Post usa fotos antigas e fora de contexto para minimizar queimadas no Pantanal
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Post usa fotos antigas e fora de contexto para minimizar queimadas no Pantanal

Fogo consumiu 23% do bioma neste ano, e número de focos em 2020 já é o maior da série histórica do Inpe

Samuel Lima, especial para o Estadão

08 de outubro de 2020 | 11h32

Uma postagem com mais de 3,4 mil compartilhamentos no Facebook engana ao comparar, por meio de imagens, as queimadas no Pantanal com supostos registros de outras cinco localidades: Austrália, Sibéria, Califórnia, Espanha e Croácia. Cinco das seis fotos utilizadas não são deste ano, e duas delas também aparecem com a localização incorreta.

Postagem usa fotos antigas e fora de contexto para minimizar queimadas no Pantanal. Foto: Reprodução / Arte Estadão

A imagem que deveria retratar a Califórnia, nos Estados Unidos, na verdade é de 2012 e foi tirada na cidade de Colorado Springs, no estado de Colorado. A autoria é de Helen H. Richardson, do jornal Denver Post. Ela descreve a imagem como “um bairro inteiro ardendo” na cidade depois que os incêndios florestais no Waldo Canyon “fugiram do controle” naquele ano.

Apesar da confusão entre as imagens, a Califórnia realmente está enfrentando uma série recorde de incêndios florestais em 2020. Mais de 4 milhões de acres foram destruídos — equivalente a 16 mil quilômetros quadrados. É mais do que o dobro que a pior temporada anterior. Cientistas atribuem o cenário às mudanças climáticas, que tornaram a região mais seca.

A foto da Austrália não é desse ano — foi tirada pelo fotógrafo Matthew Abbott, do jornal The New York Times, em 31 de dezembro de 2019. Na descrição da imagem, ele relata que “um canguru passa correndo por uma casa em chamas na cidade de Lake Conjola”, no estado de Nova Gales do Sul, Austrália. Os incêndios tiveram início em setembro de 2019 e foram controlados em março deste ano, segundo as autoridades locais

Antes disso, as chamas consumiram uma área de pelo menos 180 mil quilômetros quadrados. Ao menos 33 pessoas morreram e milhares de casas foram destruídas. Os incêndios também afetaram 3 bilhões de animais — mortos ou forçados a migrar — conforme estudo recente da WWF em parceria com pesquisadores de universidades da Austrália. 

A postagem do Facebook mostra ainda a foto de um incêndio florestal em Portugal como se fosse na Espanha. A imagem, de autoria do fotógrafo Paulo M.F. Pires, também não foi tirada neste ano, pois está disponível em bancos de imagens, pelo menos, desde 2017. Apesar de o autor não informar a data, o Estadão Verifica encontrou artigos na internet publicados naquela época com essa mesma foto. 

Portugal enfrentou a pior onda de incêndios florestais de sua história em 2017, quando as chamas consumiram 520 mil hectares. Neste ano, foram 61 mil hectares até setembro (610 quilômetros quadrados), de acordo com notícia recente da agência de notícias Lusa. O País é um dos mais afetados na Europa.

A foto do incêndio da Croácia também é antiga: foi publicada pela AFP em 18 de julho de 2017. De acordo com a fonte original, o incêndio ocorreu “perto da aldeia croata de Podstrana, que fica próxima à cidade costeira de Split”, segunda maior cidade do País europeu.

Mesmo a foto que deveria retratar a situação do Pantanal não é deste ano. A imagem, de autoria de Chico Ribeiro, foi publicada em 29 de outubro de 2019 na página oficial do governo do Estado do Mato Grosso do Sul. O conteúdo informa que as queimadas foram fotografadas na BR-262 e na Estrada Parque do Pantanal.

A única foto atual é a que mostra incêndios florestais na Sibéria, região da Rússia. O registro é da fotógrafa do Greenpeace Julia Petrenko, em julho de 2020. Ela esclarece na legenda que a ONG documentou incêndios florestais na região de Krasnoyarsk. A partir de dados de satélite, o Greenpeace estimou que 10 milhões de hectares na Sibéria — 100 mil metros quadrados — sofreram com incêndios florestais desde janeiro até julho deste ano.

Entenda a situação das queimadas no Pantanal

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que, entre 1º de janeiro e 30 de setembro, o Pantanal teve um total de 18.259 pontos de fogo. Esse número já supera em 82% o total de queimadas observado ao longo de todo o ano passado no bioma, que foi de 10.025. É também o maior valor observado para o período de um ano desde o início dos registros do Inpe, em 1998.

Em área, as queimadas já consumiram neste ano cerca de 23% do Pantanal, segundo estimativas do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Lasa/UFRJ), compiladas até 27 de setembro. O cálculo aponta que o fogo atingiu 34,6 mil quilômetros quadrados. 

O Parque Estadual Encontro das Águas, maior reduto de onças pintadas do mundo, já teve 93% de sua área atingida. Especialistas entendem que a tragédia ambiental ocorre numa combinação de incêndios criminosos e um desequilíbrio hídrico e climático decorrente de problemas em outras regiões do País.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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