Limite de encaminhamento no WhatsApp não consegue frear desinformação na plataforma, aponta pesquisa
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Limite de encaminhamento no WhatsApp não consegue frear desinformação na plataforma, aponta pesquisa

Estudo da UFMG aponta que restringir número de reenvios por usuário diminui velocidade de compartilhamento de informações, mas não resolve o problema de conteúdo falso no aplicativo

Alessandra Monnerat

29 de setembro de 2019 | 13h11

Desde o início do ano, o WhatsApp restringiu o limite de encaminhamentos no aplicativo, em uma tentativa de frear a disseminação de conteúdo enganoso na plataforma. Os usuários só podem reenviar mensagens para cinco destinatários de cada vez. No entanto, uma nova pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) aponta que, embora a medida possa diminuir significativamente a velocidade com que as mensagens se espalham nos grupos do aplicativo, a restrição não é efetiva no combate à propagação de campanhas de desinformação virais.

Os pesquisadores do Departamento de Ciência da Computação da UFMG rodaram simulações que mostram que o limite de encaminhamento atrasa a propagação de informação através da rede de grupos públicos do WhatsApp. Ainda assim, isso não impede que os conteúdos disseminados cheguem a uma larga porção dos usuários da plataforma. 

“Dependendo da ‘viralidade’ do conteúdo, os limites (de encaminhamento) não são eficientes em prevenir que uma mensagem atinja toda a rede (de usuários) rapidamente”, escrevem os autores do estudo. “Campanhas de desinformação encabeçadas por equipes profissionais com interesse em afetar o cenário político podem tentar criar conteúdo falso muito alarmante, que tem alto potencial de viralizar”. 

Limite ao encaminhamento de mensagens no WhatsApp diminuiu velocidade de propagação de informações no aplicativo. Foto: REUTERS/Dado Ruvic

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores analisaram mais de 6,4 mil grupos públicos de WhatsApp do Brasil, da Índia e da Indonésia. Eles observaram, durante o período eleitoral de cada país, como essas unidades se organizavam e como as mensagens se disseminavam de um espaço para outro.

Ao contrário dos grupos privados, onde se conectam apenas pessoas que já se conhecem, como familiares, amigos ou colegas de trabalho, esses grupos públicos permitem a aproximação de pessoas distantes socialmente. Apesar de existirem em  número menor que os canais privados, os grupos públicos serviram como ferramente para mobilização política durante as eleições. 

Os autores da pesquisa estruturaram estes espaços públicos como uma rede, ligando grupos que tivessem usuários em comum. Quanto mais usuários em comum, maior a conexão. 

Na Índia, onde os pesquisadores mapearam mais de 300 mil usuários em mais de 5 mil grupos, havia pessoas que participavam de mais de 300 grupos de uma só vez. Essa forte conexão entre grupos, somada à facilidade do compartilhamento de mensagens, permite um alto — e rápido — fluxo de informação na plataforma. 

Ao mesmo tempo em que o WhatsApp permite a transmissão de informação em larga escala, as mensagens enviadas pelo aplicativo são criptografadas, o que garante anonimato aos usuários. Segundo os pesquisadores, esse paradoxo é um prato cheio para os disseminadores de conteúdo deliberadamente falso. 

Como a desinformação viaja no WhatsApp

Os pesquisadores da UFMG utilizaram ferramentas para acessar automaticamente grupos públicos de WhatsApp e salvar o conteúdo compartilhado nesses espaços. Foram selecionados grupos do Brasil, da Índia e da  Indonésia dedicados à discussão política. Os autores coletaram dados de períodos de cerca de dois meses para cada país — de 60 dias antes das eleições a 15 dias depois das votações. 

Para entender o fluxo de informação no aplicativo, os pesquisadores analisaram as imagens compartilhadas, que são mais fáceis de rastrear. Ao todo, foram capturadas 103.031 imagens no Brasil, 44.731 na Índia e 2.384 na Indonésia. A maior parte desse conteúdo (80%) foi compartilhado apenas uma vez, mas imagens mais populares chegaram a aparecer mais de 100 vezes em múltiplos grupos.

A análise desses dados mostrou que a discussão no WhatsApp é efêmera: a maioria das imagens (80%) era compartilhada apenas por dois dias. No Brasil e na Índia, cerca de 40% dos compartilhamentos era feito em no máximo um dia, e 20% após uma semana.

O artigo é assinado por Philipe de Freitas Melo, Carolina Coimbra Vieira, Pedro Vaz de Melo e Fabrício Benevenuto, da UFMG, e Kiran Garimella, do Instituto para Dados, Sociedade e Sistemas do Instituto de Tecnologia do Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos.

Procurada pelo Estadão Verifica, a assessoria de imprensa do WhatsApp divulgou a seguinte nota:

“Como o estudo aponta, os limites de encaminhamento reduziram a velocidade com que conteúdos problemáticos podem ser compartilhados, como era a intenção. Esse limite reduziu o número total de mensagens encaminhadas no WhatsApp em 25%. Também mantemos limites em mensagens em massa, banindo mais de dois milhões de contas por mês. Isso ajudar a prevenir que potencial desinformação seja encaminhada em primeiro lugar. O WhatsApp está comprometido a fazer a nossa parte para enfrentar essa questão, apesar de reconhecermos que não há uma ação única que resolva os desafios complexos que contribuem para desinformação. Noventa porcento das mensagens enviadas no WhatsApp são entre duas pessoas e a média de um grupo é menos de dez pessoas, incluindo no Brasil. Olhar as menções de grupo nesse relatório desconsidera as maneiras mais comuns que as pessoas usam o WhatsApp para se comunicar. Continuaremos a buscar maneiras para ajudar a endereçar esse desafio por meio do nosso produto e parceria com a sociedade civil.”

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: