Máxima sobre televisão “a serviço da imbecilidade humana” é do Barão de Itararé

Máxima sobre televisão “a serviço da imbecilidade humana” é do Barão de Itararé

Frasista dos mais conhecidos do país, jornalista gaúcho Aparício Torelly foi contemporâneo do surgimento da TV e tinha certa "birra" com ela

Clarissa Pacheco

07 de fevereiro de 2022 | 09h51

Uma frase que circula nas redes sociais e que diz que “a televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana” é mesmo do jornalista, humorista e escritor gaúcho Aparício Fernando de Brinkerhoff Torelly (1895-1971), conhecido pelo pseudônimo de Barão de Itararé. Aparício, que também respondia pelo codinome Aporelly, criou para si próprio um falso título de nobreza como pseudônimo em 1930. Antes, ele usava o nome de Duque de Itararé, mas rebaixou o título de nobreza como “prova de modéstia”.

O Barão tinha forte inclinação satírica e usava o humor em comentários políticos nos jornais por onde passou – O Globo e A Manhã – e também no semanário de humor que criou, A Manha, que circulou entre 1926 e 1964. A frase sobre a televisão é mais uma das que aparecem em coletâneas de máximas do Barão de Itararé, publicadas por outros jornalistas e por biógrafos do personagem.

Em 1985, a coletânea Máximas e Mínimas do Barão de Itararé, organizada por Afonso Félix de Sousa, cita esta mesma frase numa sessão dedicada a máximas sobre “Transformações Sociais”. Há outras na mesma página: “Mulher moderna calça as botas e bota as calças”; “Com o progresso, um ignorante pode somar maquinalmente”.

Página da coletânea Máximas e Mínimas do Barão de Itararé, organizada por Afonso Félix de Sousa e publicada em 1985 pela Editora Record.

Outra coletânea de frases foi lançada em 1984 por Ernani Ssó, intitulada Barão de Itararé: as aventuras e travessuras de um pioneiro do humor e da imprensa alternativa. A máxima ainda aparece na

Documento

intitulada “Elementos para uma leitura da obra de Aparício Torelly, o Barão de Itararé: humor, projeto & design gráfico”, defendida em 2004 na USP por José Mendes André.

Ele classifica o Barão como o maior frasista nacional de todos os tempos. “Até hoje seus ditos são propalados com frequência na criação humorística e publicitária, assim como povoa o discurso coloquial, sem que sua autoria seja reconhecida ou lembrada”, diz o texto.

Algumas destas frases foram destacadas em 2004 pelo também jornalista Mouzar Benedito, autor do livro Barão de Itararé – Herói de Três Séculos. A frase sobre a televisão está lá, assim como outras bem conhecidas dos brasileiros: “O uísque é uma cachaça metida a besta”; “O que se leva desta vida é a vida que a gente leva”; e “Pobre, quando mete a mão no bolso, só tira os cinco dedos”.

Crítico da televisão

Em nenhuma das publicações há uma referência sobre a data em que a frase foi dita ou publicada, nem seu contexto. Segundo Mouzar Benedito, as frases publicadas em seu livro foram coletadas de várias fontes: os rodapés dos Almanhaques – coletâneas de textos do Barão do Itararé publicados em seu semanário A Manha, daí o trocadilho Almanhaque, em vez de Almanaque – de 1949 e do primeiro e segundo semestres de 1955, e de outras publicações sobre o Barão, já citadas acima.

Sobre a televisão, especificamente, a frase não poderia estar no Almanhaque de 1949, já que a televisão é da década de 1950. “Mas acho que o mais provável é que tenha tirado do livro Barão de Itararé: o humorista da democracia, de Leandro Konder, publicado pela Brasiliense em 2002. A família do Leandro Konder era muito amiga do Barão e por isso acredito que peguei no livro dele, Konder, que era fonte primária do Barão. O Barão era um frasista o tempo todo e de vez em quando juntava várias frases”, explica Mouzar.

Sobre o contexto, há uma pista: “Ele tinha uma birra com a televisão, assim como outro humorista que poderia ser o autor dessa máxima, Stanislaw Ponte Preta”, afirma Mouzar. No livro publicado por Mouzar em 2004 pela Editora Expressão Popular, há um pouco mais de contexto: “Gostava da ciência, mas lamentava o uso que faziam dela. Por exemplo: o avião, que Santos Dumont inventou ‘para mandar cartões postais para as namoradas com mais rapidez’, acabou sendo usado na guerra; e a televisão, “maior maravilha da ciência”, estava “a serviço da imbecilidade humana”.


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