Para exaltar Bolsonaro, lista no WhatsApp cita obras inexistentes e exagera investimentos da gestão

Para exaltar Bolsonaro, lista no WhatsApp cita obras inexistentes e exagera investimentos da gestão

Presidente não construiu 400 mil casas no Espírito Santo, nem foi o primeiro a ver exploração de gás natural na Amazônia

Clarissa Pacheco e Pedro Prata

10 de março de 2022 | 16h37

É falso que o governo federal tenha construído 400 mil casas em São Mateus, no Espírito Santo – na verdade, foram 434 imóveis. Tampouco é verdade que a gestão de Jair Bolsonaro seja responsável pela perfuração de poços de gás na Amazônia – a Petrobras já explora a commodity na região há mais de 30 anos.

Essas e outras alegações enganosas são feitas em uma lista que circula no WhatsApp com ao menos 54 supostos feitos do presidente e o título “Por que Bolsonaro é mito”. Leitores solicitaram a checagem deste conteúdo pelo WhatsApp do Estadão Verifica, 11 97683-7490.

Confira a seguir a apuração da reportagem.

Parte de investimentos e obras atribuídos ao presidente não foram feitos ou não são de exclusividade de sua gestão. Foto: Reprodução

O que diz a lista: que o governo federal entregou mais de 400 mil casas em São Mateus, no Espírito Santo.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. Foram 434 moradias entregues, e não 400 mil casas, o que seria muito superior ao total da população estimada do município, de 134.629 habitantes, segundo o IBGE.

 

O que diz a lista: que o presidente Jair Bolsonaro seria responsável pela perfuração de poços de gás natural na Amazônia.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. O post é vago, por isso não é possível saber com clareza de qual obra se trata. Ao procurar por notícias de perfuração de poços para exploração de gás na Amazônia, foi possível encontrar notícias sobre a inauguração de uma unidade de tratamento do gás explorado no campo de Azulão, no Amazonas, em setembro de 2021.

Ainda no governo de Michel Temer, em 2017, a empresa privada Eneva comprou da Petrobras o direito de explorar o campo de Azulão por US$ 54,5 milhões, informou o portal g1. Já o portal Poder360 disse que a empresa conseguiu empréstimo de R$ 1 bilhão do Banco da Amazônia para a empreitada, em 2020. O governo federal é o maior acionista do banco.

A exploração de gás na Amazônia não é novidade do governo Bolsonaro. Em janeiro, o Amazonas era o terceiro maior produtor da commodity no País, segundo o jornal Folha de São Paulo, principalmente por causa da exploração da Petrobras no complexo de Urucu. Ao pesquisar mais informações sobre o assunto, é possível encontrar uma reportagem da Agência Brasil, de 2016, sobre os 30 anos de atividade do complexo. Somente no mês de outubro daquele ano, durante a gestão de Michel Temer, o complexo produziu 13,9 milhões de metros cúbicos de gás natural.

 

O que diz a lista:  que o governo Bolsonaro lançou três satélites para monitoramento em tempo integral da Amazônia.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. O texto se refere à Missão Amazonia, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), que prevê três satélites – Amazonia 1, Amazonia-1B e Amazonia-2 – para monitoramento do desmatamento. O Amazonia 1 é o primeiro satélite de observação da Terra completamente projetado, integrado, testado e operado pelo Brasil, informa o INPE. Ele foi lançado em 28 de fevereiro de 2021, após 12 anos de desenvolvimento. Portanto, começou a ser projetado ainda no governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Além do Amazonia 1, o Brasil também possui o CBERS 4 e o CBERS-04A, desenvolvidos em parceria com a China. O primeiro foi lançado em 2014 e o segundo, 2019. O INPE informou, por meio de nota, que os satélites são independentes, mas fazem o monitoramento de forma contínua. Eles permitem imagens de uma mesma região com intervalo de dois ou três dias.

Ainda segundo o INPE, o monitoramento de 24h só é possível com satélites geoestacionários. Isso é, satélites que completam a rotação em torno da Terra em 24h. Por ser o mesmo período de um dia, um observador em solo pode vê-los como um ponto fixo no céu. Este não é o caso dos satélites do INPE, cuja órbita é heliossíncrona.

 

O que diz a lista: que o governo Bolsonaro é responsável pela construção de um complexo de energia solar na Paraíba.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. O post é vago, por isso não é possível saber com clareza de qual obra se trata. Ao procurar por notícias de complexos de energia solar no Estado, foi possível encontrar notícias sobre os complexos Santa Luzia e Coremas, ambos do grupo privado Rio Alto Energias Renováveis.

O complexo de Santa Luzia começou a ser construído em julho de 2021 e tem previsão de começar a ser entregue em janeiro de 2023. Após finalizado, poderá suprir a energia para 1,1 milhão de casas populares. O investimento é de R$ 4,1 bilhões. 

Já o Complexo de Coremas possui algumas usinas prontas e outras em construção. Até junho de 2021, o grupo já havia investido R$ 808 milhões. Este empreendimento recebeu incentivo fiscal do governo estadual.

O presidente Jair Bolsonaro e o ministro Bento Albuquerque (Minas e Energia) estiveram na cerimônia de lançamento do Complexo de Coremas. Uma nota do ministério sobre o evento não indicava participação do governo federal na obra.

 

O que diz a lista: que na gestão Bolsonaro o País teve a menor taxa de juros da história.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é verdadeiro, mas está desatualizado. Em agosto de 2020, o Banco Central anunciou a nona queda consecutiva da Taxa Selic, a taxa básica de juros. Naquele mês, o índice chegou a 2%, o menor já registrado na série histórica. Naquela época, o crescimento enfrentava dificuldades por conta da pandemia de covid-19 e era preciso estimular a economia. Além disso, os cortes foram permitidos por causa da inflação controlada.

Este cenário já não é mais o mesmo. Em fevereiro de 2022, o BC anunciou o oitavo aumento consecutivo na taxa básica de juros, de 1,50 ponto percentual, levando-a para 10,75%. Pela primeira vez em 4 anos e meio, a Taxa Selic voltou para o patamar de dois dígitos.  Em sua decisão, o Banco Central justificou que o aumento dos juros é necessário diante do agravamento da inflação.

 

O que diz a lista: que houve aumento no Bolsa Atleta de R$ 1 mil para R$ 8 mil.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. O Bolsa Atleta foi criado em 2005 e oferece incentivos diretos aos atletas com recursos do Ministério da Cidadania. Os valores pagos vão de R$ 370 a R$ 15 mil, sendo este valor mais alto destinado aos atletas da Categoria Pódio, que têm chances de medalhas em Jogos Olímpicos e Paralímpicos.

Já o programa que hoje tem teto de R$ 8 mil é o bolsa-auxílio, pago com recursos da Lei de Incentivo ao Esporte. Em 2019, no primeiro ano do governo Bolsonaro, o teto do pagamento da bolsa-auxílio, que era de R$ 5 mil, caiu para R$ 2,4 mil mensais por atleta. Dois meses depois, o governo proibiu o pagamento da bolsa-auxílio com recursos da Lei de Incentivo ao Esporte, medida que durou poucos dias.

Em janeiro de 2020, o teto saiu de R$ 2,4 mil e caiu para R$ 1 mil. Já em junho daquele ano, o governo mudou de posição e aumentou o teto para R$ 8 mil, exigindo contudo que os atletas não usassem o dinheiro como quisessem, como se fosse um salário – eles passaram a ter que comprovar que gastavam o dinheiro com itens relacionados à prática esportiva.

 

O que diz a lista: que o governo de Jair Bolsonaro criou o programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE).

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. O programa foi criado em 1995, e não no governo Bolsonaro, como mostra publicação no site do governo federal.

 

O que diz a lista: que o governo federal está desenvolvendo uma tecnologia 5G 100% brasileira.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. Pesquisadores brasileiros realmente participam de um projeto que desenvolve “sistemas de conexão, softwares e hardwares para o novo padrão de telefonia e internet móvel”, mas a ação não é direta do governo federal, e sim de um consórcio formado pelo Inatel, uma instituição privada, junto com o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPQD), as universidades de São Paulo (USP), Federal do Ceará (UFC) e de Brasília (UnB), a Ericsson do Brasil e as universidades europeias Carlos III de Madri, na Espanha, de Tecnologia de Dresden, na Alemanha, e de Oulu, na Finlândia, além da empresa espanhola Telefónica I+D.

 

O que diz a lista: que a gestão Bolsonaro criou o programa Água Doce.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. O programa não foi criado no governo Bolsonaro, e sim no governo Lula, em 2003. Ele foi concebido naquele ano e aplicado a partir de 2004 em parceria com Estados.

Documento

 

O que diz a lista: que Bolsonaro autorizou a venda direta de combustíveis da refinaria para os postos de gasolina.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. Em agosto de 2021, o presidente assinou uma Medida Provisória que autorizava a venda direta de etanol das usinas para os postos de combustíveis. Em janeiro de 2022, ele vetou a venda direta em lei, mas disse que o veto não impedia a operação.

 

O que diz a lista: O Brasil está batendo recordes de arrecadação em 2020 e 2021, sem aumentar impostos.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. Houve recorde na arrecadação em 2021, mas o recorde anterior não foi de 2020 e sim de 2014. Além disso, a proposta de Reforma Tributária apresentada pelo governo federal resulta em aumento dos impostos, segundo avaliaram deputados e senadores.

 

O que diz a lista: Bolsonaro promoveu a Primeira Feira Brasileira de Grafeno e Materiais Avançados

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. Bolsonaro participou da abertura da Feira, em julho de 2021, mas ela não foi promovida pelo governo federal, e sim pela Universidade de Caxias do Sul, que é uma Instituição Comunitária de Educação Superior (ICES), cuja principal mantenedora é a Fundação Universidade de Caxias do Sul, entidade jurídica de Direito Privado.

 

O que diz a lista: que o programa Forças no Esporte teve recorde nas Olimpíadas.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. O Ministério da Defesa tem dois projetos voltados para o esporte, sendo que o Forças no Esporte atende crianças, adolescentes e jovens de 6 a 18 anos, em situação de vulnerabilidade social, promovendo “a valorização pessoal, a redução dos riscos sociais, o fortalecimento da cidadania, a inclusão e a integração social de seus beneficiários, por meio do acesso à prática de atividades esportivas, atividades paradesportivas e atividades físicas saudáveis”.

O programa que apoia atletas militares nas Olimpíadas, também do Ministério da Defesa, é o Atletas de Alto Rendimento, que foi criado em 2008 pelo então Ministério do Esporte em parceria com as Forças Armadas. O programa incorpora atletas de alto rendimento às Forças Armadas por meio de um alistamento voluntário. “Os atletas têm à disposição todos os benefícios da carreira, como soldo, 13º salário, férias, direito à assistência médica, incluindo nutricionista e fisioterapeuta, além de disporem de todas as instalações esportivas militares adequadas para treinamento nos centros da Marinha (Centro de Educação Física Almirante Adalberto Nunes – CEFAN), do Exército (Centro de Capacitação Física do Exército e Complexo Esportivo de Deodoro) e da Aeronáutica (Universidade da Força Aérea – UNIFA)”, explica o Ministério da Defesa.

Em 2016, os atletas militares receberam 13 das 19 medalhas olímpicas brasileiras nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Em 2021, em Tóquio, o Brasil bateu recorde de medalhas, mas não houve recorde entre os militares, que receberam 7 das 21 medalhas do Brasil (36,84%).

 

O que diz a lista: que no governo Bolsonaro foi feito o maior investimento de infraestrutura do Rio Grande do Norte, no valor de R$ 1 bilhão, além de R$ 300 milhões para segurança hídrica nos 24 municípios do Seridó e R$ 500 milhões na construção de duas adutoras no Agreste e no Seridó

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. Os projetos de infraestrutura no Rio Grande do Norte que somam R$ 1 bilhão foram anunciados em 2021 pelo governo do Estado e pela prefeitura de Natal. Os recursos têm origens diversas, incluindo recursos próprios, empréstimos, emendas parlamentares e também parcerias com o governo federal, que não é o financiador de todo o valor, como afirma a lista.

Já os recursos para segurança hídrica em 24 municípios do Seridó somam R$ 4,8 milhões do governo federal, e não R$ 300 milhões ou R$ 500 milhões, como diz o texto. Todo o Projeto Seridó, executado pela Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), foi orçado em R$ 280,6 milhões.

 

O que diz a lista: que “chefões do crime” foram transferidos de presídios em menos de noventa dias de governo.

O Estadão Verifica concluiu que: é enganoso. Em fevereiro de 2019, 22 integrantes do PCC, incluindo o chefe, Marcola, foram transferidos de São Paulo para presídios no Distrito Federal e no Rio Grande do Norte. Isto aconteceu depois que o governo de São Paulo descobriu um plano de fuga para os líderes do PCC e ameaças de morte ao promotor que combate a facção no interior do estado.

Apesar de a operação ter sido feita no início do governo Bolsonaro e de ter contato com o governo federal, o pedido de transferência tinha sido feito pelo Ministério Público de São Paulo em novembro de 2018, ou seja, ainda na gestão de Michel Temer.

Outros seis integrantes da cúpula do PCC já tinham sido transferidos para presídios federais no âmbito da Operação Echelon em novembro de 2018.

 

O que diz a lista: que o governo Bolsonaro é responsável pela construção da estação de aceleração de partículas SIRIUS.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. A obra foi inaugurada em 21 de outubro de 2020, durante a gestão Bolsonaro. Mas, a assinatura do contrato com a construtora e o lançamento das obras foram feitos ainda em 2014, no governo de Dilma Rousseff (PT). As obras civis foram concluídas em 2018, na gestão de Michel Temer. A partir de então, começou o processo de instalação dos equipamentos.

De acordo com o Portal da Transparência, os maiores investimentos foram feitos na gestão Temer. O Projeto Comprova e o Estadão Verifica já checaram este conteúdo, confira aqui

 

O que diz a lista: que o governo federal está em “processo acelerado” de construção da “Ferrovia do Sol”.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. Não estão em construção e nem em vias de início as obras pelo governo federal de uma ferrovia que ligaria todas as capitais do Nordeste. O projeto, de 2013, foi chamado de “Ferrovia do Sol” em um tuíte do senador Roberto Rocha (PSDB-MA), entusiasta da ideia.

Como mostrou o Projeto Comprova, a Sudene e o Ministério do Desenvolvimento Regional informaram que desejam retomar os estudos de viabilidade do projeto, mas não há previsão para que isso aconteça e, portanto, também não há previsão para início das obras. Confira a checagem completa aqui.

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