Não há evidências de que seguranças de Haddad sejam militares cubanos
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Não há evidências de que seguranças de Haddad sejam militares cubanos

Homens que faziam cordão de isolamento do candidato eram voluntários brasileiros do PT gaúcho, segundo partido

Estadão Verifica

02 Outubro 2018 | 15h06

checagem abaixo foi publicada pelo Projeto Comprova. A verificação foi realizada por uma equipe de jornalistas do Estado, Gazeta Online, O Povo e Gaúcha ZH. Outras redações concordaram com a checagem, no processo conhecido como “crosscheck”.

Projeto Comprova é uma coalizão de 24 veículos de mídia com o objetivo de combater a desinformação durante o período eleitoral. Você pode sugerir checagens por meio do número de WhatsApp (11) 97795-0022.

Ao contrário do que afirmam publicações nas redes sociais, não há evidências de que pessoas que atuaram em um cordão de isolamento do presidenciável Fernando Haddad (PT) em um ato de campanha no Rio Grande do Sul sejam militares cubanos. O evento mencionado em boatos aconteceu na última quinta-feira, 27 de setembro, no município de Caxias do Sul.

Publicações disseminadas nas redes sociais chegaram a tal conclusão por conta do estilo do boné usado por um dos homens e em virtude da cor verde-oliva das camisas das pessoas que estavam ao redor do grupo petista. De acordo com posts em páginas de apoiadores do candidato Jair Bolsonaro (PSL), a combinação indicaria interferência de força militar estrangeira na campanha eleitoral brasileira.

A resolução 23.546, de 2017, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), veda expressamente que partidos políticos recebam, “direta ou indiretamente, sob qualquer forma ou pretexto, doação, contribuição ou auxílio pecuniário ou estimável em dinheiro, inclusive por meio de publicidade de qualquer espécie”, de origem estrangeira.

Até descartar evidências de que sejam, de fato, cubanos, o Comprova atuou em quatro frentes principais. Primeiro, comparou as roupas dos supostos soldados do país de Raúl Castro e Miguel Diáz-Canel com as dos homens que aparecem nos vídeos. Não há correspondência. Os trajes das Forças Armadas de Cuba, conforme imagens oficiais de desfiles militares em Havana, têm detalhes e botões, não são camisas unicolores.

Em seguida, também buscamos referências sobre o boné que está na cabeça de um homem à frente de Haddad. O acessório tem uma estrela vermelha na frente e uma bandeira de Cuba na parte lateral. Algumas versões do boato apontam, a partir de um frame do G1, que o item seria mais uma prova da ligação dos seguranças com o regime cubano. Uma análise mais lenta do vídeo, contudo, mostra que apenas um homem usa o objeto. Os demais, também vestidos de verde, usam outros tipos de bonés ou nenhum. Além disso, o boné com a estrela e a bandeira cubana é um item facilmente localizado em lojas online. Um site chamado “Lojinha do PT-RJ” comercializa o objeto por R$ 30.

Ainda dentro deste trabalho de checagem, acionamos repórteres que acompanharam a caminhada de Fernando Haddad em Caxias do Sul. Eles relataram não terem ouvido nenhum membro da equipe do petista falando em outra língua, a não ser o português.

Por fim, buscamos explicações junto ao PT do Rio Grande do Sul e a Miguel Rossetto, ex-ministro da Previdência Social no governo Dilma Rousseff (PT) e candidato ao governo daquele Estado. Ele aparece ao lado de Haddad em uma das gravações e, portanto, também estava protegido pelos supostos cubanos.

O presidente do PT no Estado, o deputado federal Pepe Vargas, informou que os seguranças eram voluntários, brasileiros e militantes do PT gaúcho. Disse, ainda, que a escolha das roupas levou em conta a facilidade para identificar o grupo entre os demais apoiadores, já que os correligionários costumam vestir a cor vermelha. O deputado não soube mencionar por que a cor verde foi a escolhida.

Já a assessoria de Rossetto informou não contratar segurança privada. Reforçou que a colaboração com a segurança das atividades de campanha é feita por militantes do PT e de movimentos sociais. Também acrescentou que as camisas verdes foram providenciadas pelo partido, para identificação da equipe de apoio.

“Não foram providenciados bonés, sendo opção de cada pessoa usar ou não. Entre as agendas de Caxias do Sul, Canoas e Porto Alegre, contamos com a participação de um conjunto de militantes. Desconhecemos a presença de estrangeiros entre os militantes que se voluntariaram para contribuir com a segurança dos atos”, informou a assessoria, em nota.

Candidatos à presidência da República de partidos com pelo menos cinco representantes no Congresso têm direito, caso solicitem, a até 25 policiais federais.

Mensagens com o boato aparecem no Monitor de WhatsApp da UFMG, ferramenta desenvolvida por pesquisadores da universidade mineira para verificar os conteúdos mais disseminados em grupos abertos do aplicativo. No Twitter, uma das postagens recebeu, até a noite desta segunda-feira, 1º de outubro, mais de 1,1 mil retuítes e outras 1,7 mil curtidas. Com menos engajamento, o boato também circulou em páginas anti-petistas do Facebook.