Para atacar Rede Globo, usuários de Facebook atribuem falsa declaração ao jornal ‘The New York Times’
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Para atacar Rede Globo, usuários de Facebook atribuem falsa declaração ao jornal ‘The New York Times’

Boatos nas redes sociais inventam frases em artigo de opinião de Vanessa Barbara, publicado em 2015 e que não representa posição do jornal

Samuel Lima, especial para o Estado

20 de maio de 2020 | 20h41

Não é verdade que o jornal The New York Times tenha chamado a Rede Globo de “mídia prostituta”, como afirmam boatos falsos em circulação no Facebook. O termo não consta em nenhum artigo ou notícia do veículo norte-americano. O conteúdo teve mais de 80 mil compartilhamentos e 910 mil visualizações na plataforma até a tarde desta quarta-feira, 20.

O Estadão Verifica pesquisou referências do NYT à Rede Globo com o termo por meio de busca avançada no Google. Não houve resultado literal. A pesquisa retornou outros artigos com palavras semelhantes, mas estes não apresentam críticas à emissora de televisão brasileira.

Posts falsos no Facebook afirmam que jornal ‘The New York Times’ chamou a Rede Globo de ‘mídia prostituta’. Foto: Reprodução / Arte Estadão

Algumas das postagens falsas no Facebook trazem como “fonte” um texto publicado no site “Mídia Livre FCS Brasil”, compartilhado em 17 de novembro de 2015. O site alega que o jornal dos Estados Unidos teria chamado a Globo de “mídia prostituída que ilude o Brasil” e que a suposta crítica estaria relacionada a “mentiras e boicotes” contra movimentos contrários ao PT e “que visam um Brasil melhor”.

A seguir, o site reproduz artigo de opinião escrito pela jornalista Vanessa Barbara, que colabora com análises de política e cultura ao periódico norte-americano. O artigo mencionado não representa a opinião do The New York Times, como é padrão em veículos jornalísticos, e por isso é assinado. Porém, mesmo se fosse esse o caso, a frase não existe. Basta fazer a leitura do texto original, intitulado “Escapando da realidade com a TV Globo do Brasil”, ou de sua tradução feita pelo site UOL (com título alterado).

Uma série de postagens enganosas nas redes sociais apresentam ainda outros dois parágrafos inventados e atribuídos ao New York Times. Pela descrição, o jornal teria acusado a emissora de manipular informações e sonegar impostos, o que não é verdade. O texto falso diz ainda que a programação da emissora é baseada em “apelo sexual” e que os conteúdos “tentam deturpar valores familiares cristãos” e “zombar de algumas religiões”. Nenhuma dessas frases está presente no artigo de Barbara ou em outro conteúdo publicado pelo jornal.

O que diz o artigo publicado no jornal The New York Times

Apesar de fazer críticas à programação da Rede Globo na época, Vanessa Barbara não escreveu a frase mencionada nos conteúdos enganosos. A colunista reclama de certas escolhas editoriais da emissora — como o tempo dedicado para informações de trânsito e clima em comparação com notícias sobre o risco de impeachment da então presidente Dilma Rousseff e a investigação sobre o recebimento de propina do então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, que estariam recebendo “menos tempo no ar”. 

Barbara também critica os assuntos de talk shows matinais, telejornais e novelas e comenta que, pelo alcance da Globo, ela “pode exercer influência considerável sobre nossa política”. A autora conclui que a programação poderia estar tornando o público menos preocupado com assuntos que julgava mais relevantes naquele momento, como “a crise da água” em São Paulo ou “a possibilidade de outro golpe militar”, em referência ao impeachment de Dilma Rousseff.

Boatos são motivados por ataques de Bolsonaro à imprensa

Boatos envolvendo a Rede Globo e seus profissionais, assim como outros veículos de mídia, são comuns nas redes. A situação reflete, em parte, críticas e acusações feitas publicamente por autoridades políticas, como o presidente da República, Jair Bolsonaro. Relatório divulgado pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) contabilizou 121 ataques de Bolsonaro à imprensa em 2019, seu primeiro ano de mandato na Presidência. As alegações costumam repercutir entre seus aliados e seguidores.

Recentemente, o Estadão Verifica desmentiu boatos de que Bolsonaro tiraria a Globo do ar em abril deste ano e que a equipe do reality show Big Brother Brasil teria comemorado o recorde de votações em um “paredão” com aglomeração, contrariando recomendações dos órgãos de saúde para o combate do novo coronavírus. Profissionais do Estado também já foram alvo de fake news nas redes, como a jornalista Vera Magalhães e o fotógrafo Dida Sampaio.

O Aos Fatos também desmentiu esse boato.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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