Falsamente atribuída a Bolsonaro, chegada de água do Rio São Francisco a Barra de Santana (PB) ocorreu em 2018

Falsamente atribuída a Bolsonaro, chegada de água do Rio São Francisco a Barra de Santana (PB) ocorreu em 2018

Para exaltar o atual presidente, postagens ignoram que o Eixo Leste da obra de transposição entrou em operação dois anos antes de seu mandato

Samuel Lima

19 de fevereiro de 2022 | 16h02

Postagens nas redes sociais fazem elogios ao presidente Jair Bolsonaro (PL) por levar águas da transposição do Rio São Francisco para uma área de lazer em Barra de Santana, na Paraíba. O conteúdo, porém, é enganoso, pois a localidade faz parte do Eixo Leste da obra, que começou a operar ainda em 2017. As águas do “Velho Chico” passaram por aquele trecho específico, pela primeira vez, em março de 2018, segundo apurou o Estadão com fontes e documentos oficiais.

A gravação analisada pelo blog mostra pessoas tomando banho nas margens de um rio, confraternizando em churrascos e soltando fogos de artifício, além de ciclistas atravessando um trecho com rochas. Um homem não identificado aparece dando comida para um cachorro e depois declara que está em um local de lazer nas margens do Rio Paraíba. “Essa aqui é a água do rio São Francisco, da transposição. A comporta do açude do Boqueirão está aberta, então faz meses que isso daqui está assim”, declara. 

Ele não menciona a data, nem faz referência a Bolsonaro nas imagens, mas apoiadores do presidente passaram a compartilhar a peça associando-o ao relato. No Twitter, por exemplo, um perfil anônimo escreveu: “Obrigado presidente Bolsonaro, a Água da Transposição chegou trazendo felicidade, liberdade”. O vídeo também viralizou no Facebook com a inscrição “Nordeste, uma nova realidade” e agradecimentos ao atual chefe do Executivo.

Apesar de a localização exata não ser fornecida no vídeo, o Estadão Verifica apurou que se trata de um ponto turístico da cidade paraibana conhecido como “Rio do Feijão”. O espelho d’água está localizado entre o açude Epitácio Pessoa, em Boqueirão, e o mirante do Curimatã — um antigo posto de observação de uma barragem inacabada de mesmo nome que começou a ser construída pelo Exército na década de 1950. O local fica nas margens do Rio Paraíba, mas recebeu o nome de “Feijão” em referência ao nome da propriedade que dá acesso a ele.

Para chegar nessa informação, o blog pesquisou sobre pontos turísticos de Barra de Santana e encontrou um vídeo promocional da prefeitura com imagens parecidas com o local mostrado no vídeo, além de uma reportagem da TV Paraíba, afiliada da Globo no Estado, e um filme amador sobre o Sítio Feijão. O local está sinalizado na plataforma de georreferenciamento Google Maps.

O Estadão ainda entrou em contato com uma pousada da cidade e encaminhou a gravação a um funcionário, que confirmou a localização por mensagens de WhatsApp.

‘Rio do Feijão’ recebeu águas da transposição em 2018

Ainda que postagens nas redes sociais estejam espalhando que a gravação mostra um “novo Nordeste” promovido pelo governo Bolsonaro, o fato é que as águas da transposição do Rio São Francisco chegaram no “Rio do Feijão”, pela primeira vez, em março de 2018 — cerca de nove meses antes de o político assumir o mandato como presidente da República.

O Estado da Paraíba é beneficiado pelo Eixo Leste da obra, que começa em Floresta (PB) e termina no leito do Rio Paraíba, em Monteiro (PB). As águas do São Francisco seguem pelas barragens de São José II, Poções, Camalaú e Epitácio Pessoa antes de chegar no município de Barra de Santana.

“É justamente das comportas deste açude (Epitácio Pessoa, conhecido como Boqueirão) que está indo a água para esse balneário que aparece no vídeo”, explica o gerente regional de bacia hidrográfica da Agência Executiva de Gestão das Águas do Estado (Aesa), João Adelino de Lima Filho. “Essa manobra foi feita para perenizar esse trecho de 100 quilômetros do Rio Paraíba que passa por Barra de Santana e vai até a barragem de Acauã, no município de Itatuba (em direção ao litoral).”

O Eixo Leste da transposição entrou em pré-operação em março de 2017, quando foi inaugurado pelo ex-presidente Michel Temer (MDB). As águas chegaram ao açude Epitácio Pessoa depois de 41 dias, em 18 de abril daquele ano, quando a região metropolitana de Campina Grande enfrentava uma severa crise hídrica. A barragem de Boqueirão estava operando com apenas 2,9% da capacidade naquele momento.

De acordo com João Adelino, as comportas do Epitácio Pessoa foram abertas entre os meses de março e junho de 2018 para o envio de 4,8 milhões de metros cúbicos de água para Acauã. A autorização consta em uma resolução conjunta da Aesa com a Agência Nacional de Águas (ANA), divulgada na época pelo governo da Paraíba e publicada no Diário Oficial da União.

Nesse período, portanto, as águas do Rio São Francisco passaram pelo “Rio do Feijão” — trecho do Rio Paraíba em Barra de Santana que é mostrado na gravação investigada pelo Estadão Verifica. Novas operações foram feitas em julho de 2019 e em junho de 2020

A manobra mais recente foi realizada em agosto de 2021 e, desde então, o fluxo de 2 mil litros por segundo está mantido. “O rio está perene de Monteiro até a foz, graças a esses reservatórios estratégicos que funcionam como pulmão”, relata o gestor da Aesa.

Disputa política

A transposição do Rio São Francisco é um ativo político disputado por três pré-candidatos a presidente da República nas eleições de 2022: Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Ciro Gomes (PDT) e Jair Bolsonaro (PL). O petista era o chefe do Executivo em 2007, quando as obras começaram. O pedetista foi ministro da Integração Nacional entre 2003 e 2006, período em que ocorreu a maior parte do planejamento. Já Bolsonaro vem realizando entregas de trechos, principalmente no Eixo Norte.

Assim como nesta checagem, outros conteúdos enganosos circularam inflando a responsabilidade de Bolsonaro no projeto e ignorando o histórico da obra tocado por governos anteriores. A desinformação aparece, por exemplo, em imagens e vídeos de trechos específicos inaugurados por outras gestões e em publicações que atribuem exclusivamente ao governo atual toda a extensão da obra no Nordeste.

A Transposição do Rio São Francisco é um projeto de 2006, formulado ainda no governo Lula e orçado em R$ 4,5 bilhões. As obras começaram em 2007 e a previsão era de que o primeiro trecho fosse entregue em 2010, o que não aconteceu. No final de 2010, o então presidente Lula disse que a obra seria entregue em 2012, mas foram sendo feitos novos aditivos e os prazos foram prorrogados.

Em 2012, o prazo foi prorrogado para 2015, e naquele ano a primeira estação de bombeamento da obra. que é dividida em dois eixos – Norte e Leste –, foi entregue pela então presidente Dilma Rousseff, no Eixo Norte. Em 2017, o presidente Michel Temer inaugurou o Eixo Leste, como já mostrou esta checagem feita pelo Projeto Comprova.

Em novembro de 2016, três meses após Dilma deixar o poder, o Eixo Norte tinha 87,7% das obras físicas executadas e o Eixo Leste tinha 84,4%. Em 2018, antes do início do mandato de Bolsonaro, as obras já estavam 96,40% concluídas. O percentual aparece em uma página do Ministério do Desenvolvimento Regional, que foi retirada do ar, mas recuperada por meio da ferramenta Wayback Machine.

Em janeiro, o Estadão Verifica procurou o Ministério do Desenvolvimento Regional para falar sobre o andamento das obras e sobre a participação do atual governo na transposição. Em nota, o ministério informou que “os percentuais de execução das obras divulgados pelas gestões anteriores não representam a realidade, já que, em decorrência das longas paralisações e necessidade de reparos em diversas estruturas e trechos concluídos, houve regressão nesses percentuais, necessidade de novos investimentos, bem como atrasos no término do empreendimento”.

O ministério foi procurado novamente para esclarecer informações sobre conteúdo aqui verificado. O blog questionou, por exemplo, quais ações do atual governo beneficiaram especificamente aquele trecho do Rio Paraíba em Barra de Santana, mas o órgão não se manifestou até a publicação desta checagem.

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