Não, Fiocruz não produz em sigilo vacina contra covid-19 em parceria com Israel
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Não, Fiocruz não produz em sigilo vacina contra covid-19 em parceria com Israel

Corrente no WhatsApp inventa que presidente Jair Bolsonaro teria dado 'golpe de mestre' ao manter produção de imunizante em segredo

Alessandra Monnerat

23 de março de 2021 | 14h10

É falso que a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) tenha trabalhado no último ano em sigilo para produzir uma vacina brasileira contra a covid-19, com supervisão de cientistas de Israel. A informação falsa circula em grupos de WhatsApp, em texto que afirma que o presidente Jair Bolsonaro deu um “golpe de mestre” na esquerda ao fechar a tal parceria secreta com os israelenses.

A mensagem diz que vieram de Israel “maquinaria (sic) e cinco cientistas” para desenvolvimento da vacina. Além disso, “40 estagiários que ficaram 90 dias em Israel e mais 300 funcionários recrutados nas universidades” também teriam participado da produção. Mas nada disso é real: segundo a própria Fiocruz, o país do Oriente Médio não teve qualquer contribuição para o imunizante contra covid-19 produzido no instituto.  

Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro Foto: Fiocruz

A corrente que circula no WhatsApp afirma que apenas agora a Fiocruz revelou que o “Brasil terá sua própria vacina”. O desenvolvimento teria sido deixado em segredo por Bolsonaro “para que não houvesse interferência dos esquerdopatas”. Mais uma vez, nada disso é verdade. A instituição carioca produz um imunizante contra a covid-19 em parceria com a Universidade de Oxford e a farmacêutica AstraZeneca, e todos os dados sobre a vacina foram publicados em revistas científicas.

O texto que circula no WhatsApp afirma que o ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, “injetou bilhões” em julho de 2020 para produção de uma vacina nacional na Fiocruz. Na realidade, no início de agosto, Bolsonaro assinou uma medida provisória para abrir crédito de R$ 1,99 bilhão para a instituição no Rio de Janeiro. “O investimento inclui a transferência de tecnologia (do imunizante Oxford/AstraZeneca)”, comunicou o Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos da Fiocruz (Bio-Manguinhos/Fiocruz). “Ter o domínio da plataforma possibilitará a sua utilização para produção futura de outras vacinas”.

O acordo entre AstraZeneca e Fiocruz foi assinado em setembro do ano passado. A parceria garantiu o acesso a 100,4 milhões de doses do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) para produção da vacina. Em cerimônia na semana passada, o diretor do Bio-Manguinhos, Maurício Zuma, disse que até o fim do mês a Fiocruz “deverá entregar cerca de 6 milhões de doses por semana, até atingir o total de 100,4 milhões previstas no contrato com a AstraZeneca” em julho.

O IFA ainda não é fabricado nacionalmente, ao contrário do que afirma a corrente de WhatsApp. De acordo com o Bio-Manguinhos/Fiocruz, a produção desse insumo deve iniciar depois de maio. “As instalações para produção nacional do IFA estão em fase de adequação, deverão ser inspecionadas pela Anvisa entre abril e maio, e após isto iniciaremos a produção do Ingrediente em nossas instalações”, informou a entidade em nota.

Também não é verdade que a vacina da Fiocruz seja a “única vacina brasileira realmente aprovada pela Anvisa”. Com a autorização definitiva expedida em 12 de março, a instituição no Rio se tornou a primeira a ter o registro de um imunizante produzido no País. No entanto, a vacina Coronavac, fabricada em São Paulo pelo Instituto Butantan, tem autorização emergencial da Anvisa. Os dois imunizantes usam tecnologia estrangeira.

 A vacina Pfizer/BioNTech também tem registro definitivo da Anvisa, mas ainda não é produzida nacionalmente. A agência de vigilância sanitária analisa ainda o pedido de autorização da Janssen.

Por fim, a corrente no WhatsApp afirma que, a partir do acordo secreto com Israel, a Fiocruz passou a ter “o Maior Parque Industrial da América Latina”, com “11 fábricas de vacinas diferentes”, chamado “PIVFI — Parque Industrial de Vacinas”. O texto cita ainda que só entra no local quem estiver autorizado pelo vice-presidente da República, Hamilton Mourão.

É mais uma mentira. Na realidade, no Complexo Tecnológico de Vacinas (CTV) da Fiocruz são produzidos 11 imunizantes diferentes. E não precisa de autorização de Mourão para entrar.

O texto analisado foi enviado por leitores ao WhatsApp do Estadão Verifica, 11 97683-7490. A corrente contém vários elementos comuns a boatos, como:

  • Linguagem alarmista, pede compartilhamento imediato.
  • Cita dados sem mencionar fontes confiáveis.
  • Sugere uma conspiração ou plano secreto.
  • Contém erros de gramática.

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