É falso que Paulo Lemann tenha feito doação para campanha de Tabata Amaral

É falso que Paulo Lemann tenha feito doação para campanha de Tabata Amaral

Postagens inventam relação de deputada com empresário para condenar política de distribuição de absorventes para combater pobreza menstrual

Pedro Prata

15 de outubro de 2021 | 16h12

É falso que a deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP) teve a “campanha financiada pelo empresário Jorge Paulo Lemann”. O portal da transparência de contas eleitorais não mostra Lemann como um dos doadores da deputada. Essa alegação é compartilhada nas redes sociais e ganhou destaque ao ser reproduzida em vídeo pelo influenciador bolsonarista Fernando Lisboa. O conteúdo recebeu mais de 57,9 mil reações no TikTok.

Lisboa ainda diz que Paulo Lemann tem ligação com a “empresa P&G, que fabrica absorventes”, o que também não é verdadeiro. A alegação é feita para afirmar que Tabata Amaral fez lobby pelo projeto de lei que obrigava o poder público a distribuir absorventes a mulheres de baixa renda e que foi vetado pelo presidente Jair Bolsonaro.

Em nota, a deputada negou que tenha recebido financiamento do empresário ou que sua atuação seja influenciada por ele. “Minha atuação e meus votos são uma consequência direta das minhas convicções, estudos e andanças, e não existe fala mais mentirosa e machista do que dizer que há um homem por trás dos meus posicionamentos”, disse.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) possui uma página de transparência das contas das campanhas de candidatos. Nela, é possível consultar quais foram os doadores e os valores recebidos. Tabata Amaral teve 106 doadores — dentre eles, um financiamento coletivo — que lhe renderam R$ 1.290.696,60. O maior doador foi o PDT, partido pelo qual ela concorreu, com R$ 100 mil.

Empresário não financiou campanha da deputada. Foto: Reprodução

O empresário e investidor Jorge Paulo Lemann não consta como doador. Ele é presidente da Fundação Lemann, uma organização sem fins lucrativos voltada para o desenvolvimento da educação e de lideranças no País. Uma das entidades patrocinadas é a Fundação Estudar, que dá incentivos financeiros para a continuidade dos estudos de jovens lideranças nas principais universidades do mundo. Tabata Amaral foi beneficiada com uma ajuda de custo quando era bolsista da Universidade de Harvard antes de ser eleita deputada.

A Fundação Lemann disse por meio de nota que não mantém vínculo com Tabata Amaral e que os participantes da Rede de Líderes Fundação Lemann possuem autonomia e independência em suas atuações. “A estes membros não há nenhum repasse financeiro, relação profissional ou apoio para campanhas políticas, seja da Fundação Lemann ou do próprio empresário”, comunicou a nota.

Paulo Lemann não tem participação na P&G

Jorge Paulo Lemann é sócio fundador da 3G Capital, uma empresa de investimentos. Fazem parte do portfólio do grupo os restaurantes Tim Hortons, Burger King e Popeyes, além da empresa de alimentos e bebidas Kraft Heinz. Alguns de seus fundadores possuem partes expressivas da Lojas Americanas e da AB Inbev, empresa que detém a fabricante de bebidas Ambev. Não há nenhuma menção no site à P&G, empresa norte-americana de produtos de higiene, beleza e cuidado pessoal.

A assessoria da Fundação Lemann reiterou que “o empresário Jorge Paulo Lemann não possui ações ou qualquer tipo de vinculação com companhias fabricantes de absorventes femininos”.

A P&G mantém em seu site uma lista de proprietários de suas ações. A 3G Capital não aparece listada.

Em nota, a empresa afirmou ser uma empresa de capital aberto e que “suas ações, negociadas em Bolsa de Valores, podem ser adquiridas por qualquer pessoa que esteja disposta a comprar”. A empresa é administrada por um Conselho Administrativo que não tem ingerência sobre as pessoas que compram suas ações. A intermediação de compra e venda de ações ocorre por meio do mercado de capitais.

A P&G ainda diz que “já fez parcerias com as instituições sociais criadas pelo empresário Jorge Paulo Lemann”, mas que “o executivo não faz parte do Conselho da P&G”.

PL combate a pobreza menstrual

Em outubro, o presidente Jair Bolsonaro vetou a lei nº 14.214/2021, aprovada pelo Congresso, que instituía um programa para financiar a entrega de absorventes a estudantes de baixa renda da rede pública de ensino, mulheres em situação de rua ou vulnerabilidade social, mulheres encarceradas e internadas em unidades socioeducativas. O principal argumento foi o de que não foi definido pelos parlamentares qual seria a fonte de custeio.

Documento

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A aprovação da medida havia sido articulada pela bancada feminina do Congresso Nacional, tanto por parlamentares da oposição quanto de governistas, como uma forma de combate à pobreza menstrual. Ela afeta não só a saúde das mulheres, mas também a educação. Muitas adolescentes acabam faltando à escola por não ter condições de comprar absorventes.

O PL 4968/2019, que embasou a criação da lei, é de autoria de Marília Arraes (PT-PE). Tabata Amaral tinha um projeto muito semelhante (PL 428/2020) e que foi apensado às discussões. A parlamentar pedia a distribuição dos absorventes em “todos os espaços públicos”, de modo a facilitar o acesso das mulheres a esta política pública.

Governistas saíram em defesa do presidente Bolsonaro após o veto. A ministra Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) chegou a indagar se “a prioridade é vacina ou é absorvente?”

Após a repercussão negativa, a conta no Twitter da Secretaria de Comunicação (Secom) informou que o governo trabalharia para “viabilizar a aplicação dessa medida”. O veto à lei aprovada permanece, mas o Congresso ainda pode derrubá-lo.

Nas redes

Nas redes sociais, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente, compartilhou as alegações enganosas sobre Tabata Amaral. O post no Facebook somou ao menos 46,5 mil reações.

Eduardo Bolsonaro e Fernando Lisboa foram procurados por e-mail, mas não se manifestaram até a publicação desta checagem.

Este conteúdo também foi verificado pelo Boatos.org, Lupa e Aos Fatos.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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