Postagem edita fala de Lula para parecer que petista reconheceu que Bolsonaro terminou obras da Transposição

Postagem edita fala de Lula para parecer que petista reconheceu que Bolsonaro terminou obras da Transposição

Em discurso original, ex-presidente disse que atual gestão faz 'propaganda enganosa' sobre empreendimento no Rio São Francisco

Milka Moura, especial para o Estadão

01 de julho de 2022 | 13h18

É enganosa postagem no Facebook que afirma que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reconheceu que o presidente Jair Bolsonaro (PL) terminou as obras da Transposição do Rio São Francisco. Na realidade, o post mostra apenas um trecho de um discurso de Lula. Na fala original, o petista critica a atual gestão e afirma que a maior parte do empreendimento foi concluída durante os governos do Partido dos Trabalhadores. 

O trecho compartilhado no Facebook foi tirado de um discurso durante o XV Congresso Constituinte da Autorreforma do PSB, no dia 28 de abril deste ano. Durante a fala, o ex-presidente e candidato à reeleição afirmou que Bolsonaro faz propaganda enganosa ao dizer que é o responsável pelas obras da Transposição.

Veja a fala completa:

“Fizemos um canal de quase 640 km, que era para estar pronto logo depois que eu deixei o governo, e ele ficou pronto agora. Nosso governo fez 88% das obras, no governo Temer foi feito 7% das obras. E esse cidadão que não preside esse País, quem preside são os milicianos que vivem em volta dele, ele terminou apenas 5% da obra e está fazendo propaganda na televisão como se fosse ele que tivesse levado a água do São Francisco para a Paraíba, para o Rio Grande do Norte, para o Ceará, para o Pernambuco e para outros Estados que precisavam dessa água”. 

O histórico da Transposição do São Francisco

As obras da Transposição do Rio São Francisco têm como objetivo garantir segurança hídrica para os municípios que perdem volume de água durante as temporadas de seca.  O trabalho consiste na construção de vias para as águas do São Francisco a outras bacias. Segundo dados disponíveis no site do Governo Federal, o empreendimento beneficia 12 milhões de pessoas em 390 municípios dos estados de Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba. 

A obra foi planejada em 2007, ano do segundo mandato de Lula, e teve início no ano seguinte. À época, a licitação da obra previa 699 km de extensão — considerando 477 km dos eixos Norte e Leste, nos ramais do Agreste (71 km), Apodi (115 km) e Salgado (36 km). A conclusão era prevista para 2012. O projeto sofreu com atrasos e, em 2013, teve extensão reduzida para 477 km.  

Posteriormente, a conclusão foi prorrogada para 2015. Neste período, foi aberta a primeira estação de bombeamento da obra, no eixo Norte, pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Em 2017, o então presidente Michel Temer (MDB) inaugurou o eixo Leste

Em 2020, sob a gestão de Bolsonaro, o Ministério de Desenvolvimento Regional (MDR) retomou o projeto original, ampliando a obra para 699 km. Também inaugurou um dos trechos finais do eixo Norte. Segundo texto no site do Governo Federal, de julho deste ano, as estruturas responsáveis pela passagem de água do eixo Norte até o Reservatório Caiçara estão finalizadas e resta apenas a recuperação de uma tubulação em Atalho e outros serviços complementares, que não comprometem a pré-operação.

No ano de 2021, foi entregue a execução do Ramal do Agreste. Outro Ramal, o do Apodi, teve início no mesmo ano. Já o Ramal do Salgado teve licitação aberta em 2022. 

Quem fez o quê?

Opositores, Lula e Bolsonaro divergem sobre a porcentagem de obras realizadas até o momento por cada gestão. Um relatório de 2016 do Ministério da Integração Nacional aponta que o eixo Norte contava com 87,7% das obras finalizadas e o eixo Leste, com 84,4%. Já em 2017, outro documento aponta que os segmentos do eixo Norte já alcançavam 92,5% de conclusão das obras. 

Em contato anterior realizado pelo Comprova – coalizão de veículos de imprensa do qual o Estadão Verifica faz parte –, o MDR disse que os percentuais de conclusão dos governos anteriores se baseavam em modelos diferentes e não levavam em conta, por exemplo, a retomada do projeto inicial da Transposição em 2020, o que faz com que os dados do governo atual sejam diferentes dos registrados por gestões passadas. 

Qual foi o valor investido por cada governo?

Ainda segundo levantamento do Comprova, o valor inicial da obra era de R$ 4,5 bilhões. Com atrasos e dificuldades de execução, o montante passou para R$14,6 bilhões.  Confira o valor pago durante os anos:

  • 2008 a 2010 – R$ 2,1 bilhões 
  • 2011 a 2015 – R$ 6,1 bilhões
  • 2016 a 2018 – R$ 2,8 bilhões
  • 2019 a 2021 – R$ 3,4 bilhões

Outro lado

A autora da publicação é Coronel Fernanda, pré-candidata a deputada federal pelo PL. De Mato Grosso do Sul, ela foi candidata ao Senado em 2020 e recebeu 20,49% dos votos. Ela foi procurada por e-mail, mas não respondeu.


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