Perfil bolsonarista assina postagens como ‘Ziraldo’ e confunde internautas
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Perfil bolsonarista assina postagens como ‘Ziraldo’ e confunde internautas

Cartunista criador do Menino Maluquinho não é o autor de mensagens em defesa do presidente Jair Bolsonaro no Facebook

Samuel Lima, especial para o Estado

07 de agosto de 2020 | 19h35

Um fotógrafo de Governador Valadares, em Minas Gerais, chamado Ziraldo Dias Cavalcante é o autor de uma série de postagens em defesa do presidente Jair Bolsonaro com a assinatura de “Ziraldo” no Facebook. Os conteúdos enganam internautas que pensam ser frases ditas pelo cartunista Ziraldo, criador do personagem de quadrinhos infantil O Menino Maluquinho.

O Estadão Verifica encontrou uma série de posts que viralizaram recentemente com a assinatura “Ziraldo”. Um deles teve mais de 23 mil compartilhamentos no Facebook e contém comentários contra Thammy Miranda e Pabllo Vittar, além de críticas e insinuações a respeito de Felipe Neto, Dilma Rousseff, Lula e o Supremo Tribunal Federal (STF). A postagem também sugere que os números da pandemia de covid-19 no Brasil estariam superdimensionados, a exemplo do próprio presidente.

Postagens de perfil bolsonarista desinformam internautas nas redes ao assinar peças com o nome ‘Ziraldo’. Foto: Reprodução / Arte Estadão

“Ziraldo é um gênio”, escreveu uma das pessoas que compartilhou o conteúdo enganoso nas redes, concordando com frases que nunca foram ditas pelo artista. Outro internauta demonstrou surpresa ao ver um dos posts: “Nossa Ziraldo. Foi você que escreveu isto?”. E um terceiro perfil declarou: “Na minha época, ele era esquerdista”. 

Outras três postagens duvidosas, com a mesma assinatura, apareciam na ferramenta de verificação de boatos do Facebook nesta sexta-feira, 7. A plataforma leva em conta o alcance e a quantidade de denúncias de usuários, por exemplo, para sugerir conteúdos aos checadores. Agência Lupa e Fato ou Fake verificaram conteúdos assinados pelo fotógrafo Ziraldo anteriormente.

Procurada pela reportagem, a agência responsável pelo licenciamento, conteúdo e divulgação da obra do escritor, a Ziraldo Artes Produções, confirmou que o cartunista não é o autor da postagem divulgada no perfil bolsonarista, nem fez declarações do tipo. “As mensagens falsas tendem a confundir o público, atribuindo ao cartunista essa afirmação, que nunca foi dada”, lamentou a empresa em nota.

Segundo a equipe de Ziraldo, o cartunista tem “uma obra gigantesca, com muitas coisas boas em favor da cultura, da educação e do entretenimento infantil e da liberdade de expressão”. Além disso, a nota afirma que o autor sempre procurou “informar, entreter e educar através da literatura e da arte” ao longo da carreira.

Também cita que, desde que sofreu um AVC, em 2018, o escritor tem se dedicado a “trabalhar com sua criatividade, sua obra e cuidar da saúde e da família”. “Obviamente, não gostamos de fakes”, acrescenta a nota. “O Ziraldo acredita na verdade e na ciência. Acredita na educação e na cultura.”

O Estadão Verifica chegou ao perfil bolsonarista ao observar que uma postagem com formato similar à analisada nesta checagem continha a assinatura “Ziraldo Dias”, ao invés de apenas “Ziraldo”. Uma pesquisa avançada no Google com o sobrenome retornou uma página do fotógrafo que tinha, entre os amigos, um segundo perfil, chamado “Ziraldo Cavalcante”, que tem uma foto com os dizeres “Brasil” e “Resistência anticomunista”.

Entrando nessa segunda conta, é possível acessar uma série de imagens assinadas como “Ziraldo”. Entre elas, estavam memes divulgados em outros perfis, que não deixavam claro que as opiniões não eram do autor do Menino Maluquinho. A reportagem checou as datas e notou que todas as postagens do perfil de Ziraldo Cavalcante eram de alguns dias antes aos conteúdos compartilhados com maior alcance, indicando assim que essa poderia ser a fonte original.

Por fim, existem ao menos dois posts nesse perfil que utilizam uma foto própria do fotógrafo mineiro — uma delas com uma frase em primeira pessoa (“Eu, Ziraldo Dias […]”) e outra com a assinatura de “Ziraldo”.

Página de Ziraldo Cavalcante no Facebook. Foto: Reprodução

A reportagem tentou contatar o fotógrafo por meio de ligações e mensagem pelo Facebook, mas não houve retorno em nenhum dos canais.

Cartunista foi um dos fundadores de O Pasquim e apoiou Haddad

Ziraldo Alves Pinto nasceu no dia 24 de outubro de 1932, em Caratinga (MG). Cartunista, chargista, caricaturista e humorista, ele trabalhou na Revista Cruzeiro e no Jornal do Brasil e foi um dos fundadores de O Pasquim, tabloide de oposição ao regime militar. 

Nas eleições de 2018, ele declarou apoio a Fernando Haddad (PT) pouco antes do segundo turno, quando o candidato disputava a presidência contra Bolsonaro.

Ano passado, Ziraldo precisou desmentir outra grave notícia falsa, a de que teria morrido. Amigos e fãs do cartunista chegaram a lamentar e prestar solidariedade à família. “Firme e forte!”, publicou no Instagram para esclarecer a história. 

Aos 87 anos, permanece ativo em suas criações literárias. Em entrevista ao Estadão, em abril, revelou o desejo de criar uma nova aventura da Turma do Pererê na pandemia: “O coronavírus é um bom inimigo para uma HQ”. Ele vem colocando o projeto em prática nos últimos meses.

Em 2021, a Netflix deve estrear uma nova versão audiovisual de O Menino Maluquinho. O conteúdo será disponibilizado para 190 países, segundo a plataforma de streaming.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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