Pesquisador alerta para risco de ‘profissionalização’ das campanhas de desinformação

Pesquisador alerta para risco de ‘profissionalização’ das campanhas de desinformação

Caio Machado, da Universidade de Oxford, falou ao Estadão Verifica sobre tendências da desinformação global

Alessandra Monnerat

09 de outubro de 2019 | 17h18

Um estudo recente da Universidade de Oxford, no Reino Unido, mapeou campanhas de manipulação da opinião pública na internet em 70 países. Também no Brasil os pesquisadores identificaram sinais de uso de estratégias para atacar adversários, confundir o debate político e provocar divisões no debate em sociedade. O Estadão Verifica conversou com Caio Machado, mestrando em Ciências Sociais da Internet pela Universidade de Oxford, brasileiro que participou do levantamento e realizou outros estudos sobre notícias falsas nas eleições do ano passado.

No relatório de Oxford, o pesquisador ficou responsável por analisar casos de campanhas de desinformação no Brasil e em outros países da América Latina, como Venezuela, Colômbia e Argentina. Aqui, foram mapeadas operações de disseminação de conteúdo falso no WhatsApp durante as eleições, além de divulgações de falsidades sobre a greve dos caminhoneiros e a vereadora assassinada Marielle Franco.

O pesquisador Caio Machado, da Universidade de Oxford. Foto: Cortesia

Qual a tendência observada no Brasil?

A tendência no Brasil é a institucionalização do que chamamos de propaganda computacional. Em outros países, como China, Rússia e Estados Unidos, existem superpoderes que já têm um aparato estatal muito desenvolvido para fazer propaganda política digital e usá-la como estratégia de interferência em outros países. Não temos registro de que o Brasil esteja interferindo em outros países, mas o aparato está crescendo muito. Passou a ter uma estrutura física, com empresas privadas e contratos muito caros. E isso é uma tendência na América Latina inteira, sair do amadorismo e se tornar algo estatal profissional. 

Isso é preocupante, sobretudo porque aqui temos democracias que não são muito estáveis, com instituições abaladas. E cada vez mais as campanhas alvejam a estrutura democrática. Por exemplo, questionar a autenticidade das urnas eletrônicas foi uma estratégia repetida no Brasil, na Argentina e no México. São campanhas cada vez mais fortes e com mais recursos, que colocam em xeque o estado democrático em si. 

Qual a tendência em relação às plataformas?

Já havíamos identificado no ano passado, e voltamos a ver esse ano, a desinformação passar a aplicativos de mensagem, fechados. O WhatsApp é um exemplo, mas não é exclusivo. Olhando para o resto do mundo, identificamos desinformação em todas as plataformas: Telegram, Line, WhatsApp,  Instagram. Até no Tinder, acredite se quiser. Não é um problema de uma plataforma só. É o problema de um ecossistema inteiro, que precisa de uma solução regulatória e econômica. 

O Facebook continua a ser a principal plataforma para desinformação, segundo a pesquisa. As iniciativas que a empresa adotou nesse sentido não têm funcionado?

O Facebook ainda é a plataforma principal, mas detectamos outras plataformas muito relevantes, sobre as quais não estamos discutindo, como o Instagram e o YouTube. As iniciativas que o Facebook têm feito (em relação a desinformação) são insuficientes, mas talvez seja a plataforma mais fácil de resolver, porque é um ambiente aberto. É mais fácil usuários e autoridades identificarem o que está acontecendo ali. Um ambiente muito mais difícil de compreender é o YouTube, por exemplo, que não é uma rede social, é um acervo de vídeos. A pesquisa recente mostra que tem gente se aproveitando do algoritmo de recomendação do YouTube para promover radicalização, algo muito difícil detectar. É a mesma coisa para o Instagram, onde as pessoas costumam ter mais contas fechadas. É muito difícil ver o que está acontecendo em certos nichos. 

O que as plataformas podem fazer em relação a esse problema?

Por enquanto, as medidas são insuficientes. Isso levanta outros debates. Por exemplo, na União Europeia existe muita pressão para jogar a culpa para as plataformas. Mas a solução proposta é automatizada, o que vem com uma série de problemas. Tem muito conteúdo de formas de expressão legítimas sendo removido de forma automatizada, é uma censura prévia por um computador. Esse quebra cabeça é muito difícil de resolver.

Quais boas soluções você observou? 

Não existe uma só solução correta. O problema é complexo, e acontece em diversas dimensões: social, econômica e política. Uma iniciativa que eu achei interessante foi a do Verificado, no México. É um grupo de fact checking que pedia ajuda do público para fazer as verificações. Iniciativas de educação digital também são interessantes. Mas por enquanto ainda não temos soluções grandes e palpáveis. 

O número de países mapeados pela pesquisa com campanhas de manipulação aumentou 150% nos últimos dois anos. O que isso quer dizer?

Qualquer país que olharmos vai usar desinformação. Quanto mais países conseguirmos olhar, maior vai ser o número. Isso prova que de fato é um fenômeno global. Há uma variação, de país a país, de institucionalização, de estratégias. Mas o preocupante é que é uma prática que se disseminou no mundo inteiro, que passou de algo completamente amador para algo profissional, institucional, permanente.

E em estados autoritários os freios não existem. No Egito, por exemplo, há criação de aparato do Estado para fazer propaganda e atacar jornalistas. A Venezuela foi um caso muito interessante: vazou um documento interno que mostra uma hierarquia militar para operações de desinformação, de promoção de governo, de ataque à oposição e de distração de pautas que não interessam. Esse grau de especialização preocupa muito. 

A pesquisa aponta que o Brasil tem uma “tropa virtual” de capacidade média. O que isso significa?

Nos países de alta capacidade, como China e Estados Unidos, você tem o uso institucional de “guerra informacional”. A escala nesses países é impressionante: tem uma estrutura permanente de produção de desinformação, múltiplos contratos (de empresas) e o uso dessa estratégia com fins bélicos, seja na política interna, seja para influenciar outros países. No Brasil, não identificamos o uso para influência externa nem nenhum documento para comprovar que a estrutura de campanha fosse permanente ou com estrutura organizacional refinada. Aqui, é algo grande, custoso, mas não é uma operação militar. Gosto dessa comparação com algo militar: na Venezuela, vimos uma operação militar, com uma hierarquia, tropas e estratégias. Isso no Brasil ainda não pegou de vez e espero que não pegue. 

Essa pesquisa tem que ser entendida como o mínimo, a ponta do iceberg. O que tá embaixo é muito maior, mas só olhando a ponta a gente consegue entender que o problema é muito grave. 

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