Post engana ao afirmar que escorpião-amarelo filhote é mais venenoso que adulto
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Post engana ao afirmar que escorpião-amarelo filhote é mais venenoso que adulto

Ambos animais são perigosos para o ser humano; em caso de acidentes, deve-se procurar atendimento médico imediatamente

Gabi Coelho, especial para o Estadão

20 de agosto de 2020 | 16h58

Circula no Facebook uma publicação que afirma que o filhote de escorpião-amarelo, típico do Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do Brasil, é mais letal que o adulto da mesma espécie, por ter a capacidade de depositar todo seu veneno em uma única picada. Entretanto, um especialista do Departamento de Zoologia da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) esclarece que o post, com quase 40 mil compartilhamentos, tem informações enganosas. Tanto o escorpião adulto quanto o filhote são perigosos e em nenhum dos casos o veneno é despejado totalmente. 

Ao contrário de post viral, especialista esclarece que escorpião-amarelo filhote não é mais venenoso que o adulto

O biólogo Bruno Corrêa Barbosa explica que escorpiões adultos possuem um estoque superior de veneno por serem animais maiores, enquanto os filhotes armazenam veneno em quantidade menor. Mas o ataque de ambos pode ser letal. “O veneno tem como objetivo ser utilizado para alimentação, em pouquíssimos casos para defesa. Sabendo disso, o escorpião, seja ele adulto ou filhote, não quer e não pode usar todo seu veneno na sua defesa, pois (se o animal não for morto após a picada) ele ainda precisa se alimentar”, explica Bruno.

O animal mostrado no post viral é da espécie Tityus serrulatus, a que mais causa acidentes graves, principalmente em crianças e idosos. O especialista alerta que a toxidade do veneno em adultos sadios pode causar apenas fortes dores mas, como ocorre em todo acidente com veneno, é possível ter reação alérgica à composição tóxica e ao tratamento. 

Período de reprodução

O ciclo de reprodução dos artrópodes (animais invertebrados), como formigas, baratas, mosquitos e escorpiões, é influenciado diretamente pelo clima. Por isso, é possível notar que em estações mais quentes, como o verão, ocorrem picos de pragas, como o mosquito da dengue. A postagem analisada afirma que a época de reprodução do escorpião-amarelo é entre os meses de agosto e setembro. Para o biólogo, “são meses referentes ao inverno e início de primavera. Essa informação não está coerente com as estações do ano mais quentes, referentes aos meses dezembro a março”. 

Entretanto, ainda que seja mais correto afirmar que as épocas mais quentes do ano favorecem o surgimento de escorpiões-amarelos, o especialista considera que a precaridade de higiene e saneamento básico de algumas cidades também pode facilitar a proliferação desse animal. Isso faz com que seu ciclo de reprodução não siga o período normal. 

“Vale destacar que, além das condições favoráveis encontradas no ambiente urbanos, essa espécie se reproduz por partenogênese, ou seja, a fêmea se reproduz sozinha, tendo em média 20 filhotes por ano, o que facilita sua proliferação”, diz Corrêa Barbosa. 

Orientações preventivas

A postagem no Facebook também divulga informações retiradas do site do Ministério da Saúde, com orientações para acidentes com animais peçonhentos. O texto cita quatro espécies brasileiras de maior importância em saúde pública e recomenda que, após a picada, deve-se procurar atendimento médico imediatamente. O órgão também fornece uma lista de hospitais que realizam atendimento com soroterapia para picadas de escorpiões.

Em casos de crianças e idosos, considerados grupo de risco para esse tipo de acidente, é necessária a aplicação do soro antiescorpiônico. Para os adultos sadios, a orientação é realizar o tratamento com medicamentos comuns para dor e monitoramento dos sintomas. 

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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