Onda de frio e de boatos: veja conteúdos enganosos sobre o tempo que circulam nas redes

Onda de frio e de boatos: veja conteúdos enganosos sobre o tempo que circulam nas redes

Com o registro de baixas temperaturas em vários pontos do Brasil, vídeos com fatos inusitados e mensagens alarmistas sobre o assunto ganharam alcance

Samuel Lima

30 de julho de 2021 | 19h46

A onda de frio que chegou ao Brasil na quarta-feira, 28 de julho — com direito a neve e termômetros no negativo em cidades da Região Sul e a menor temperatura em São Paulo em cinco anos — virou assunto nas redes sociais. Uma série de conteúdos chamaram a atenção dos usuários, desde memes bem-humorados até correntes de solidariedade. 

Infelizmente, o cenário também é propício para o avanço dos boatos. Com a ajuda de leitores, o Estadão Verifica identificou ao menos três vídeos enganosos circulando com grande engajamento no WhatsApp, além de uma corrente do Facebook que distorce a nota de um serviço de meteorologia. As sugestões foram enviadas ao número (11) 97683-7490.

Vídeo com fogueiras em uma plantação de uvas foi feito na França

Um dos boatos mais compartilhados nesta semana alega mostrar um “espetáculo” na cidade de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, onde viticultores estariam colocando fogueiras em meio às videiras para evitar o congelamento das uvas. 

O registro, no entanto, foi feito em 6 de abril deste ano em uma vinícola da região de Chablis, na França. A publicação original é da conta do fotógrafo Titouan Rimbault no Instagram.

O Estadão Verifica chegou ao conteúdo por meio de uma busca reversa de imagens pelo site Yandex, a partir de capturas de tela obtidas na ferramenta InVID.

Na legenda da postagem em francês, Rimbault relata que o vídeo mostra a chegada da temporada de geadas de primavera na localidade, que fica a cerca de 170 quilômetros a sudeste de Paris. O conteúdo viralizou posteriormente em outros perfis, como o blog francês “Les Vins du Capitaine”.

Procurada pela reportagem, a prefeitura de Bento Gonçalves disse que não tem registro da prática nos parreirais do município. O Estadão também consultou, por telefone, o escritório da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural do Rio Grande do Sul (Emater/RS) de Bento Gonçalves. O extensionista Thompson Didoné disse que até houve registros esporádicos no ano passado, mas descarta a ideia nesta época do ano, quando as videiras estão dormentes.

“Não existe necessidade nenhuma de aplicar tecnologia de controle de frio agora. Inclusive, é bom ter bastante frio para completar bem o ciclo de inverno, o que favorece a brotação na primavera”, aponta o especialista. Ele também alerta para a necessidade de se procurar antes uma ajuda técnica. 

Didoné ressalta que a prática pode ter algum efeito benéfico quando feita em áreas maiores, mas não de maneira isolada, e poucos terrenos de Bento favorecem o procedimento por conta da declividade. Além disso, faltam estudos atestando que funciona e para orientar fatores simples, como a distância entre as fogueiras e o material a ser utilizado.

Uma pesquisa no Google mostra que a imprensa noticiou pelo menos um caso recente no Brasil, mas longe do município e não em uma produção de uvas. Um agricultor de Paranavaí, do interior do Paraná, fez uso de fogueiras para evitar prejuízos com geadas em sua plantação de verduras. Ao G1, afirmou que se inspirou em produções semelhantes na Europa.

A Embrapa ressaltou que o uso de fogueiras pela plantação para evitar prejuízos com geadas não é uma prática usual nas culturas trabalhadas pelos agricultores brasileiros. “São poucos os que fazem isso e não há estudos da Embrapa para comprovar a sua eficácia”, acrescenta a nota.

‘Linha Verde’ de Curitiba ficou coberta de gelo em novembro

Outro vídeo enganoso foi encaminhado por leitores do Estadão Verifica pelo WhatsApp e mostra alguns carros trafegando com dificuldades em uma rua coberta de gelo. O homem que está filmando diz: “Olha o gelo. Parado em cima do asfalto e patinando aqui na Linha Verde. Aqui tá chique a coisa. Parou tudo, Curitiba parou.” 

Em seguida, a gravação corta para uma mulher observando a cena da janela de um prédio. “Olha os carros patinando no gelo. Olha a Linha Verde, meu deus. Agora os carros estão estragando, tá tudo parado. Jesus amado. Tá muito perigoso, olha lá o motoqueiro patinando no gelo.”

Assim como no caso das fogueiras, a gravação circula fora de contexto. O Estadão Verifica fez uma busca reversa de imagens no Google, com o auxílio do InVID, e constatou que a segunda parte da gravação circula na internet desde 3 de novembro de 2020. Em resposta por e-mail, a prefeitura de Curitiba disse que a informação não procede: “Não tivemos chuva com granizo nas últimas semanas”.

A reportagem ainda comparou a segunda parte do vídeo com imagens de satélite do Google Maps e descobriu que mostra um trecho específico da Linha Verde em frente ao condomínio Spazio Champ Ville, no Bairro Alto. “Não é de agora, não. Foi de uma chuva de granizo que teve há um tempo atrás”, respondeu a administração do conjunto. “Não sei precisar quando foi, mas não é deste inverno”. Nesta semana, a situação estava normal. 

‘Forte chuva de granizo’ não é recente, nem ocorreu em Campo Mourão

Outro vídeo antigo mostrando uma “forte chuva de granizo” foi recuperado e passou a circular no WhatsApp como se fosse de “agora” na cidade de Campo Mourão, no Paraná. A informação aparece nas legendas, já que a gravação é feita de dentro de uma casa e não se tem nenhum comentário indicando a data e o local.

O Estadão Verifica não conseguiu determinar a origem exata do vídeo, mas é certo que se trata de material antigo, pois aparece em postagens desde dezembro de 2018. Além disso, a peça já foi atribuída a pelo menos outras quatro cidades brasileiras: Porto Seguro (BA), Orizona (GO), Irecê (BA) e Mauriti (CE).

Não foram encontradas notícias sobre a incidência de granizo esta semana no Paraná, e sim no Rio Grande do Sul. Por telefone, uma funcionária da prefeitura de Campo Mourão relatou que a cidade realmente não sofreu com esse tipo de precipitação. Segundo ela, teve somente uma “chuvinha leve” e “muito frio”.

Falso alerta de frio intenso de EUA e Canadá ao Brasil

É falso que “pesquisadores” ou os próprios governos de Estados Unidos e Canadá tenham emitido um suposto alerta de frio intenso ao Brasil. Na verdade, a história surgiu a partir de uma distorção de uma nota publicada pelo serviço de meteorologia Metsul.

 

Em uma nota publicada em 23 de julho, são apontados alguns cenários com base em cálculos sobre três modelos diferentes, desenvolvidos nos Estados Unidos (GFS), no Canadá (CMC) e na Alemanha (Icon). Os países, no entanto, não tiveram influência no processo, e nenhuma autoridade efetuou avisos ao Brasil.

Cuidado com os boatos

Peças de desinformação como as verificadas nesta checagem viralizam porque apelam para um fato extraordinário, muitas vezes representado através de uma experiência pessoal, ao mesmo tempo em que as pessoas estão naturalmente interessadas em saber mais sobre o assunto e inclinadas a acreditar na autenticidade daquilo que recebem. 

Portanto, desconfie de mensagens que não trazem uma fonte confiável de informação e pesquise sempre antes de compartilhar. Vale ainda um cuidado redobrado quando esse conteúdo tiver potencial para gerar pânico. O Estadão Verifica recebe sugestões de checagem pelo WhatsApp: (11) 97683-7490.

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