Nise Yamaguchi, difusora de desinformação sobre cloroquina e tratamento precoce, faz na CPI alegação falsa sobre vacina
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Nise Yamaguchi, difusora de desinformação sobre cloroquina e tratamento precoce, faz na CPI alegação falsa sobre vacina

Ouvida pela comissão de inquérito do Senado que analisa ações do governo federal no combate à pandemia, médica oncologista disse que pessoas com doenças autoimunes não devem ser vacinadas, o que não é verdade

Alessandra Monnerat, Pedro Prata e Samuel Lima

01 de junho de 2021 | 15h26

Atualizada às 16h55

A CPI da Covid no Senado ouviu nesta terça-feira, 1, a médica Nise Yamaguchi. Ela é conhecida por ser defensora da prescrição de cloroquina para tratar pacientes de covid-19, apesar de este ser um medicamento comprovadamente ineficaz contra a doença. A oncologista e imunologista citou dados incorretos sobre o índice de mortalidade no Amapá e disse que nunca teve encontros privados com o presidente Jair Bolsonaro — o que não é verdade. Veja a checagem abaixo.

A médica Nise Yamaguchi. Foto: Gabriela Biló/Estadão

“Eu já tive covid, e eu não posso me vacinar, porque eu tenho uma doença autoimune […] Como eu expliquei, até para esclarecer aquela questão da vacinação obrigatória e aleatória, existem pessoas que não podem se vacinar, principalmente aquelas que têm vasculites – como é o meu caso, eu tenho uma síndrome de Raynaud –, outras pessoas que têm doenças maiores, hepáticas ou renais que sejam situações graves”

É falso que pessoas que têm vasculites não podem se vacinar contra a covid-19. Pacientes com doenças reumáticas autoimunes foram incluídos no grupo prioritário de vacinação, e esse grupo inclui pacientes portadores de vasculites. Em abril, a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) destacou a importância da imunização dessas pessoas. 

Plano de imunização

“Pacientes reumáticos podem apresentar problemas de imunidade por causa da  enfermidade ou pelo uso de medicamentos imunossupressores ou imunobiológicos”, explicou na época o presidente da SBR, Ricardo Xavier. “Por isso, têm potencialmente maior predisposição para apresentar as formas mais graves do covid-19 e precisam ser protegidos.”

Uma organização do Reino Unido dedicada ao tratamento da Síndrome de Raynaud, doença citada pela médica, também recomenda a vacinação dos pacientes.

 

“No Amapá, temos um dos menores índices do mundo de mortalidade”

É falso. A taxa de mortalidade mostra quantas pessoas de uma determinada população morreram por causa de uma doença. A médica citou o Amapá como exemplo de Estado em que se aplicou o chamado “tratamento precoce”.

Segundo dados oficiais do Ministério da Saúde, a taxa de mortalidade do Amapá nesta terça-feira, 1º de junho, era de 200,5 mortes por 100 mil habitantes. Essa taxa é maior que a de 11 Estados no País — Maranhão, Alagoas, Bahia, Pernambuco, Pará, Rio Grande do Norte, Piauí, Tocantins, Acre, Paraíba e Minas Gerais —, ainda que esteja abaixo da média do Brasil, de 220,2.

Também é falso que o Amapá tenha uma das menores mortalidades do mundo. Segundo dados da Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos, apenas 14 países aparecem com mais mortes por 100 mil habitantes do que 200,5. A taxa de mortalidade amapaense por covid-19 é maior do que a de 166 países e territórios da lista — e 132 deles aparecem com menos da metade desse índice.

É possível que Yamaguchi tenha confundido taxa de mortalidade com taxa de letalidade — essa última indica quantas pessoas morrem em relação ao total de contaminados. Nesse caso, o Amapá tem a menor taxa entre os Estados brasileiros (1,51%). Mas é enganoso atribuir esse resultado ao chamado tratamento precoce. A letalidade está relacionada a diversos fatores, como quantidade de testes realizados, idade da população, densidade demográfica etc.

 

(Perguntada sobre estudos revisados que confirmem eficácia de cloroquina) temos uma série do Henry Ford Foundation, essa publicação traz com relação aos dados da hidroxicloroquina nessas instituições”.

Conforme o Projeto Comprova já mostrou, a análise publicada pelo Henry Ford Health System é insuficiente para provar eficácia da hidroxicloroquina no combate à covid-19. Isso porque ele é um estudo observacional, diferente do chamado padrão ouro de pesquisas, o ensaio clínico randomizado controlado.

No estudo publicado pelo Henry Ford Health System no International Journal of Infectious Diseases, médicos analisaram 2.541 pacientes hospitalizados entre os dias 10 de março e 2 de maio de 2020 em seis hospitais que fazem parte da rede de saúde da organização, localizados na região metropolitana de Detroit, nos Estados Unidos. De acordo com os pesquisadores, 13% dos tratados apenas com hidroxicloroquina morreram, enquanto a taxa de mortalidade entre os pacientes não tratados com hidroxicloroquina foi de 26,4%.

Um especialista ouvido pelo Comprova disse que estudos observacionais sozinhos não permitem concluir pela eficácia de um medicamento. “Eles apenas sugerem associações que depois precisam ser validadas em estudos de intervenção”, disse Carlos Orsi, do Instituto Questão de Ciência. A própria conclusão do artigo ressalta que os resultados precisam ser confirmados através de outros testes que permitam avaliar “rigorosamente” a eficácia do tratamento.

O site The Detroit News relatou que Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, chamou o estudo de falho e criticou o fato dele não ser controlado. Fauci é a principal autoridade médica no combate à pandemia nos EUA. Durante comissão do Congresso americano, ele comentou que muitas pessoas que receberam a hidroxicloroquina também receberam corticóides, o que hoje se sabe que tem impacto positivo no tratamento.

 

“Ao utilizar esses medicamentos (do tratamento precoce), há uma redução significativa no número de mortos e de pacientes graves”

A cloroquina é usada, assim como o seu derivado hidroxicloroquina, para o tratamento de malária e amebíase hepática, doenças causadas por protozoários, e de lúpus e artrite reumatoide, doenças autoimunes, e não possui ação antiviral.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendou “fortemente” que a hidroxicloroquina não seja utilizada como prevenção contra a covid-19 e deixe de ser prioridade em pesquisas científicas. A decisão foi tomada após seis estudos com 6 mil pacientes mostrarem que a droga não teve efeito significativo na redução de casos e que ela “provavelmente” aumenta o risco de efeitos adversos.

O FDA, órgão de vigilância sanitária dos Estados Unidos, considera desde junho que “estudos clínicos amplos e randomizados em pacientes hospitalizados descobriram que esses medicamentos não demonstram nenhum benefício em reduzir a chance de morte ou o tempo de recuperação”.

O uso da cloroquina contra a covid-19 foi propagado inicialmente pelo médico francês Didier Raoult. A pesquisa de Raoult, porém, passou por revisão de outros médicos, que apontaram erros metodológicos “grosseiros”, que fazem com que o estudo “não permita tirar conclusão alguma”. A revisão também chama o estudo de “irresponsável” por endossar o tratamento, tendo vista os potenciais efeitos colaterais da hidroxicloroquina e a alta na procura do remédio.

Não é a primeira vez que ela é testada contra vírus. Uma nota técnica da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz mostra que, em laboratório, ela já eliminou vírus da chikungunya, dengue, ebola, HIV e SARS. No entanto, quando testada em seres vivos, se mostrou ineficaz.

 

“Eu nunca tive encontros privados com o presidente Bolsonaro, mas eu tive um almoço com diversos integrantes e eu conversei sobre a importância desse tratamento precoce inicial”

A agenda do presidente Jair Bolsonaro indica que ele se reuniu de forma privada com Nise Yamaguchi ao menos uma vez, no dia 15 de maio de 2020. Há ao menos outras três reuniões entre o presidente e a médica, com a presença de outras pessoas.

Uma delas, no dia 6 de abril de 2020, ocorreu no horário do almoço, com a presença dos ministros Braga Netto (Casa Civil), Ernesto Araújo (Relações Exteriores), Jorge de Oliveira (Secretaria-Geral da Presidência), Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo da Presidência) e Augusto Heleno (Gabinete de Segurança Institucional). No dia seguinte, a médica voltou a se reunir com o presidente, com Ramos e o deputado federal Victor Hugo (PSL-GO).

Em 8 de abril, Nise esteve com o então assessor-chefe da Presidência, Filipe Martins, e o então ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo. No mês seguinte, no dia 21, Nise foi novamente ao Planalto, quando se encontrou com Bolsonaro, o ex-prefeito do Rio Marcelo Crivella e o ex-secretário-executivo do Ministério da Saúde Élcio Franco.

 

“Fizeram um estudo dizendo que os pacientes vinham de casa e que o lockdown só não resolveria o problema. A própria OMS depois disse que era algo de extrema situação. O lockdown serve também para dar estrutura. Isoladamente, não resolve a questão da contaminação, porque as pessoas se contaminam em casa”

A citação é enganosa. Nise Yamaguchi se refere a um levantamento do Departamento Estadual de Saúde de Nova Iorque, divulgado no dia 6 de maio, pelo governador Andrew Cuomo, em uma entrevista coletiva. De 600 novas internações em 24 horas, dois terços eram de pessoas que estavam praticando o distanciamento social em casa. No entanto, esses dados não provam que o lockdown não funciona para frear a contaminação.

Como mostrou uma checagem do Estadão Verifica na época, Cuomo afirma na mesma entrevista que o número de contaminados estava caindo no Estado depois das medidas de isolamento, introduzidas em 22 de março de 2020. A declaração é confirmada por dados do mapa da covid-19 da Universidade Johns Hopkins, dos Estados Unidos. A média móvel de novos casos por dia caiu de 4.048 para 2.804 entre essas datas.

Além disso, o governador reconheceu que a amostragem da pesquisa era pequena. Ele pediu para que a população não relaxasse nos cuidados diários, para evitar o contato com possíveis infectados. A assessoria de imprensa do gabinete do governador também esclareceu ao Estadão que os dados divulgados não significam que a política de isolamento falhou, pelo contrário.

 

“Houve um anúncio das universidades europeias de que nós teríamos milhões de mortes até abril do ano passado. E, na época, já estavam utilizando (o chamado tratamento precoce), nos protocolos do Ministério da Saúde… Em vários serviços, eles utilizavam na época. Então, não dá para o senhor ter uma medida exata do benefício que foi dos medicamentos e dos tratamentos iniciais”.

Alegação enganosa. Em março do ano passado, o Imperial College de Londres publicou projeções de mortes e contaminados no mundo em três cenários diferentes de medidas de distanciamento social para mitigação do contágio. Segundo a estimativa, no caso de não adotar medida alguma, o Brasil poderia registrar até 1,15 milhão de mortos até o final de 2020, não até abril.

Esse era o cenário com nenhuma medida de distanciamento e isolamento de casos. Na hipótese de se garantir o isolamento apenas de idosos, como o presidente Bolsonaro então sugeria, os cientistas estimavam 529 mil, também até o final do ano. E no caso de um isolamento mais amplo, o número de mortes seria de 44 mil.

As estimativas foram feitas com base nos dados da China e de países de alta renda, o que pode significar que para as nações de baixa renda a realidade possa ser ainda mais grave que a apontada no trabalho. Também consideraram tanto medidas governamentais de isolamento quanto medidas espontâneas, por parte da população, de distanciamento.

 

“O Exército sempre produziu cloroquina e hidroxicloroquina”

De fato o Laboratório Químico do Exército já produzia cloroquina para o tratamento de malária e lupus. No entanto, o Exército aumentou a produção para o tratamento da covid-19, a pedido do presidente Jair Bolsonaro.

Segundo mostrou o Estadão, o Exército produziu 3,2 milhões de doses em 2020. A última produção havia sido em 2017, um total de 256 mil comprimidos. O aumento se deu para uso no tratamento da covid-19.

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