Meme atribui a Lula falsa frase sobre conquista de eleitores com dinheiro para comprar cachaça

Meme atribui a Lula falsa frase sobre conquista de eleitores com dinheiro para comprar cachaça

Não há registro de que ex-presidente tenha feito declaração; além de atacar petista, boato estimula preconceito contra população do Norte e do Nordeste

Samuel Lima, especial para o Estadão

28 de fevereiro de 2021 | 19h29

É falso que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tenha declarado que eleitores do Norte e do Nordeste votam “eternamente” em determinados políticos e os tratam “como se fossem Deus” se estes derem “10 reais para o camarada tomar cachaça”. Não há qualquer registro na imprensa da suposta declaração do petista, que também foi negada pelo partido. Postagem com esse conteúdo teve mais de 30 mil visualizações no Facebook nos últimos dias.

É falso que Lula tenha declarado que eleitores do Norte e do Nordeste votam em quem der R$ 10 reais para ‘tomar cachaça’. Foto: Reprodução / Arte: Estadão

A peça causa desconfiança por não apontar nenhuma informação que permita descobrir onde e quando a frase supostamente foi dita por Lula. Além disso, apresenta uma série de erros de pontuação e exibe o primeiro nome do ex-presidente com grafia incorreta. O Estadão Verifica procurou as frases no Google e chegou apenas a comentários de internautas e outras postagens semelhantes.

Em agosto do ano passado, o PT divulgou nota em que negou a veracidade do conteúdo: “Nas últimas semanas, recebemos, em nossa central, diversas denúncias de uma frase falsamente atribuída a Lula. O ex-presidente não afirmou que no Brasil, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, basta dar 10 reais para o camarada tomar cachaça que ele o tratará como Deus e votará em você”.

Uma pesquisa reversa da imagem indica que o registro mais antigo da peça de desinformação é de julho de 2019, mesma época em que o Estadão Verifica desmentiu outro boato envolvendo Lula e supostas declarações sobre compra de votos por R$ 10. Era um vídeo manipulado do petista em entrevista para a Rádio Metrópole, de Salvador (BA), em 2017. 

Na gravação original, Lula defende a recuperação da economia por meio do estímulo ao consumo pela população de baixa renda. “Vamos dar ao povo a chance de resolver o seu problema. Vamos incluí-lo no mercado. Você dá R$ 10 para o pobre, ele vira consumidor. Você dá R$ 10 milhões para o rico, ele deixa na conta bancária”, disse. O vídeo manipulado exclui as primeiras duas frases e substitui por outro trecho da entrevista, quando o ex-presidente fala em ser “candidato (a presidente nas eleições de 2018) para ganhar, se Deus quiser, com a ajuda do povo baiano”.

A agência de checagem Aos Fatos também classificou essas postagens como falsas.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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