Vídeo com Lula e Kalil em Minas Gerais é editado para incluir gritos de ‘ladrão’

Vídeo com Lula e Kalil em Minas Gerais é editado para incluir gritos de ‘ladrão’

Gravação original foi feita por ex-vereador petista, que teve expressão facial manipulada com aplicativo de edição de vídeo

Luciana Marschall

04 de agosto de 2022 | 15h41

É falso o vídeo postado no Facebook que mostra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PSD) – candidatos à Presidência e ao Governo de Minas Gerais, respectivamente – caminhando em uma plataforma enquanto um coro repete a palavra “ladrão”. O conteúdo apresenta, ainda, uma montagem com a foto de Lula atrás de grades e a legenda “o ladrão chegou!”. No vídeo original, contudo, o som verdadeiro é um jingle que associa Kalil a Lula e que foi lançado pelo ex-prefeito. 

As imagens foram gravadas em Uberlândia (MG), no dia 15 de junho, quando Kalil recebeu Lula para oficializar o mútuo apoio nas eleições 2022. A data ficou marcada pelo lançamento com drone de um líquido malcheiroso sobre apoiadores de Lula durante o evento.  

Autor do vídeo nega manifestação contra Lula

Em um momento da gravação, o autor do vídeo vira a câmera para si. É um homem usando um boné com a inscrição “Gil Carteiro” — nome de um ex-vereador de Pratas (MG) e pré-candidato a deputado estadual pelo PT. O vídeo foi postado inicialmente na conta pessoal dele do TikTok, no dia seguinte ao evento, 16 de junho, alcançando mais de 500 mil visualizações até esta semana. Na gravação real, não há gritos de “ladrão”. Além do jingle, é possível ouvir palmas de pessoas que estavam presentes.

Ao gravar o próprio rosto, Gil Carteiro não diz nada. Já no vídeo manipulado, o ex-vereador parece dizer “o ladrão chegou”. Na realidade, a expressão facial do petista foi modificada por um aplicativo que permite sobrepor um rosto em movimento a outro. O vídeo adulterado apresenta uma marca d’água do app.

A diferença entre a gravação original e a manipulada pode ser percebida nos dois frames abaixo, do mesmo momento dos vídeos. O primeiro é a imagem modificada e o segundo é a original. 

A reportagem conversou com Gil Carteiro via WhastApp e ele confirmou ser o autor do vídeo original. Ele acrescentou que o vídeo que circula no Facebook é uma montagem. “Já estava acabando o evento e o (ex) presidente Lula e Kalil estavam se despedindo do público com a bandeira do Brasil nas mãos”, disse. Ele acrescentou que “todos vibravam e gritavam em apoio ao Lula, então eu gravei e logo já joguei no TikTok”.

Gil afirmou não ter ocorrido outra manifestação contrária ao petista além do lançamento de um líquido malcheiroso com drone. O ex-vereador também enviou uma selfie dele com o ex-presidente, foi tirada na mesma data e na qual ambos estão vestindo as mesmas roupas com as quais aparecem no vídeo:

Ex-presidente Lula e ex-vereador Gil Carteiro. Foto: Gil Carteiro/Arquivo Pessoal

A equipe de Kalil também confirmou que o vídeo foi gravado em ato político com os dois candidatos em Uberlândia. Na ocasião, Kalil e Lula, os candidatos a vice-governador em Minas, André Quintão (PT), o senador Alexandre Silveira (PDS), candidato à reeleição, além de correligionários, foram recebidos de forma calorosa pelos apoiadores que lotaram o local do evento, com manifestações de apoio”, afirmou a assessoria do ex-prefeito.

A assessoria de comunicação do PT foi procurada, mas não respondeu até a publicação desta checagem.

O conteúdo falso teve 3,7 mil curtidas, 2 mil comentários e 3,1 mil compartilhamentos no Facebook.

O coro gritando “ladrão” que foi inserido na imagem vem sendo utilizado frequentemente em peças desinformativas contra Lula analisadas pelo Estadão Verifica (1, 2)O mesmo vídeo – em diferentes contextos – foi verificado por outras iniciativas de checagem e todas o classificaram como falso (Reuters, Lupa, Boatos.org e Comprova). 


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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