado na Cordis: Revista Eletrônica de História Social da Cidade, da PUC de São Paulo, confirma que a ideia do monumento teria partido do religioso, que teria se encantado com a visão do Corcovado.

“D. Pedro II tentou a abolição da escravatura desde 1848. Uma luta contra os poderosos fazendeiros por 40 anos”

A afirmação é insustentável. Segundo a pesquisadora Julia Calvo, ideias acerca da abolição da escravidão eram pouco expressadas pelo imperador. As preocupações humanitárias são atribuídas à princesa Isabel, enquanto alguns atos de Dom Pedro II em prol do fim da escravidão foram motivados por questões diplomáticas. 

“Na 2ª metade de 1840, diante das pressões inglesas, o Imperador e seu ciclo começaram a pensar na possibilidade do fim da escravidão”, explica Júlia. “Entretanto, eles não viam urgência em acabar com ela, pois acreditavam que, enquanto a escravidão continuasse a existir em outras partes como nos Estados Unidos, o Brasil não enfrentaria nenhum risco de sanções internacionais ou de ação direta para forçar a abolição aqui”. 

A historiadora nega que D. Pedro II tenha lutado por 40 anos “contra poderosos fazendeiros para abolir a escravidão”, como afirma a postagem viral. Ela ressalta que o tema era uma competência do Poder Legislativo e a abolição seria feita por força de lei. Em 1866, o imperador chegou a receber pelo menos cinco projetos legislativos que determinavam a abolição da escravidão, mas os debates foram adiados em decorrêcia da Guerra do Paraguai. A pesquisadora afirma que Dom Pedro II não propôs nem a forma como a escravidão deveria ser extinta. 

Dom Pedro II, a imperatriz Thereza Christina Maria, a princesa Isabel e o conde d’Eu. Rio de Janeiro. Albúmen, carte cabinet, 10 x 13,9 cm. Foto: Alberto Henschel (1827–1882) / Wikimedia Commons

“D. Pedro II falava 23 idiomas, sendo que (em) 17 era fluente”

Um artigo do Núcleo de Estudos de Processos Criativos (Nuproc), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), aponta que Dom Pedro II era um estudante assíduo de línguas estrangeiras. De acordo com a pesquisa, o imperador “falava alemão, italiano, espanhol, francês, latim, hebraico e tupi-guarani. Lia grego, árabe, sânscrito e provençal”, assim como, fazia traduções do grego, do hebraico, do árabe, do francês, do alemão, do italiano e do inglês. 

Outro trabalho do grupo, este publicado no anuário do Museu Imperial (abaixo), indica que o imperador conduzia pesquisas etimológicas em até 18 idiomas. Ao Estadão Verifica, o coordenador do Nuproc, Sergio Romanelli, esclarece que foram encontrados no Arquivo Histórico do Museu Imperial manuscritos em cerca de vinte idiomas antigos e modernos. No entanto, ainda não se sabe exatamente quantos idiomas Dom Pedro II estudava. 

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Romanelli ressalta que os registros são informações indiretas acerca da fluência do imperador nessas línguas, mas não é possível determinar se ele dominava a quantidade de idiomas apontada na publicação do Facebook. “Com certeza, ele falava fluentemente algumas delas, cinco ou seis”, diz Romanelli. 

“A primeira tradução do clássico árabe ‘Mil e uma noites’ foi feita por D. Pedro II, do árabe arcaico para o português do Brasil”

No livro Dom Pedro II: Um tradutor imperial, os organizadores Noêmia Guimarães Soares, Rosane de Souza e Sergio Romanelli, pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina, escrevem que Dom Pedro II atribui a si mesmo a primeira tradução direta da obra original, em árabe, de Mil e uma noites. Segundo os autores, trata-se de um trabalho jamais publicado. 

O livro destaca um trecho retirado da primeira parte do diário “3ª viagem ao exterior” de Dom Pedro II, datado de 30/06/1887 a 26/04/1888: “12 de julho de 1887 (…) Acabei de traduzir árabe depois de comparar a tradução dos Lusíadas em alemão com o original e de continuar a traduzir as Mil e uma noites no original com o Seibold”. 

O ato de coroação de Dom Pedro II. Imagem: François-René Moreaux (1807-1860) / Wikimedia Commons

“D. Pedro II doava 50% de sua dotação anual para instituições de caridade e incentivos para educação com ênfase nas ciências e artes”

Escritores e cronistas que conviveram com D. Pedro II de fato apontaram que ele doava parte de seu salário, conhecido na época como lista civil, para obras de beneficiência, afirma Julia Calvo. A pesquisadora diz ainda que o imperador era um admirador e incentivador das ciências e artes. 

Ela ressalta, no entanto, que não há registros de valores que confirmem o quanto as doações representavam da dotação anual de Pedro II. Calvo aponta ainda que práticas de caridade eram comuns aos governantes e membros das elites na época.

No livro As Barbas do Imperador, a antropóloga e historiadora Lilia Schwarcz cita uma passagem da obra Imagens do Brasil, de Carlos von Koseritz, em que o autor discorre sobre as doações de Pedro II. 

“Ele não possui nenhuma fortuna pessoal e sua lista civil, já de si insuficiente, vai na maior parte para obras de beneficência, de modo que ele não pode manter nenhuma pompa na corte, nem pode fazer nada para dar brilho às suas residências”, diz o autor. 

“Princesa Isabel recebia com bastante frequência amigos negros em seu palácio em Laranjeiras para saraus e pequenas festas. Um verdadeiro escândalo para época”

Segundo Julia Calvo, a princesa Isabel tinha uma notória ligação com André Rebouças, com quem dançava frequentemente em festas. O engenheiro negro foi um importante articulador do movimento abolicionista e acompanhou a princesa Isabel no exílio em Paris, após a proclamação da República.

Como aponta uma verificação do site Aos Fatos, no livro Castelo de Papel, a historiadora Mary Del Priore se refere à Rebouças como um “amigo íntimo” de Gastão de Orleans e a princesa Isabel. Apesar disso, não há registros de outras pessoas negras que tiveram relações de amizade com o casal. 

“Na casa de veraneio em Petrópolis, a Princesa Isabel ajudava a esconder escravos fugidos e arrecadava numerários para alforriá-los”

Apesar dos rumores na época, o Aos Fatos divulgou que de acordo com informações do livro biográfico de Isabel O Castelo de Papel não há registros de que escravos buscavam refúgio no palácio de Petrópolis. Em uma carta escrita pelo conde D’Eu, marido de Isabel, existe apenas uma ocasião em que um escravo teria fugido para a casa de veraneio. 

Isabel e Gastão junto com seus netos, seu filho Luís e a esposa deste Maria Pia em 1913. Foto:
Desconhecido – Família Imperial do Brasil (CD com fotos do Museu Imperial em Petrópolis) / Wikimedia Commons

“Os pequenos filhos da Princesa Isabel possuíam um jornalzinho que circulava em Petrópolis, um jornal totalmente abolicionista”

A afirmação é verdadeira. O livro Flores, Votos e Balas: o movimento abolicionista brasileiro (1868-88), de autoria da professora do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) Angela Alonso, registra a existência de um jornal abolicionista atribuído aos filhos da princesa Isabel.

“Naquele fevereiro de 1888, Isabel finalmente se moveu, com duas notas públicas”, diz o livro. “Uma foi doméstica — seus filhos lançaram um jornalzinho abolicionista —, a outra foi obra de (André) Rebouças, que a engajou na libertação de territórios, escolhendo uma cidade na qual o prestígio e a segurança da princesa cavam a salvo: Petrópolis”.

“Quando D. Pedro II do Brasil subiu ao trono, em 1840, 92% da população brasileira era analfabeta. Em seu último ano de reinado, em 1889, essa porcentagem era de 56%, devido ao seu grande incentivo a educação, a construção de faculdades e, principalmente, de inúmeras escolas que tinham como modelo o excelente Colégio Pedro II”

Não há dados disponíveis para atestar a taxa de analfabetismo em 1840. O primeiro e único censo demográfico do império foi realizado em 1872 (abaixo) e constatou que cerca de 82% da população brasileira maior de cinco anos era analfabeta. O levantamento seguinte reuniu dados de 1890, já no início da república, e indicou o mesmo percentual de brasileiros que não sabiam ler e escrever. Os dados estão disponíveis em conjunto no censo de 1920 (abaixo).

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Em 1940, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) passou a medir o analfabetismo na população com 15 anos ou mais. A primeira pesquisa registrou uma taxa de 67% de brasileiros nesta faixa etária que não sabiam ler ou escrever. 

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De acordo com a historiadora Julia Calvo, embora a Constituição de 1824 definisse a educação primária como obrigação do Estado, pouco foi feito nesse sentido durante o império e a falta de instrução era a realidade para a maior parte do País. D. Pedro II dedicava sua atenção prioritariamente à educação superior e algumas instituições de ensino secundário, como o Colégio Pedro II, o Museu Nacional e a Academia Imperial de Belas Artes.

“Em 1880, o Brasil foi o maior construtor de estradas de ferro do Mundo, com mais de 26 mil km”

A afirmação é equivocada. De acordo com o relatório anual do Ministério da Agricultura de 1889, o Brasil possuía naquele ano uma extensão total de 9,5 mil quilômetros de vias férreas. A informação está na página 85 do documento, que pode ser consultado na plataforma da Center for Research Libraries, um consórcio de bibliotecas de pesquisa dos Estados Unidos.

O mesmo dado é apresentado em um artigo do Arquivo Nacional Brasileiro sobre a expansão ferroviária do país.

A Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, em 1862. Foto: Augusto Stahl (1828–1877) / Wikimedia Commons

A imprensa era livre tanto para pregar o ideal republicano quanto para falar mal do nosso Imperador. A mídia ridicularizava a figura de Pedro II por usar roupas extremamente simples, e o descaso no cuidado e manutenção dos palácios da Quinta da Boa Vista e Petrópolis”

A afirmação é verdadeira. Em As Barbas do Imperador, Lilia Schwarcz afirma que desde 1850 “a imprensa gozava no Brasil de grande liberdade” e por isso mesmo o próprio imperador era alvo de caricaturas e desenhos satíricos. De acordo com a antropóloga, jornais e revistas ridicularizavam desde as viagens frequentes do monarca até sonecas às quais o imperador se rendia durante eventos públicos. 

Uma publicação no portal de notícias da Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp) apresenta documentos que destacam a visão do monarca acerca da liberdade de imprensa. Tratam-se de recomendações escritas pelo imperador à Princesa Isabel. As cartas foram reunidas em 1958 e publicadas pela Livraria São José.

“A nossa principal necessidade política é a liberdade de eleição; sem esta e a de imprensa não há sistema constitucional na realidade, e o ministério que transgride ou consente na transgressão deste princípio é o maior inimigo do Estado e da monarquia”, diz um trecho escrito pelo imperador. “A tribuna e a imprensa são os melhores informantes do monarca”. 

No contexto político, Julia Calvo ressaltou ao Estadão Verifica que a oposição ao regime de fato usou a imprensa para criticar a monarquia, mas o imperador e seus apoiadores também usaram jornais e revistas para promover disputas políticas, mobilizar a opinião pública e intervir quando necessário. 

“Os grandes jornais, mesmo os mais ácidos e críticos ao imperador, não eram vistos de forma tão perturbadora”, explica Calvo. “Os jornais que incomodavam de fato, porque consistiam em uma ameaça ao imperador, eram aqueles que compunham a chamada imprensa popular, que estava se proliferando principalmente na cidade do Rio de Janeiro no final do século XIX”. 

“O Maestro e Compositor Carlos Gomes, de ‘O Guarani’ foi sustentado por Pedro II até atingir grande sucesso mundial”

Dom Pedro II de fato foi próximo a Carlos Gomes. Uma reportagem do G1 sobre a biografia Lanterna mágica e o burrico de pau – Memória e história de Carlos Gomes, da professora do Departamento de Música da Universidade de Campinas (Unicamp) Lenita Nogueira indica que o imperador foi um admirador e mecenas do maestro. 

A matéria relata ainda que Dom Pedro II apoiou financeiramente os estudos de Carlos Gomes na Itália. De acordo com Julia Calvo, o monarca tinha uma lista de “artistas do imperador”, da qual o maestro fazia parte.

Ela diz, no entanto, que não conhece registros de investimentos financeiros do imperador para Gomes além da encomenda de obras como O Guarani. 

“Pedro II fez um empréstimo pessoal a um banco europeu para comprar a fazenda que abrange hoje o Parque Nacional da Tijuca”

Segundo o site do Parque Nacional da Tijuca, em 1861, Dom Pedro II declarou a floresta da Tijuca uma “floresta protetora”. O monarca iniciou um projeto de desapropriação de chácaras e fazendas para promover o reflorestamento e a regeneração natural da vegetação do local.

A iniciativa, indica um documentário da EBC, foi motivada por um desabastecimento de água no Rio de Janeiro, provocado sobretudo pela exploração ambiental da região. D. Pedro II então atribui a missão de recuperar o parque ao major Manuel Gomes Archer. Em apenas 13 anos, foram plantadas mais de 100 mil árvores, principalmente espécies da Mata Atlântica. 

Não há menções, no entanto, sobre a tomada de empréstimo de bancos europeus.

 

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