Montagem em vídeo simula ‘confissão’ de Lula de que PT seria ‘organização criminosa’
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Montagem em vídeo simula ‘confissão’ de Lula de que PT seria ‘organização criminosa’

Publicação edita, retira de contexto e coloca fora de ordem vários trechos de entrevista concedida pelo petista em 2017

Paulo Roberto Netto

12 de junho de 2019 | 18h57

O ex-presidente Lula concede entrevista na sede da superintendência da Polícia Federal, em Curitiba. Foto: Ricardo Stuckert

O vídeo de suposta “confissão” do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que o PT seria uma “organização criminosa” é uma montagem feita a partir da edição de respostas do petista a uma entrevista realizada em Minas Gerais, em 2017. A publicação circula desde o ano passado pelas redes sociais e acumula mais de 20 mil compartilhamentos.

A legenda que acompanha a montagem afirma que Lula revela a “verdade oculta” sobre o PT. O vídeo insere trechos nos quais o ex-presidente afirma ter mentido durante o governo, admite que o PT foi criado para ser uma organização criminosa e que sua sucessora, Dilma Rousseff (2011-2016), seria uma “cretina”, “malvada” e o “mal do Brasil”.

O vídeo em questão foi editado a partir de uma entrevista concedida por Lula à Rádio Teófilo Otoni, em Minas Gerais, durante a visita de sua caravana “Lula Pelo Brasil” ao município mineiro, em 25 de outubro de 2017. O jornalista que conduz a entrevista é Edson Martis e, ao lado de Lula, está o prefeito de Teófilo Otoni, Daniel Sucupira (PT).

A entrevista foi gravada ao vivo pelo perfil do próprio Lula em suas redes sociais. É possível conferir a íntegra aqui.

Organização criminosa. Lula não confessou na entrevista que o PT foi criado para ser uma organização criminosa. O trecho foi retirado da resposta do petista a uma pergunta sobre como encarava a forma com que o Supremo Tribunal Federal lidou com as acusações de pedalada fiscal contra Dilma e as denúncias feitas por Rodrigo Janot contra Michel Temer (assista a partir de 00:29:57).

Em sua resposta, Lula diz que sempre achou que houve “dois pesos e duas medidas em relação ao PT” e cita seus processos, falando especificamente sobre o apresentado pelo procurador da República Deltan Dallagnol, em setembro de 2016 por meio de um PowerPoint (00:34:16).

“Aquele PowerPoint que aquele tal de Dallagnol apresentou há dois anos atrás, um ano e meio atrás, que ‘o PT foi criado para ser uma organização criminosa e que o Lula precisava ganhar as eleições para a organização roubar’ e eu era ‘o chefe por ser o mais importante’, ele pode ter pensado isso da família dele, não da minha”, disse Lula. “Como vem um procurador dizer uma insensatez dessa, uma blasfêmia dessa?”.

Dilma. Outro trecho retirado de contexto é o que relaciona Dilma Rousseff aos adjetivos “cretina” e “malvada”. A resposta do petista, na verdade, era a uma pergunta sobre como enxergava o “ódio ao PT” (00:18:50). O petista disse que encarava como uma reação à possibilidade de ele disputar a Presidência, visto que, à época, ele se colocava como pré-candidato às eleições de 2018.

“Com a possibilidade de eu voltar a ser candidato a presidente seriam mais quatro [anos], seriam 20 [anos de governo petista]. E sempre com a possibilidade de se reeleger, e seriam 24. E eles entraram em pânico. E fizeram essa guerra cretina, maldosa, mentirosa, safada contra a Dilma”, afirmou Lula.

O presidente afirma que as acusações que motivaram o impeachment contra Dilma seriam “mentiras” transformadas em verdade “engolida pela imprensa”. “Porque a Dilma era o ‘mal do Brasil’ e o PT ‘era o mal do Brasil’. E colocaram o Temer, e nós estamos vendo o que tá acontecendo no Brasil hoje”, disse.

Mentiras. Uma das respostas editadas de Lula coloca diversas frases do petista fora de ordem para induzir o espectador a concluir que o ex-presidente mentiu durante viagens ao Brasil. No original, Lula respondia a uma pergunta sobre a linha da miséria (00:12:30) quando narrou uma história que presenciou em Itinga, no Vale do Jequitinhonha (00:15:04), e como considerava importantes as viagens que fazia após ser eleito.

“Quando um presidente, um governador, viaja o país, viaja o Brasil, ele vai conhecendo coisas que não chegam aos ouvidos deles quando ficam dentro do Palácio”, disse Lula. “Pois os puxa-sacos só levam aquilo que interessa, puxa-saco não tá a fim de falar de notícia ruim, puxa-saco às vezes mente, às vezes diz ‘olha o que tá acontecendo’ e não está acontecendo”.

Este vídeo foi sinalizado para checagem por meio da parceria entre o Estadão Verifica e o Facebook. A Agence France-Presse (AFP) também desmentiu esta montagem. Ouviu algum boato? Encaminhe para o WhatsApp do Estadão Verifica pelo número (11) 99263-7900.

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