Não devemos causar pânico sobre deepfakes, diz especialista em tecnologia
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Não devemos causar pânico sobre deepfakes, diz especialista em tecnologia

Repórteres e editores se reuniram no seminário "Desinformação: antídotos e tendências", da Associação Nacional de Jornais (ANJ)

Alessandra Monnerat

18 de outubro de 2019 | 10h19

A possibilidade de fazer vídeos falsos e realistas usando inteligência artificial fez a ameaça dos deepfakes ser chamada de “infoapocalipse” e “o fim da verdade”. O tecnólogo Sam Gregory, diretor de programas da organização Witness, afirma que há motivo para pânico — mas nem tanto. “O problema da retórica do pânico é fazer as pessoas acreditarem que já existem deepfakes”, disse ele. “A maioria da desinformação hoje não é de deepfakes e sim vídeos fora de contexto”.

Apesar disso, há várias razões para começar a levar esse problema a sério, afirma Gregory. Segundo ele, as técnicas para produzir filmes falsos realistas avançaram rapidamente em poucos anos, e estão se tornando acessíveis pelo celular. Hoje, já é possível criar o rosto de um ser humano que nunca existiu, ou simular com precisão as expressões faciais e corporais de uma pessoa real. Além disso, deepfakes já são amplamente utilizados em conteúdo pornô para atingir mulheres.

Sam Gregory durante palestra promovida pela Associação Nacional de Jornais (ANJ). Foto: Divulgação/Witness

Gregory afirma que é preciso se preparar, debatendo o assunto com iniciativas de educação midiática. Além disso, é necessária a criação de ferramentas de detecção de deepfakes baratas, acessíveis e compreensíveis a jornalistas checadores. O tecnólogo também ressaltou a responsabilidade de plataformas como YouTube e WhatsApp no enfrentamento da questão.

A fala de Gregory foi no contexto do seminário “Desinformação: Antídotos e Tendências”, promovido pela Associação Nacional de Jornais (ANJ) nesta quinta-feira, 17. Especialistas em desmentir conteúdos falsos online ressaltaram a importância do jornalismo colaborativo e transparente no contexto de crise informacional.

O editor do Estadão Verifica e presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Daniel Bramatti, falou sobre a experiência no projeto colaborativo Comprova, que reúne 24 redações de todo o País para checar alegações enganosas sobre políticas públicas federais. 

Segundo ele, o trabalho de colaboração eleva a qualidade das verificações e entusiasma os jornalistas participantes — no ano passado, as mensagens do grupo de WhatsApp dos checadores acumularam acima de 300 mil palavras, mais do que qualquer livro da série Harry Potter.

A jornalista Angela Pimenta, coordenadora-executiva do Projeto Credibilidade, falou sobre a importância da transparência em matérias jornalísticas. Iniciativas como indicar com etiquetas para distinguir opinião, análise e humor, além de fornecer detalhes sobre o autor da reportagem e sobre o financiamento de cada veículo, auxiliam na formação de credibilidade.

Ela também destacou como é complexo tipificar a desinformação. O conteúdo online não se restringe a falso ou verdadeiro; publicações podem estar fora de contexto ou ter erros de apuração, por exemplo. Essa dificuldade, segundo Angela, traz grandes implicações para o contexto jurídico — a jornalista é contrária à legislação proposta sobre o tema.

A assessora-chefe do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Ana Cristina Rosa, mostrou os preparativos do tribunal para repelir os boatos sobre o processo eleitoral no ano que vem. Leia a entrevista com ela.

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