Não, o Chile não acabou com a propriedade privada e nem determinou o fim das Forças Armadas

Não, o Chile não acabou com a propriedade privada e nem determinou o fim das Forças Armadas

Mulher que aparece em vídeo identificada como 'primeira-ministra' é, na verdade, deputada constituinte que fez propostas rejeitadas por unanimidade

Daniel Tozzi Mendes, especial para o Estadão

18 de fevereiro de 2022 | 11h50

Não é verdade que o Chile aprovou medidas como a estatização de propriedades e de empresas e o fim das Forças Armadas do país, como afirmam postagens que circulam pelas redes sociais. Os posts compartilham um trecho em vídeo de uma mulher, falando em espanhol, propondo uma série de medidas de reforma do estado chileno. Ao contrário do que dizem as legendas dos posts, a mulher não é a “primeira-ministra do Chile” (cargo que nem sequer existe no país), mas sim a deputada constituinte María Rivera, que apresentou suas propostas na Convenção Constitucional chilena. As propostas foram votadas pelos demais deputados e rejeitadas por unanimidade.  

Para checar este conteúdo, o Estadão Verifica realizou uma busca reversa por imagem, por meio da ferramenta Yandex, a partir de um print do vídeo que está sendo compartilhado. Os resultados indicavam se tratar alguma sessão relacionada com a Convenção Constitucional do Chile. No vídeo, também é possível ler “Comision de Sistema Politico”. A pesquisa combinada, em espanhol, de “Convencion Constitucional Chile” e “Comision de Sistema Politico” nos buscadores de internet nos levou ao site oficial da Convenção e ao vídeo original da comissão em que as propostas foram feitas.

O contexto das propostas

María Rivera é uma das deputadas da constituinte chilena e militante do Movimento Internacional de Trabalhadores (MIT). Ela estava discursando na sessão do último dia 9 de fevereiro da Comissão de Sistema Político, Governo, Poder Legislativo e Sistema Eleitoral, que faz parte da Convenção Constitucional do Chile. Em 2020, o país realizou um plebiscito que aprovou a elaboração de uma nova constituição. A Convenção Constitucional e suas comissões são as responsáveis por redigir e aprovar essa nova constituição. 

O vídeo compartilhado nas redes sociais é um trecho de pouco mais de dois minutos da fala da deputada. Entre as propostas mencionadas, estão a substituição dos atuais poderes estatais chilenos por uma assembleia popular e a socialização das grandes empresas do país (como mineradoras, empresas de energia e bancos), que passariam a ser controladas pela classe trabalhadora. Ela também propõe que “nenhum setor parasitário da sociedade” e que “não produz nenhuma riqueza” (como a alta cúpula da igreja, os donos de grandes empresas e especuladores financeiros) tenha direito de eleger representantes.  

Rivera não menciona qualquer ideia relacionada com “acabar com as Forças Armadas” do Chile, mas sim, propõe que as tropas militares, e não apenas os oficiais de alta patente, tenham o direito de se organizar politicamente e eleger seus representantes. 

Por 25 votos a 0, todas as propostas de Maria Rivera foram rejeitadas pela comissão na Convenção Constitucional chilena e não avançaram. 

Este mesmo conteúdo também foi checado pelas agências LupaBoatos.org

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