Para a PF, governo Bolsonaro admite que reciclou boatos na internet para atacar as urnas

Depoimentos mostram que participantes de live presidencial não checaram se os conteúdos eram falsos porque ‘não era o objetivo’ e ignoraram alerta de peritos sobre desinformação

Samuel Lima

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O governo de Jair Bolsonaro (PL) selecionou boatos de internet sem nenhum critério, não checou a informação e ainda ignorou alertas de peritos criminais da Polícia Federal (PF) sobre erros nos dados para montar a live presidencial que atacou as urnas eletrônicas com um compilado de falsidades, em 29 de julho deste ano, como se fossem “provas” de fraude nas eleições.

A informação consta nos depoimentos de alguns dos principais envolvidos no caso para a PF. O relatório, obtido na semana passada pelo Estadão, propôs a investigação de Bolsonaro no inquérito das milícias digitais. A delegada ainda enviou o caso para a Controladoria-Geral da União (CGU) e o Ministério Público Federal (MPF).

Segundo os relatos, o tema da live transmitida simultaneamente nas redes sociais e pela TV Brasil foi escolhido pelo próprio presidente. O então ministro-chefe da Casa Civil, Luiz Eduardo Ramos, organizou o evento e delegou a responsabilidade da coleta e produção de conteúdo ao ex-assessor especial da pasta, Eduardo Gomes da Silva. Ele é quem aparece ao lado de Bolsonaro e apresenta os vídeos.

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Em depoimento para a PF, Gomes negou ter conhecimento das áreas de informática, programação, matemática ou estatística, nem sobre o funcionamento das urnas eletrônicas. Para subsidiar a apresentação, declarou ter procurado por “vídeos e assuntos da internet”, usando a sua “experiência funcional e pessoal”.

O coronel da reserva admitiu ainda que “não checou a veracidade dos fatos” e se justificou dizendo que este “não era o objetivo” da live. A intenção seria apenas mostrar que a população desconfiava do sistema eletrônico de votação. 

Ele sequer procurou o desfecho das investigações da Polícia Federal sobre uma denúncia de fraude no Maranhão, em 2008, apresentada por meio de uma notícia antiga da TV. O caso surgiu com uma coligação derrotada no pleito e depois foi descartado em um laudo da corporação.

Atualmente, Gomes ocupa o cargo de secretário especial de Modernização do Estado na Secretaria-Geral da Presidência. A pasta agora é de Ramos, depois de um rearranjo ministerial de Bolsonaro para acomodar aliados no Planalto.

O assessor Eduardo Gomes da Silva apresentou a coletânea de desinformação ao lado de Bolsonaro, em 29/07/2021. Foto: Reprodução | YouTube

Ao longo dos depoimentos, a PF menciona diversas vezes um vídeo falso publicado por Naomi Yamaguchi que mostra um suposto “especialista” — que se diz “autodidata” e alega possuir uma empresa de informática — argumentando que um algoritmo teria manipulado votos nas eleições de 2014.

A prova seria uma suposta alternância de votos entre Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) que, na realidade, não existe. A história é uma balela, fruto de um cálculo completamente equivocado e que não mostra nada disso.

Dois peritos criminais da PF participaram de uma reunião prévia, no dia 23, com Bolsonaro, Ramos e Gomes, entre outros. Nela, alertaram para o fato de que havia inconsistências no método e pediram que a planilha fosse enviada para análise mais aprofundada.

O general Ramos — cuja preocupação naquele momento seria a de “não colocar o presidente da República em uma furada”, segundo relato de um dos peritos — então teria sinalizado que não haveria tempo hábil para isso. E a planilha acabou citada na live de qualquer maneira, ainda que com menos destaque do que se esperava.

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Anderson Torres, também prestou explicações sobre a sua participação na live de Bolsonaro. Ele aparece lendo trechos de três relatórios produzidos pela PF por meio dos testes públicos de segurança, quando o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) convoca especialistas para que estes tentem quebrar mecanismos de segurança da urna e proponham melhorias no sistema. Uma das sugestões da PF era adotar um registro impresso do voto.

Torres declarou que não fez a leitura da íntegra dos documentos antes de dar a sua contribuição no evento porque “eram extensos e de conteúdo técnico e de difícil entendimento para aqueles que não são da área especializada”. O Estadão pediu acesso aos relatórios completos para a PF, por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), mas o pedido foi negado. 

O jornal Folha de S. Paulo, que obteve o material, noticiou que nenhum deles sugere possibilidade de fraude ou adulteração no resultado da eleição. A informação é confirmada no depoimento de um dos peritos — os relatórios lidos por Torres “de forma nenhuma” apontam fraudes, segundo ele, e os problemas identificados nos testes públicos são depois resolvidos pelo TSE.

A PF ainda ouviu o diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem, e os autores de duas peças apresentadas na live — Bolsonaro ficou de fora. A PF concluiu que a preparação do evento foi feita de “maneira enviesada” para espalhar desinformação. 

“Restou caracterizado pelas narrativas das pessoas envolvidas que a chamada live presidencial foi um evento previamente estruturado com o escopo de defender uma teoria conspiratória que os participantes já sabiam inconsistente”, diz trecho do documento. O Planalto foi procurado pelo Verifica, mas não se manifestou sobre o assunto.

Relatório PF

Trecho do depoimento do assessor Eduardo Gomes da Silva para a PF.

 

Trecho do depoimento do assessor Eduardo Gomes da Silva para a PF.

 

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