Post cita fonte inexistente para inventar queda de 78% em vendas de produtos chineses no Brasil
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Post cita fonte inexistente para inventar queda de 78% em vendas de produtos chineses no Brasil

Na realidade, importações da China diminuíram 6,9% entre janeiro e julho de 2020; em geral, entrada de produtos estrangeiros no País caiu 10,5%

Samuel Lima, especial para o Estado

10 de agosto de 2020 | 17h47

Não é verdade que um suposto boicote aos produtos chineses no Brasil em meio à pandemia de covid-19 teria diminuído em 78% as compras da China, como sugere boato nas redes sociais. As postagens atribuem o número a algo denominado “Incint”, mas não existe qualquer instituto ou empresa de comércio exterior com esse nome, nem registro de pesquisa no varejo que comprove a queda nas vendas do segmento. Os conteúdos falsos acumulavam mais de 10 mil compartilhamentos no Facebook e no Instagram até a tarde desta segunda-feira, 10.

A alegação é semelhante a de outro boato analisado recentemente pelo Estadão Verifica — de que o comércio de produtos chineses em Santa Catarina teria registrado queda de 30% nas vendas. A mensagem não citava fonte e foi desmentida por entidades empresariais ouvidas pela reportagem. A nova peça de desinformação amplia o suposto boicote a todo o Brasil, mas novamente não encontra respaldo em qualquer fonte confiável.

Não é verdade que compras brasileiras da China tenham reduzido 78%, como alega boato. Foto: Reprodução / Arte Estadão

De acordo com as estatísticas oficiais do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços, as importações da China caíram 6,9% entre janeiro e julho de 2020, em relação ao mesmo período do ano passado. Mas a queda em importações de outros países foi ainda maior: Estados Unidos (-12,2%), União Europeia (-12,8%) e Argentina (-31,9%) apresentam relações mais desfavoráveis, por exemplo. No índice de importações em geral, o Brasil registrou diminuição de 10,5% nas importações, conforme dados da plataforma Comex Stat.

Ao comentar a balança comercial em julho, o governo federal disse que a pandemia do novo coronavírus é a principal explicação para o desaquecimento na entrada de produtos estrangeiros no Brasil. Em relatório recente, a Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) também revisou para baixo as projeções para 2020 com a justificativa de que “a economia e o comércio mundial estão sendo fortemente impactados, direta e indiretamente, pela pandemia do coronavírus”. E uma pesquisa da Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostrou que 70% dos importadores foram prejudicados pela pandemia de covid-19.

O Estadão Verifica não encontrou levantamentos sobre o desempenho de vendas de produtos chineses no mercado brasileiro. A Pesquisa Mensal do Comércio, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), principal referência na medição dos resultados do varejo brasileiro, não estabelece essa diferenciação. De maneira geral, o setor registra queda de 3,9% no volume de vendas e diminuição de 0,6% na receita nos cinco primeiros meses deste ano, em comparação com o mesmo período de 2019. Em relação ao patamar pré-pandemia, o recuo é de 7,3%. Os dados serão atualizados na próxima quarta-feira, 12, com as informações de junho.

Aos Fatos, Fato ou Fake e Agência Lupa também desmentiram esse boato.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: