Foto de placas de energia solar instaladas sobre canal d’água é da Índia, não do Brasil

Foto de placas de energia solar instaladas sobre canal d’água é da Índia, não do Brasil

Post viral distorce origem da imagem para espalhar que governo Bolsonaro mandou instalar painéis no canal de transposição do Rio São Francisco

Pedro Prata

30 de dezembro de 2021 | 18h00

É falso que o governo federal tenha instalado painéis solares sobre o canal de transposição do Rio São Francisco. Postagens trazem uma imagem da suposta obra e afirmam que foi feita sob determinação do presidente Jair Bolsonaro (PL), mas na verdade as fotos foram feitas na Índia, mais de quatro anos atrás.

O presidente chegou a anunciar um projeto semelhante, em 2019, mas não saiu do papel. Procurada pela reportagem, a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) afirmou que nenhuma atividade de instalação de placas geradoras de energia solar está sendo feita no local. 

Uma postagem com a associação enganosa com as imagens foi compartilhada ao menos 44 mil vezes no Facebook.

Origem das fotos

O Estadão Verifica utilizou o mecanismo de busca reversa do Google para identificar a origem da foto. A ferramenta permite ver outras vezes em que a imagem foi publicada (veja aqui como você pode fazer).

Uma das fotos está disponível em um relatório da empresa AECOM para a prefeitura da cidade de Visakhapatnam, na costa oeste da Índia (veja o documento abaixo). A AECOM é uma empresa especializada em consultoria para projetos de infraestrutura.

Documento

O Estadão Verifica entrou em contato por e-mail para confirmar se a foto foi tirada na cidade de Visakhapatnam, mas não obteve retorno. O relatório é de 2017, portanto a foto foi tirada antes de Bolsonaro ser eleito presidente.

Não foi possível encontrar a origem da segunda foto. Ao realizar a busca reversa, foi possível encontrá-la em perfis no Twitter que afirmam se tratar de uma iniciativa indiana. As fotos com melhor qualidade permitem identificar uma marca d’água com o nome de um perfil no Instagram sobre engenharia. A postagem original também afirma se tratar de uma obra na Índia, não no Brasil.

Uma matéria da BBC mostra que a tecnologia já começou a ser aplicada no gigante asiático. A Índia tem mais de um bilhão de habitantes e a pressão por terras é grande. A técnica é importante porque permite gerar energia em uma área que já estava ocupada e não poderia ser utilizada para moradia ou produção de alimentos.

Além disso, colocar células fotovoltaicas em cima de um curso d’água resfria o equipamento e reduz a evaporação do canal.

Governo federal já falou em aplicar a técnica

Em agosto de 2019, o presidente Jair Bolsonaro inaugurou a primeira etapa da Usina Solar Flutuante instalada no Reservatório de Sobradinho, da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (CHESF). Trata-se de um projeto de pesquisa e desenvolvimento para avaliar os resultados e sua viabilidade, cujo resultado está previsto para abril de 2022.

A tecnologia poderá ser aplicada ao longo dos 477 km de extensão dos canais de transposição do São Francisco, informou o Ministério de Minas e Energia. Parte da energia gerada poderia alimentar as bombas da própria obra de transposição, enquanto o restante pode ser disponibilizado para consumo da população.

Desde então, não há notícias de que o projeto tenha avançado. Isso é um indicativo de que o conteúdo é falso, pois uma política de infraestrutura desse porte seria noticiada.

A Codevasf, operadora do Projeto de Integração do Rio São Francisco (PISF), foi procurada para dizer se já há algum trecho com geração de energia fotovoltaica. O órgão respondeu por e-mail que “não estão sendo empreendidas atividades que visem à instalação de placas voltadas à geração de energia solar”.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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