Não, vacina da Pfizer não fez mortalidade de covid-19 ‘disparar’ em Israel; casos graves diminuíram após início da imunização
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Não, vacina da Pfizer não fez mortalidade de covid-19 ‘disparar’ em Israel; casos graves diminuíram após início da imunização

Boato mistura dados de fontes diferentes e faz comparações infundadas para atacar campanha de vacinação israelense

Victor Pinheiro, especial para o Estadão

08 de março de 2021 | 17h07

É falso que a vacina contra covid-19 da Pfizer e BioNTech tenha aumentado a taxa de mortalidade da doença em Israel, como sugere um artigo do site Contrafatos. O boato teve origem em um fórum online aberto israelense chamado Nakim e foi reproduzido por sites antivacinas de vários países. 

Ausente de valor científico, o texto apresenta argumentos enganosos, que distorcem dados do Ministério da Saúde israelense. As melhores evidências indicam, na verdade, que a vacinação contra a covid-19 é responsável pela redução de casos graves da doença no país. Até o momento, não foi confirmada nenhuma morte provocada por vacinas do novo coronavírus em Israel. 

Israelenses recebem a vacina contra covid-19 em um ginário na cidade de Hod Hasharon, na região central de Israel Foto: Jack Guez/AFP

Recorte inapropriado

O boato tenta rebater uma reportagem veiculada pelo site de notícias israelense Ynet, em 11 de fevereiro. A matéria indicava a eficácia da vacina da Pfizer no controle de casos graves. Mas o texto enganoso se apropria de uma tabela incluída na reportagem, com informações sobre pacientes hospitalizados com covid-19 que receberam ao menos a primeira dose da vacina. 

Os dados apresentados pelo Ynet são segmentados pela idade dos pacientes, quantidade de doses recebidas e o tempo decorrido desde a vacinação. Isso porque o ciclo da vacina da Pfizer se constitui de 21 dias entre as duas injeções, mais 14 dias para efeito apropriado após a segunda aplicação. A tabela sugere que quanto mais próximo do ciclo completo de imunização, menor a probabilidade do paciente morrer ou desenvolver formas severas da doença. 

As informações publicadas pelo site israelense indicam, por exemplo, que de 865 pacientes maiores de 60 anos em condições graves, apenas 10 haviam recebido a segunda dose há mais de duas semanas, enquanto 742 tinham recebido somente a primeira aplicação. A tabela apresenta dados da vacinação iniciada em dezembro, mas não deixa claro o período exato da amostra.

O conteúdo enganoso, no entanto, compara os dados da tabela do Ynet com um recorte de casos severos de covid-19 de um único dia reportado pelo Ministério da Saúde israelense. Segundo as informações do governo, em 10 de fevereiro 1.051 pacientes se encontravam em estado grave. O boato sugere que, dentro deste total, 752 eram vacinados e conclui que o imunizante poderia ser um agravante da doença. 

Mas a conclusão não faz sentido: a tabela do Ynet apresenta dados de um período não especificado, e o texto enganoso compara essas informações com números pontuais, de um único dia. Como destacou uma verificação do site canadense Le Soleil Numérique, é possível observar a inconsistência dessa comparação ao verificar as mortes registradas. Enquanto o site israelense indica o total de 660 óbitos no período retratado na tabela, o Ministério da Saúde do país mostra que no dia 10 de fevereiro foram registradas 35 mortes.

Índices inconsistentes

O autor do texto enganoso faz outra série de recortes incorretos para sugerir que a vacinação é responsável por um pico de mortes pelo novo coronavírus em Israel. A partir de um cruzamento dos dados da tabela do Ynet com os números gerais de pacientes imunizados informados pelo Ministério da Saúde — incluindo aqueles que não desenvolveram covid-19 — o post concluiu que 0,05% dos vacinados abaixo de 65 anos morreram da covid-19 durante as cinco semanas do ciclo completo da imunização. Esse cálculo não faz sentido. Primeiramente, o texto confunde dados de pacientes acima e abaixo de 60 anos para chegar ao resultado, e não explica como fez o recorte.

Mais adiante, o boato apresenta uma taxa de mortalidade de 0,2% para pacientes maiores de 65 anos nas três semanas entre a aplicação da primeira e da segunda dose da vacina da Pfizer. Mas para conseguir esse número, o autor mistura duas fontes diferentes: informações da tabela do Ynet e dados de notificações de suspeitas de eventos adversos disponíveis no VAERS, o sistema de farmacovigilância dos Estados Unidos. 

O próprio CDC explica que esses relatos “não podem ser interpretados ou utilizados isoladamente para chegar a conclusões sobre a existência, gravidade, frequência, ou taxas de problemas associados às vacinas.” Isso porque são notificações não confirmadas de efeitos adversos, que podem ser enviadas por qualquer pessoa. Até o momento, não foram registradas mortes causadas pelas vacinas contra covid-19 nos EUA.

Mais comparações sem fundamento

O boato também distorce dados do Maccabi Health Services, uma organização de saúde de Israel, que comparam a incidência de mortes por 100 mil pacientes entre pessoas completamente vacinadas e não vacinadas. Os números indicam uma taxa de mortalidade de 0,19 a cada 100 mil pessoas não imunizadas com idade entre 45 a 60 anos, frente a 0,0196 para os imunizados da mesma faixa etária.

Além disso, os dados do Maccabi Health Services apontam que apenas 0,279 por 100 mil das pessoas acima de 65 anos completamente vacinadas vieram a óbito; o índice do grupo não imunizado é de 4,71 mortes a cada 100 mil pessoas. Esses números são um indicativo que a vacina reduz em 94% óbitos entre idosos.

No texto enganoso, porém, o autor aplica as taxas de mortalidade infundadas citadas anteriormente aos dados do serviço de saúde israelense. Assim, chega à conclusão que a mortalidade do grupo etário de 45 a 65 anos aumentou em 260 vezes durante a campanha de imunização, se comparada com o índice “natural” de mortalidade da covid-19 no país. Mas, como visto acima, as taxas de mortalidade calculadas pelo autor são inconsistentes e não contemplam exclusivamente a faixa de etária de 45 a 65 anos.

Segunda onda

Outra incoerência no texto analisado está nas comparações feitas entre os números brutos de casos e mortes de covid-19 em Israel. Segundo o autor do boato, entre a metade de dezembro (início da vacinação em Israel) e a metade de fevereiro, foram registradas 2.337 mortes provocadas pelo novo coronavírus — o equivalente a 43% do total das 5.351 computadas até a data.

A quantidade citada no texto corresponde ao observado entre os dias 15 de dezembro e 15 de fevereiro, conforme painel da Organização Mundial da Saúde. O post enganoso ignora, entretanto, que o início da vacinação ocorreu durante uma nova onda de infecções em Israel, com um aumento de casos a partir do início de dezembro e auge no final de janeiro. 

Com cerca de 53% da população vacinada, a tendência de mortes por covid-19 em Israel está em queda. A quantidade de pacientes em estado severos, inclusive, caiu de 1,1 mil no início de fevereiro para 708 atualmente. 

Ao Estadão Verifica, o virologista Flávio Fonseca, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ressalta que o boato faz recortes inapropriados. O especialista destacou ainda que a vacina da Pfizer não é capaz de causar sintomas de covid-19, já que o imunizante de RNA mensageiro não contém partículas vivas do vírus, somente uma proteína da superfície do agente infeccioso.

“Se a vacina gerasse algum evento adverso, eles não poderiam ser confundidos com covid-19, e os dados [do Ministério da Saúde de Israel] tratam de pessoas diagnosticadas com a doença”, afirmou. Ele destaca que os índices de eficácia apresentados na reportagem do Ynet são semelhantes com os resultados dos testes clínicos da vacina da Pfizer.

Melhores evidências indicam eficácia da vacinação

As melhores evidências disponíveis até o momento indicam que a vacinação contra a covid-19 em Israel tem impacto positivo na redução das internações no país. Um estudo revisado por pares e publicado na revista científica New England Journal of Medicine comparou a incidência da covid-19 entre dois grupos de 596 mil pessoas: um composto por pacientes vacinados e outro, por pessoas que não receberam nenhuma dose do imunizante. 

O estudo concluiu que pacientes analisados sete dias após a segunda dose apresentavam 92% menos chances de desenvolver sintomas severos de covid-19. A eficácia da primeira injeção entre 14 e 20 dias após a imunização foi de 57%. Segundo os pesquisadores, os dados são consistentes com os observados nos ensaios clínicos da vacina. 

Já um relatório da rede hospitalar Maccabi Health Services de fevereiro indicou que, de 523 mil pacientes vacinados com as duas doses da vacina da Pfizer, somente 554 foram diagnosticados com o novo coronavírus, quatro desenvolveram quadros severos e nenhum morreu, reportou o Times of Israel. Não há qualquer registro oficial que confirme a morte de um paciente devido a reações do imunizante no país. 

A Agência Lupa e o site lituano 15 Min também checaram o boato

Tudo o que sabemos sobre:

coronavírus [vacina]israelpfizer

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.