Para justificar censura de Crivella à Bienal do Rio, grupos espalham boatos com imagens de livro de Portugal
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Para justificar censura de Crivella à Bienal do Rio, grupos espalham boatos com imagens de livro de Portugal

Obra satírica para adultos não está à venda no evento; prefeito determinou recolhimento de gibi com imagem de beijo de homossexuais

Paulo Roberto Netto

08 de setembro de 2019 | 19h22

Capa do livro português “As Gémeas Marotas”, de “Brick Duna”, pseudônimo de um autor desconhecido

Publicações difundidas nas redes sociais utilizam dois trechos do livro “As Gémeas Marotas” para justificar a censura a obras de teor LGBT movida pelo prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), durante a Bienal do Livro, realizada neste fim de semana. A obra satírica, que é voltada para o público adulto, não está à venda no evento literário do Rio, diferentemente do que insinuam os boatos.

Por meio de busca reversa de imagem, o Estadão Verifica detectou que imagens da obra já foram retiradas de contexto em outros episódios. O site peruano La Republica, por exemplo, já checou boato falso de que o livro estaria sendo vendido para crianças na Argentina.

“As Gémeas Marotas” é uma sátira para adultos escrita por “Brick Duna”, pseudônimo de um autor desconhecido e que parodia a obra do escritor holandês Dick Bruna, morto em 2017, e criador da coelhinha Miffy, personagem de histórias infantis.

Consulta ao sistema da Biblioteca Nacional de Portugal localizou a obra em seu acervo com a informa que o livro para adultos foi publicado em 2012, com tradução de Maria Barbosa.

Conforme é possível verificar em lista do próprio site do evento, a obra de “Brick Duna” não está à venda na Bienal do Livro do Rio.

O evento se tornou alvo de tentativa de censura impetrada pela gestão Marcelo Crivella após o prefeito tomar conhecimento de um gibi em que dois personagens homossexuais se beijam.

Alegando que a obra violaria o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a prefeitura ordenou a apreensão de obras que não estivessem guardadas em embalagens que alertassem para conteúdo “impróprio ou inadequado”.

Neste domingo, 8, a disputa judicial sobre o caso chegou ao Supremo Tribunal Federal. O presidente do STF, Dias Toffoli, derrubou a censura, sendo seguido pelo ministro Gilmar Mendes. Crivella afirma que recorrerá da decisão.

Caminho da verificação. Para verificar este boato, o Estadão Verifica utilizou o Google Imagens, ferramenta de busca reversa de imagens do Google. A reportagem também consultou o acervo da Biblioteca Nacional de Portugal e a lista de obras à venda na Bienal do Livro.

Este boato foi selecionado para verificação por meio da parceria entre o Estadão Verifica e o Facebook. O Boatos.org e o E-farsas também desmentiram este conteúdo.

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