Ponte integrou Acre à malha rodoviária brasileira em 2021, mas Estado já tinha estrada federal

Ponte integrou Acre à malha rodoviária brasileira em 2021, mas Estado já tinha estrada federal

Clarissa Pacheco

10 de dezembro de 2021 | 13h33

É verdadeiro o conteúdo de um post que circula pelas redes afirmando que, até 2021, o Estado do Acre e uma parte de Rondônia não eram conectados ao restante do Brasil por via terrestre. O conteúdo, que tem mais de 12 mil interações no Facebook, está associado à inauguração, em maio deste ano, da Ponte do Abunã. A obra de fato facilitou o acesso e passou a fazer uma integração rodoviária plena entre Rondônia e Acre, e entre o Acre e o restante da malha rodoviária do país. Os dois Estados – inclusive o trecho onde foi inaugurada a ponte – já têm uma rodovia federal desde 1961, a BR-364. Contudo, antes da inauguração da ponte, não era possível ir de um Estado ao outro sem fazer uma parte do percurso de balsa.

A interrupção no traçado da rodovia pode ser vista no Mapa Multimodal de Rondônia, produzido em 2009 pelo Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (DNIT).

Mapa Multimodal de Rondônia

A estrada, que era chamada de BR-29 ou Rodovia Brasília-Acre quando foi inaugurada pelo então presidente Juscelino Kubitschek no início dos anos 1960, parte da cidade de Cordeirópolis (SP), passa por Minas Gerais, Goiás, alcança Cuiabá (MT) e corta as cidades de Vilhena e Porto Velho (RO) até chegar ao Acre, passando pela capital, Rio Branco, até o município e Mâncio Lima.

São mais de 4 mil km de rodovia pavimentada, mas há uma ‘quebra’ de aproximadamente 1 km antes da chegada ao Acre, nas imediações do encontro do Rio Madeira com o Rio Abunã, bem próximo à fronteira do Brasil com a Bolívia. De acordo com informações de Mirla Miranda, Porta-Voz do Governo do Acre, antes da ponte, só era possível ir de um estado ao outro de avião ou utilizando o serviço das balsas. Segundo o DNIT, o trajeto era feito assim desde a inauguração da BR-364, na década de 1960. O IBGE possui registro fotográfico da travessia por balsas pelo menos de 1976.

Travessia de balsa no Rio Madeira, em 1976. Foto: Hernondino Chagas/IBGE

De acordo com informações da agência de notícias do governo do Acre, as balsas tinham capacidade de transportar 2 mil veículos por dia, com preços que variavam de acordo com o tamanho do veículo. “A tabela do pedágio para travessia no distrito de Abunã isentava apenas pedestres e ciclistas. Os valores variavam de R$ 3,80, para animais, a R$ 130, para carreta de nove eixos, carregada. A travessia de cada automóvel pequeno custava R$ 19, e dos ônibus, R$ 46”, informou a porta-voz do governo.

Com base na capacidade das balsas, o DNIT estimou que o fluxo inicial na nova ponte também seria de 2 mil veículos por dia. A ponte ainda serve para integrar a malha viária brasileira à Estrada do Pacífico, que liga o Acre ao Oceano Pacífico através do Peru.

Obra começou em 2014, após cheia histórica

Embora tenha sido inaugurada durante o governo do presidente Jair Bolsonaro (PL), em 2021, a construção da Ponte do Abunã começou em 2014, ainda no governo Dilma Rousseff (PT). No dia 26 de março daquele ano, uma cheia histórica no Rio Madeira inundou um trecho da BR-364 na altura de Jacy-Paraná, distrito de Porto Velho (RO) que fica a 90 quilômetros da capital de Rondônia.

O tráfego de veículos foi bloqueado. A lâmina d’água na rodovia chegou a 1,4 metro, impossibilitando até mesmo o tráfego de veículos pesados, conforme aponta um relatório de 2014 da Controladoria Geral da União (CGU) com um diagnóstico dos efeitos da cheia do Rio Madeira.

Documento

Além do Acre, algumas localidades de Rondônia também ficaram isoladas por vários dias por conta da cheia. “O isolamento dessas localidades contribuiu para o desabastecimento e a escassez de produtos alimentícios e também para o acréscimo nos preços desses itens no mercado local, dificultando a vida dos moradores”, diz o relatório, que destacou a necessidade de se fazer uma reforma na rodovia, elevando o nível para evitar que novas cheias voltassem a interromper o fluxo, ou criando um acesso alternativo.

Ainda em março de 2014, Dilma anunciou que o governo federal iria construir a ponte sobre o Rio Madeira. O anúncio foi feito logo após ela sobrevoar as áreas afetadas pela cheia do rio, que chegou ao nível recorde de 19,74m. As obras começaram no mesmo ano e atravessaram os governos de três presidentes – além de Dilma, também Michel Temer (MDB) e Bolsonaro, que a inaugurou no dia 7 de maio. Toda a obra custou mais de R$ 160 milhões.

Em agosto passado, o Projeto Comprova classificou como enganoso um post que atribuía a obra da ponte apenas ao governo Bolsonaro.

Fim das balsas

No dia da inauguração da Ponte do Abunã, o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes, disse que a ponte colocava fim ao serviço de balsas que cobravam “R$ 200, R$ 290, às vezes, para fazer uma travessia”. O post que viralizou afirma que o serviço rendia R$ 1 milhão por mês aos proprietários das balsas. Segundo a porta-voz do Governo do Acre, o faturamento era de R$ 1,8 milhão por mês, mas o governo não informou se esse valor vinha de balanços financeiros ou de uma estimativa com base no fluxo de veículos nas travessias.

Pelo menos desde 2009, o serviço era executado pelo empresário Roberto Dorner, que foi deputado federal de Mato Grosso pelo PSD e, no ano passado, se elegeu prefeito de Sinop, no mesmo estado, pelo Republicanos. Uma das empresas dele, a Rodonave Navegações, recebeu termo de autorização para explorar a travessia no local da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) em 2009. Em 2010, a agência autorizou que outra empresa de Dorner, a Amazônia Navegações, fizesse o serviço por tempo indeterminado e sob regime de liberdade de preços. As viagens aconteciam 24 horas por dia, todos os dias da semana.

O Estadão Verifica entrou em contato por telefone com o Restaurante da Morena, estabelecimento que fica em uma das margens onde acontecia o embarque das balsas. Uma funcionária informou que o serviço parou completamente no mesmo dia da inauguração da ponte, o que foi confirmado pelo governo do Acre. Ela não soube informar se havia uma associação que pudesse informar o real faturamento da travessia. Em 2011, quando este valor foi mencionado em uma reportagem, a imprensa local publicou uma nota emitida pela assessoria de comunicação do empresário em que ele negava os valores. Roberto Dorner foi procurado pelo Estadão Verifica, mas ainda não respondeu ao pedido de informações.

O outro braço da cruz

A rodovia BR-364, que tinha o traçado interrompido entre uma margem e outra do Rio Madeira na altura da confluência com o Rio Abunã e agora tem ligação terrestre via ponte, foi inaugurada em 1961. Até aquele ano, nem o estado do Acre nem a capital de Rondônia, Porto Velho, tinham ligação com o restante da malha rodoviária do Brasil.

De acordo com texto publicado pela Secretaria de Comunicação de Rondônia, só se chegava a Porto Velho pela estrada de ferro Madeira-Mamoré – desativada em 1972 –, de balsa, a partir de Manaus (AM), ou de avião. Foi em 1960 que o governador de Rondônia à época, Paulo Leal, propôs ao então presidente Juscelino Kubitschek o desafio de construir o que chamou de “o outro braço da cruz”.

A nova capital federal, Brasília, já era ligada a Belém (PA) e a Porto Alegre (RS). A ligação para o Nordeste, via Fortaleza (CE), estava em andamento. Paulo Leal, então, perguntou a Juscelino: “Por que não completa o outro braço da cruz, construindo a Rodovia Brasília-Acre?”. Começavam ali os trabalhos para a abertura da rodovia que foi primeiro batizada de BR-29, para depois receber o nome de BR-364, ligando Brasília ao Acre e passando por Porto Velho e pelo Rio Madeira.

“O sistema rodoviário era inexistente. Estradas apenas carroçáveis eram fechadas pelas chuvas na grande parte do tempo. Como uma das consequências dessa realidade, as distâncias entre as localidades não eram medidas em quilômetros, mas em duração de tempo: tantas horas, ou tantos dias para chegar ao destino, pelos infindáveis meandros dos rios da Amazônia. Era uma medida mais adequada às condições da época”, diz um trecho de material institucional do Departamento Estadual de Estradas de Rodagem e Transportes (DER) de Rondônia.

Embora a obra tenha sido inaugurada em 1961, a rodovia só foi consolidada em 1968, conforme consta no histórico do DER. Coube ao 5º Batalhão de Engenharia de Construção, do Exército Brasileiro, consolidar a construção da estrada.


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