Posts atribuem a Bolsonaro fabricação de lanchas escolares dos governos Lula e Dilma

Posts atribuem a Bolsonaro fabricação de lanchas escolares dos governos Lula e Dilma

Trecho de reportagem feita em 2011 no Rio Grande do Norte foi usado para afirmar que iniciativa de usar Forças Armadas na construção das embarcações partiu do atual presidente, o que é falso

Clarissa Pacheco

15 de fevereiro de 2022 | 16h23

São falsas as afirmações em posts no Facebook de que o atual presidente, Jair Bolsonaro (PL), mandou que as Forças Armadas fabriquem lanchas escolares para comunidades ribeirinhas e da região amazônica. Embarcações para o transporte escolar foram de fato feitas em estaleiros da Marinha para o Programa Caminho da Escola, financiado pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), vinculado ao Ministério da Educação (MEC). Mas isso aconteceu entre 2010 e 2012, graças a uma parceria firmada em 2009, durante o governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), dez anos antes do início do governo Bolsonaro.

De acordo com o FNDE, foram feitas na época 674 lanchas escolares para atender a alunos ribeirinhos da educação básica pública. “O FNDE informa que não há projeto atual entre as Forças Armadas e o governo federal para a fabricação de lanchas escolares”, disse o órgão, em nota. As lanchas foram fabricadas nas bases navais de Natal (RN), Belém (PA) e Salvador (BA). Elas foram entregues entre 2010 e 2012, nos governos de Lula e Dilma Rousseff (PT).

O vídeo utilizado nos posts virais é uma reportagem da TV Ponta Negra, afiliada do SBT no Rio Grande do Norte, que foi ao ar em 2011. A matéria completa tem 2 minutos e 9 segundos e está disponível no YouTube desde 3 de outubro de 2011. O Estadão Verifica a localizou por meio da busca reversa de imagens do Google, associada a uma pesquisa pela logomarca da afiliada, que aparece na canopla do microfone que a repórter segura.

Já o material utilizado em pelo menos dois dos posts falsos, que somam mais de 10 mil interações no Facebook, é mais curto, tem 1 minuto e 40 segundos. Isso porque foram cortados os segundos iniciais da matéria, em que a jornalista afirma que as 200 lanchas encomendadas ao 3º Distrito Naval, de Natal (RN), começaram a ser fabricadas em abril de 2010. Já tinham sido entregues 100 delas, e as outras 100 seriam concluídas até abril do ano seguinte.

Por telefone, a assessoria de comunicação do Comando do 3º Distrito Naval, de Natal (RN), que aparece nas imagens, confirmou que o vídeo foi feito nas dependências da base naval da capital potiguar, mas que é antigo e que não há produção nova de embarcações escolares por lá. Segundo o Comando, todas as lanchas encomendadas à base de Natal por meio de um termo de cooperação assinado em 2009 foram entregues no prazo e enviadas para comunidades ribeirinhas de diversos locais do Brasil.

Caminho da Escola

O Programa Caminho da Escola, para o qual foram fabricadas as lanchas, é vinculado ao Ministério da Educação e ao FNDE. O Decreto Federal nº6.768, de 2009, é quem disciplina o programa e estabelece que o Ministério da Educação apoie os sistemas públicos de educação básica nos municípios, Estados e no Distrito Federal, através da aquisição de veículos de transporte para estudantes da zona rural e comunidades ribeirinhas, prioritariamente.

No dia 28 de outubro de 2009, um termo de cooperação foi assinado entre o então presidente do FNDE, Daniel Balaban, e o diretor de engenharia naval da Marinha, contra-almirante Francisco Roberto Portella Deiana. A previsão inicial era a construção de 600 lanchas nas bases navais de Belém (PA), Natal (RN) e Salvador (BA).

A reportagem

Em outubro de 2011, a TV Ponta Negra, de Natal, produziu uma reportagem sobre a fabricação das lanchas escolares pelo 3º Distrito Naval. Na ocasião, a matéria mostrou que o estaleiro da Marinha na capital do Rio Grande do Norte costumava ser usado como oficina, para reparos e manutenção em embarcações, mas atuava ali, pela primeira vez, na fabricação de lanchas.

A base naval local tinha ficado responsável por fabricar 200 embarcações para transporte escolar, com capacidade para 20 estudantes cada, além de dois tripulantes. As lanchas foram feitas em alumínio naval, com o casco forrado por mil garrafas pet, em vez de isopor. Cada uma delas foi avaliada, na época, por R$ 190 mil, em média.

Elas foram adaptadas de dois modelos militares de patrulhamento que já eram fabricadas na Base Naval Val-de-Cães, em Belém. “A escolha desse modelo se deu porque ele tem grande mobilidade no leito dos rios e igarapés amazônicos, por ter um calado (o casco da lancha) que atinge apenas 40 cm de profundidade”, disse, na época, o diretor de administração e tecnologia do FNDE, José Carlos Freitas.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.