Boato no WhatsApp desinforma sobre visita de Lula a assentamento do MST em Pernambuco

Boato no WhatsApp desinforma sobre visita de Lula a assentamento do MST em Pernambuco

Mensagem alega que produtos mostrados em vídeo teriam sido comprados na Ceasa, mas não há indícios de que isso seja verdade; movimento afirma que produção é própria e que alimentos foram doados para a comunidade

Samuel Lima

12 de abril de 2022 | 12h21

Um boato no WhatsApp acusa o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) em Pernambuco de ter comprado alimentos no Centro de Abastecimento e Logística do Estado (Ceasa) para mostrá-los em uma visita do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a assentamento no município de Moreno, em agosto do ano passado. A história, no entanto, surgiu na internet sem indicação de autoria, e não apresenta indícios de que isso seja verdade. O MST informou que os alimentos exibidos na visita de Lula foram produzidos por sem terras de todo o estado de Pernambuco. Segundo levantamento da prefeitura de Moreno realizado em 2021, o assentamento Che Guevara produz 24 tipos de frutas e hortaliças. 

O conteúdo foi enviado como sugestão de checagem por leitores do blog, através do número de WhatsApp (11) 97683-7490

Em resposta ao Estadão Verifica, o MST afirmou que os alimentos registrados nas imagens do evento da visita de Lula ao assentamento Che Guevara, no dia 16 de agosto de 2021, “foram cultivados pelas mãos das agricultoras e agricultores Sem Terra e doados para ações de solidariedade desenvolvidas por meio da campanha Mãos Solidárias”. Segundo o movimento, os alimentos vieram de “várias áreas produtivas de acampamentos e assentamentos de todas as regiões do Estado”.

Uma tabela com a região de origem do cultivo de melancia, melão, laranja, limão, banana, mandioca, cará, inhame, jerimum, batata-doce, cenoura e alface foi encaminhada para a reportagem (veja abaixo). A região metropolitana, onde está localizado o assentamento visitado por Lula, contribuiu com mandioca, cenoura e alface. Há um vídeo do MST sobre o evento que mostra o ex-presidente interagindo com agricultores e carregando frutas e verduras em meio a plantações. 

Documento

O Ceasa-PE informou ao Estadão que, pelo volume intenso de mercadorias no centro de abastecimento, torna-se “quase impossível saber detalhes do que os consumidores compram e quanto compram”. O comércio envolve cerca de 70 mil pessoas por dia e 90 mil toneladas de alimentos por mês, entre 1.350 permissionários fixos e 500 sazonais. Ainda assim, o Ceasa-PE esclareceu em nota que, no período citado, “não detectou nenhuma movimentação de compra para tal fim”. Informalmente, funcionários destacaram que a compra teria de ser feita em grande quantidade e de modo diversificado, chamando a atenção na hora de abastecer o caminhão.

Produção agrícola em assentamentos

O Verifica solicitou informações à Prefeitura de Moreno, ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), ao Instituto de Terras e Reforma Agrária do Estado de Pernambuco (Iterpe) e ao Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) para checar outra alegação presente no boato, a de que o assentamento Che Guevara e outros do município seriam “improdutivos”.

A prefeitura encaminhou para a reportagem um levantamento de 2021 feito por amostragem em todos os 16 assentamentos rurais da cidade, que beneficiam um total de 925 famílias. A produção varia entre as localidades, mas há cultivo de 28 tipos de frutas e hortaliças diferentes — com destaque em quantidade de pés para abacaxi, banana, araçá, coco, limão e acerola — além do plantio de grandes culturas como cana, milho, mandioca e feijão e da pecuária.

No caso específico do assentamento Che Guevara, identificado como “Várzea do Una” no documento, o relatório da prefeitura indica a produção de coco, acerola, maracujá, graviola, manga, laranja, limão, abacate, caju, banana, jaca, goiaba, abacaxi, azeitona, pinha, mamão, seriguela, pitanga, caja, fruta pão, coentro, couve, pimentão e alface; milho, mandioca, feijão e cana; e a criação bovina, suína, caprina, ovina e de aves e peixes.

De acordo com a prefeitura, a coleta por amostragem foi realizada por meio da aplicação de questionários aos agricultores e visita a áreas de cultivo. Os dados da produção agropecuária dos assentamentos, então, são sistematizados e totalizados por tipo cultura e localidade.

O Incra respondeu por e-mail que o assentamento mostrado no vídeo possui uma área de 404,8 hectares e capacidade para 54 famílias, segundo estudo de capacidade de geração de renda. “Por conta da covid-19, não há relatório recente de produção na área”. A reportagem solicitou o dado mais recente disponível, mas o Incra disse que “a coleta de dados é feita durante a supervisão ocupacional, etapa posterior ao cadastro e seleção de famílias, estágio no qual se encontra o assentamento Che Guevara”.

O Instituto de Terras e Reforma Agrária do Estado de Pernambuco (Iterpe) relatou que o Che Guevara é administrado pelo Incra, mas que há outros assentamentos do Estado em Moreno, com produção de laranja, limão, goiaba, graviola, banana e tubérculos, entre outros alimentos. Citado no vídeo como um dos supostos organizadores da compra da qual não há registro, o governo do Estado de Pernambuco, através da Secretaria de Desenvolvimento Agrário, também negou que tenha adquirido frutas e legumes com o objetivo de produzir “documentário” com o ex-presidente Lula. 

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresenta dados gerais da produção dos municípios no Censo Agropecuário de 2017, mas informou que não diferencia os assentamentos de reforma agrária, nem traz informações específicas sobre o Che Guevara.

A titulação definitiva da área do assentamento Che Guevara, localizado nos engenhos Várzea do Una e Poço Dantas, foi obtida em 10 de março de 2017, após 18 anos de mobilização dos moradores, de acordo com uma nota da Prefeitura de Moreno.

Visita de Lula ao assentamento em Pernambuco

O boato analisado pelo Estadão Verifica e disseminado em grupos de apoiadores do presidente Jair Bolsonaro (PL) é um texto anônimo, cuja autoria é atribuída genericamente a “moradores” de Moreno, cidade que fica a cerca de 30 quilômetros de Recife, capital de Pernambuco.

A mensagem acusa o ex-presidente Lula de “postar o que não existe”, pois os assentamentos da cidade seriam “improdutivos” e as “frutas e legumes foram comprados na Ceasa para fazer esse documentário apoiado pelo governo do Estado”. Uma das versões acumulou 1,6 mil compartilhamentos, 3,4 mil curtidas e 267 comentários no Twitter. 

Apesar de a mensagem conter imagens da visita de Lula ao assentamento Che Guevara, o vídeo não sustenta a alegação feita nas legendas — o que deve servir de sinal de alerta a quem recebe esse tipo de conteúdo. A ausência de indicação de autoria e de fontes confiáveis de informação noticiando o suposto caso também tornam o material suspeito.

Por meio de pesquisas no Google, o Estadão Verifica descobriu que o evento com o petista ocorreu em 16 de agosto de 2021. A informação consta nas páginas de divulgação do MST e de Lula, além de uma notícia do Diário de Pernambuco e do site de esquerda Brasil de Fato.

O político também postou um vídeo no Facebook mostrando o mesmo momento, enquanto discursava entre as caixas de alimentos destinados para doação, e o MST publicou uma gravação no YouTube em que o ex-presidente conhece a produção da agrovila 27 no assentamento Che Guevara. Um dos trabalhadores afirma que produz mandioca, batata doce, limão, alface, coentro, cebolinha, salsa e cria galinhas.  

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