É falso que cacique entrevistado pela Globo tenha aparecido em outros telejornais com nome diferente

É falso que cacique entrevistado pela Globo tenha aparecido em outros telejornais com nome diferente

Postagens no Facebook afirmam que líder indígena Marcos Xukuru se chamaria Henrique e teria sido ouvido em várias reportagens diferentes, mas isso não é verdade

Gabriela Meireles, especial para o Estadão

04 de julho de 2022 | 13h40

São falsas postagens no Facebook que afirmam que o cacique Marcos Xukuru, entrevistado pela TV Globo durante o velório do indigenista Bruno Araújo Pereira, já havia aparecido em reportagens de diferentes emissoras de televisão se apresentando como Henrique. Na realidade, Henrique Souza Filho é um morador de Recife (PE) que virou meme por aparecer em diversas matérias de telejornais locais. Marcos é líder do Povo Xukuru, que habita a Serra Ororubá, em Pesqueira (PE).

As postagens em questão comparam uma foto em que Marcos concede uma entrevista à Globo sobre a morte de Bruno Pereira com trechos de depoimentos dados por Henrique a diferentes telejornais. Os posts dão a entender que o cacique estaria se passando por indígena. No Instagram, o líder do Povo Xukuru divulgou uma nota de repúdio sobre as publicações. “Tem aparecido na internet alguns comentários desrespeitosos sobre a nossa ‘aparência’ enquanto indígenas”, escreveu. “Isso é racismo e só deixa evidente a mentalidade de uma parte da população que não conhece a nossa ancestralidade, nossa cultura e a pluralidade do nosso povo”.

No Instagram, Henrique se apresenta como o “popular mais entrevistado do Brasil”. Ele informa ter aparecido em reportagens de telejornais da TV Globo Recife, TV Tribuna — Band, TV Guararapes — Record, TV Jornal — SBT, TV Nova Nordeste e Estação TV — Rede Brasil. No perfil, é possível acessar uma coleção de imagens das aparições nas emissoras.

O cacique Marcos Xukuru concorreu à prefeitura de Pesqueira em 2020 pelo partido Republicanos. Ele foi o mais votado, mas foi impedido de assumir o cargo por ter sido condenado em segunda instância por participação em um incêndio. O caso ainda será julgado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Aos Fatos, UOL e Boatos.Org também checaram as postagens analisadas aqui.

Estereótipos indígenas

Nas postagens que comparavam o cacique Marcos ao entrevistado Henrique, diferentes comentários afirmavam que o grupo Xukuru que apareceu na reportagem da Globo não tinha “aparência” indígena. A pesquisadora do Observatório da Temática Indígena na América Latina (Obial-Unila) Aline Corrêa explica que a identificação como indígena não depende de ter certas características físicas. “Ser ou não indígena não é uma questão de ‘parecer’ com um indígena”, afirmou. “É uma questão de identificação e pertencimento a um coletivo, que supera quaisquer vestimentas, quaisquer tipos de pintura”.

A pesquisadora ressalta que há diversidade de povos indígenas presentes no Brasil e em todo o mundo, o que explica a multiplicidade de fenótipos. A professora e coordenadora do Comitê Mineiro de Apoio às Causas Indígenas, Avelin Buniacá Kambiwá, afirma que o estereótipo que se tem da aparência indígena foi construído ainda no período colonial do Brasil. “Seria aquela pessoa vermelha, com o cabelo liso, cortado em cuia, todo enfeitado de pena, todo pintado, forte, cheio de saúde, na mata, nu. Ali eles (portugueses no século XVI) sepultaram todas as outras possibilidades de ser indígena. Ser indígena é uma diversidade gigante”, disse. “Dentro de um mesmo povo, você vai ter diversidade”.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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