Médico distorce dados sobre efeitos colaterais para desacreditar estudos da CoronaVac
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Médico distorce dados sobre efeitos colaterais para desacreditar estudos da CoronaVac

Pediatra Anthony Wong tira do contexto índice de efeitos adversos brandos do imunizante pesquisado pelo Instituto Butantã; especialista explica que os resultados observados não indicam anormalidade

Victor Pinheiro, especial para o Estadão

17 de novembro de 2020 | 14h49

Um vídeo que circula no WhatsApp, de autoria do pediatra e toxicologista Anthony Wong, dissemina informações enganosas sobre potenciais vacinas contra a covid-19. O médico tira do contexto o percentual de efeitos adversos do imunizante CoronaVac, desenvolvido pela empresa chinesa Sinovac Life Science e testado no Brasil em parceria com o Instituto Butantã. 

Leitores enviaram o conteúdo para checagem pelo WhatsApp do Estadão Verifica, (11) 97683-7490.

Doses da CoronaVac. Foto: Foto: Nicolas Bock

Em setembro, o Governo de São Paulo informou que 5,36% dos 50 mil voluntários de estudos organizados na China desenvolveram reações adversas brandas à vacina, como dor no local da aplicação, febre moderada e perda de apetite. Wong cita esse porcentual, mas não explica quais foram os efeitos adversos e insinua que o imunizante não é seguro. 

Ao Estadão Verifica, o presidente da Associação Brasileira de Virologia, Fernando Spilki, afirmou que índices semelhantes são observados em imunizantes voltados a outras doenças. “A vacina da febre amarela, por exemplo, tem índices de reações moderadas nesta mesma faixa de 5%”, afirmou o virologista. 

Ele ressalta que o importante é avaliar a magnitude dos efeitos adversos. Até mesmo percentuais maiores seriam aceitáveis, desde que as reações ainda se mantivessem brandas. “O que foi publicado em revista científica particularmente sobre essa vacina [CoronaVac] são efeitos adversos brandos nas primeiras 48 ou 72 horas”, pontua Spilki.

Comparação com outras vacinas

Wong também afirma que não há resultados de segurança sobre outros potenciais imunizantes contra a covid-19. O médico contesta um discurso do presidente do Instituto Butantã, Dimas Covas, que apontou, durante coletiva de imprensa em outubro, que a CoronaVac seria o imunizante mais seguro dentre os produtos pesquisados, de acordo com resultados de ensaios clínicos. 

Covas comparou dados preliminares da terceira etapa de experimentos da vacina da Sinovac no Brasil com os resultados das primeiras e segundas etapas de estudos de imunizantes concorrentes, que contam com menos participantes. Segundo o Governo de São Paulo, dos 9 mil voluntários que receberam as doses da CoronaVac, 35% apresentaram efeitos colaterais leves e não houve relatos de eventos adversos graves. 

As organizações à frente de outras candidatas à vacina do novo coronavírus, de fato, não divulgaram dados sobre efeitos colaterais na terceira fase, mas publicaram resultados de segurança de seus produtos nas etapas anteriores. Dados sobre a vacina da Universidade de Oxford e da farmacêutica AstraZeneca foram descritos na revista Lancet. Já as empresas Pfizer e a BioNtech relataram seus testes clínicos na Nature.   

Para Spilki, a comparação de Covas faz sentido diante da falta de informações disponíveis. Ele explica que com uma população maior, os resultados das demais vacinas podem registrar mudanças nos índices de eventos adversos. O especialista aponta que os resultados apresentados até agora indicam uma tendência de similaridade nos percentuais de efeitos colaterais entre as diferentes candidatas. 

Testes em idosos e crianças

Wong também erra ao afirmar que a CoronaVac ainda não foi testada em idosos. Em setembro, a Sinovac anunciou que resultados preliminares das fases um e dois não registraram efeitos colaterais graves em 421 voluntários com mais de 60 anos, reportou a agência de notícias Reuters, em setembro. A companhia também anunciou que começaria experimentos com 522 crianças de 3 a 17 anos. 

No Brasil, o Instituto Butantã diz estar perto de anunciar estudos nacionais da CoronaVac com idosos e crianças. O protocolo da terceira etapa de ensaios clínicos no país, divulgado em uma revista internacional, prevê a imunização de mais de 1,2 mil voluntários acima de 60 anos. 

Documento

No vídeo, Wong aponta ainda que até um terço dos voluntários da pesquisa não receberam a segunda dose da vacina. Por assessoria, o Instituto Butantã afirmou que a concepção é equivocada e que a quantidade de participantes que receberam a segunda dose obedece ao intervalo de 14 dias estabelecido entre as duas aplicações. 

Dos pouco mais de 13 mil voluntários previstos no estudo, mais de 10 mil foram recrutados e já receberam a primeira dose do vírus inativado. O protocolo dos ensaios clínicos da CoronaVac não determina a aplicação de uma terceira dose. Em entrevista à rádio Jovem Pan, em agosto, Dimas Covas afirmou que a necessidade de um reforço anual ainda era investigada. 

O Estadão Verifica tentou entrar em contato com Anthony Wong, mas não recebeu resposta até a publicação desta checagem.

O Projeto Comprova já checou informações enganosas sobre a vacina disseminadas pelo pediatra.

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