Político do RN faz conexão insustentável entre novas cepas e hepatite para defender ‘tratamento precoce’

Sem citar dados, deputado estadual Albert Dickson afirma que variantes do coronavírus atacam fígado de forma mais acentuada; porém, faltam evidências para sustentar o discurso do parlamentar

Victor Pinheiro

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Não há evidências que variantes do novo coronavírus ataquem diretamente e de forma mais acentuada o fígado de pacientes, diferentemente do que afirma o oftalmologista e deputado estadual do Rio Grande do Norte Albert Dickson (PROS) em vídeo viral nas redes sociais. O político diz, sem qualquer embasamento científico, que novas cepas podem causar hepatite. Ele defende o protocolo de “tratamento precoce” da covid-19, composto de remédios sem segurança e eficácia comprovada para combater a doença.

A distribuição indiscriminada do chamado “kit covid” já levou ao menos cinco pacientes para a fila de transplante de fígado em São Paulo, e tem sido apontado como causa de mortes por hepatite medicamentosa. Especialistas consultados pelo Estadão contestam os apontamentos do parlamentar e reafirmam que o uso excessivo desses medicamentos pode causar danos à saúde.

Em entrevista a um canal de YouTube, Dickson disse que novas cepas causam sintomas diferentes da covid-19 e atingem principalmente o fígado. O vídeo foi replicado por outros políticos que defendem o tratamento precoce e alcançou mais de dez mil compartilhamentos no Facebook. 

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De acordo com o médico infectologista e livre docente pela Universidade de São Paulo (USP) Roberto Focaccia, cientistas já observam que a covid-19 pode causar danos ao fígado desde o início da pandemia e isso independe das mutações. Um estudo com pacientes admitidos em hospitais em Nova York durante o mês de março de 2020 já indicava anormalidades nas enzimas hepáticas de pacientes hospitalizados com a doença.

Ainda não está claro como a covid-19 causada por novas variantes se difere dos quadros clínicos de cepas anteriores. (Foto: Fusion Medical Animation/Unsplash)

A gravidade e as características de novas cepas como a de Manaus, também conhecida como P1, ainda não foram detalhadas com clareza, segundo Focaccia. Já o médico hepatologista e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Raymundo Paraná aponta que cerca de 20 a 40% dos pacientes hospitalizados por covid-19 apresentam alterações no fígado. Ele destaca que, até o momento, não há evidências na literatura científica de que novas cepas têm uma ação mais contundente sobre esse órgão específico.

O docente também contesta um trecho em que Dickson afirma que “antigamente, a cepa primeiro atingia os rins” e agora “atinge primeiro o fígado”. De acordo com Paraná, não há qualquer indicação de que as novas mutações do SARS-CoV-2 sejam menos agressivas aos rins. “Ao contrário, o que se observa atualmente é um número aumentado de pacientes que requerem hemodiálise durante a internação”, pontua.

Procurado pelo Estadão, Albert Dickson não respondeu aos contatos.

Esta checagem foi produzida com informações científicas disponiveis no dia 12 de abril de 2021.

Como a covid-19 atinge o fígado

Os mecanismos da covid-19 sobre o fígado ainda não foram completamente elucidados pela ciência, muito menos a ação específica das novas variantes do coronavírus sobre o órgão. Há evidências de que a doença está associada à elevação de enzimas do fígado. Segundo o Centro de Controle de Doenças Infecciosas dos EUA (CDC) isso pode significar lesões temporárias no órgão. Os fatores que provocam essas alterações, porém, ainda são incertos. 

Um trabalho científico publicado na revista Nature Reviews Gastroenterology & Hepatology em março deste ano indica que a resposta imunológica exacerbada do organismo ao vírus, também conhecida como tempestades de citocinas, pode ser um dos fatores associados à desregulação dessas enzimas. A revisão também aponta que disfunções vasculares e tromboses provocadas pela covid-19 podem estar relacionadas a lesões no fígado. 

“Sabemos que alterações no miocárdio (coração), nos rins, nos pulmões, no cérebro e nos vasos, ocorrem durante a covid de forma secundária à tempestade inflamatória (tempestade de citocinas). O fígado também não é poupado”, destaca Paraná. 

O professor da UFBA afirma que a baixa oxigenação em decorrência da covid-19 é outro fator que poderia causar problemas ao órgão. Segundo ele, é muito pouco provável que o novo coronavírus ataque diretamente o fígado, “uma vez que a hepatite (causada) pelo vírus da covid nunca foi comprovada”. 

Toxicidade de remédios

Sem apresentar dados ou fontes de informação, Dickson argumenta no vídeo que a suposta atividade direta das novas variantes sobre o fígado teria confundido médicos que relataram casos suspeitos de hepatite medicamentosaEm março, o Estadão noticiou que ao menos cinco pacientes atendidos no Hospital das Clínicas da USP e no HC da Unicamp, em Campinas, foram para a fila de transplante de fígado após apresentarem sinais de intoxicação causados pelos medicamentos do protocolo de “tratamento precoce”.

Dickson usa o discurso insustentável sobre as novas variantes para defender a segurança de medicamentos como a ivermectina e a azitromicina, distribuídos nos chamados “kits covid”. Esses remédios não têm eficácia contra a covid-19.

Estudos científicos ainda não comprovaram o benefício da ivermectina na prevenção ou tratamento da covid-19, em qualquer estágio da doença. Foto: Gerard Julien/ AFP

De acordo com Raymundo Paraná, é possível que algum componente de remédios usados no tratamento do coronavírus seja responsável por alterações no fígado. Ele argumenta que isso deve ser discutido à luz das evidências científicas. “Não há dúvida que há pacientes que apresentam toxicidade (no fígado), inclusive pelo uso de corticoide precoce em altas doses. As demais drogas, como hidroxicloroquina, ivermectina e nitazoxanida, também podem ter efeitos tóxicos ao fígado”, pontua.

O professor da UFBA ressalta que a toxicidade de alguns dos medicamentos citados são baixas, mas uma vez que um grande número de pacientes estão expostos “é de se esperar que encontremos mais casos do que em condições normais”. 

Doses ‘anárquicas’ e interação com outros medicamentos

Citada por Dickson, a ivermectina é um dos remédios presentes em protocolos de “tratamento precoce” da covid-19 e um dos pivôs no debate sobre a toxicidade do “kit covid”. As vendas da droga subiram 557% em 2020 em comparação com 2019. Em março, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou uma orientação que desaconselha o uso do fármaco contra o novo coronavírus fora de estudos clínicos. 

Já a FDA, órgão regulador dos Estados Unidos, destacou em nota que a overdose do vermífugo pode levar a quadros de vômito, diarreia, coma e morte. A agência ainda alerta que interações da droga com outros remédios, como anticoagulantes, podem ser perigosas. A própria bula da medicação destaca que a combinação do medicamento com tratamentos relativos ao Sistema Nervoso Central oferece riscos de eventos adversos. Um estudo publicado em 2006 relatou o primeiro caso de hepatite severa induzida por ivermectina. 

A recomendação original de uso da ivermectina presente em bula é voltada para tratamento de infecções causadas por parasitas Foto: Prefeitura de Itajaí

O hepatologista Raymundo Paraná lembra que todo e qualquer medicamento, “por mais simples que seja, tem potencial de risco, mesmo que mínimo”. Um comunicado da farmacêutica Merck, que produz a ivermectina globalmente, expressou preocupação com a falta de dados de segurança dos ensaios clínicos do uso de ivermectina como tratamento de covid-19. “A literatura médica mostra que a ivermectina é uma droga realmente segura, mas, mesmo em doses habituais pode, raramente, causar toxicidade”, aponta Raymundo.

Ele ressalta, porém, que as evidências são baseadas em pequenas doses, para tratamento de outras doenças. O médico alerta que nas prescrições de ivermectina no contexto da covid, as doses, o momento da introdução e o tempo de tratamento variam de acordo com o profissional de saúde que faz o diagnóstico. “Em medicina, quando temos algo cientificamente comprovado, não há variação nas prescrições. Quando temos muitas propostas diferentes, isso denuncia ausência de evidência científica”, pontua. 

Outra doença, outros riscos

Ainda de acordo com Raymundo Paraná, o fato de um medicamento ser seguro para o tratamento de uma doença não significa que o mesmo se aplique à covid-19. Ele cita como exemplo a hidroxicloroquina, que apesar de não ser mencionada por Dickson no vídeo, é outra substância sem eficácia para combater o SARS-CoV-2 associada ao “tratamento precoce”.

Segundo o especialista, a droga é extremamente segura para tratar malária e doenças autoimunes de baixo grau, mas pode ter o risco de toxicidade aumentada quando pacientes apresentam miocardite, uma inflamação no músculo cardíaco. A malária não desenvolve quadros de miocardite, mas 20% dos pacientes internados com covid-19 sofrem com essa condição, diz Paraná. 

“Portanto, [os pacientes de covid] apresentam uma condição clínica de risco [de toxicidade da hidroxicloroquina] completamente diferente daquela observada nas outras doenças”, afirma. Ele cita ainda o exemplo da aspirina, que é um medicamento seguro para doenças virais, mas pode ser extremamente tóxico no caso de dengue. 

Estudos falharam em comprovar a eficácia da hidroxicloroquina no tratamento da covid-19. Foto: George Frey/Reuters

Novos sintomas

O deputado estadual Albert Dickson diz ainda no vídeo que uma outra característica da nova variante é apresentar, principalmente, três sintomas iniciais: dor de cabeça, “garganta arranhando” e espirros. “Antigamente era perda de paladar, olfato, febre, tosse e dor no corpo, não é mesmo? Pode até ser que tenha, mas o principal (sintoma causado pelas variantes) é garganta arranhando”, diz o médico e parlamentar.

O médico infectologista Roberto Focaccia reforça que as variante do SARS-CoV-2 ainda não foram completamente caracterizadas e ressalta que os sintomas iniciais da covid-19 podem ser variados. Segundo ele, a forma mais comum é o desconforto respiratório, febre e dor no corpo, mas também há casos em que o primeiro sintoma pode ser uma diarreia ou uma forte dor de cabeça.

Um informe sobre variantes publicadas pelo CDC dos Estados Unidos diz que ainda são necessários mais estudos para entender como a doença causada pelas novas mutações se difere dos quadros clínicos provocados pelas variantes que já circulam.

Medicamentos sem eficácia comprovada

Ao final do vídeo, Dickson cita um protocolo de tratamento que inclui ivermectina, azitromicina, corticoide e bromexina. Os benefícios da ivermectina, como já destacado, ainda não foram comprovados por evidências confiáveis. Sobre a azitromicina, o painel de evidências da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), braço latino da OMS, indica que evidências de “certeza moderada” apontam que o antibiótico provavelmente não reduz a mortalidade e nem contribuiu na resolução de sintomas.

Por sua vez, os corticoides, mais especificamente a dexametasona, são recomendados pela OMS apenas para o tratamento de pacientes em estado crítico de covid-19. Esses medicamentos, no entanto, ainda não são preconizados para o uso no estágio inicial da doença, ou em pacientes com quadros leves e moderados. Já a eficácia e segurança da bromexina aplicada no tratamento do novo coronavírus são incertas.

Em outras partes da entrevista, Dickson também cita a proxalutamida, um bloqueador hormonal. Como apurado pelo Estadão Verifica, um estudo que apontou potenciais benefícios da droga ainda não foi publicado e ainda faltam dados para confirmar a qualidade das evidências.

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