Vídeo adultera reportagem do ‘Fantástico’ para tentar ligar Dilma a assassinatos na ditadura

Vídeo adultera reportagem do ‘Fantástico’ para tentar ligar Dilma a assassinatos na ditadura

Matéria original sobre justiçamentos, exibida em 1996, não cita a ex-presidente nem outros políticos ligados ao PT

Clarissa Pacheco

09 de maio de 2022 | 16h35

Há 26 anos, o Fantástico exibiu uma longa reportagem sobre justiçamentos – execuções sumárias de ex-integrantes de grupos guerrilheiros considerados traidores por organizações que lutaram contra a ditadura militar no Brasil. Agora, um compilado de vídeos com mais de 12 minutos de duração viralizou no Facebook com uma série de informações falsas, entre elas a de que a reportagem, exibida em 28 de junho de 1996, implica nomes como o dos ex-presidentes Dilma RousseffFernando Henrique Cardoso Luiz Inácio Lula da Silva, do ex-ministro-chefe da Casa Civil José Dirceu e do líder comunista Carlos Marighella. No vídeo viral, fotografias dessas pessoas são exibidas junto com a narração do repórter, mas o material foi adulterado. Nenhum deles é citado ou tem imagens exibidas durante a matéria original, que tem metade da duração do vídeo editado.

A reportagem original foi realizada pelo jornalista Fernando Molica. No vídeo que viralizou no Facebook, aos 40 segundos entra a legenda: “Comunistas fazem guerrilhas contra o governo militar”. Depois, aos 53 segundos, começam a aparecer fotos que não foram veiculadas quando a peça foi ao ar. Consultado pelo Estadão Verifica, Molica confirmou que o trecho foi editado. “É claramente adulterado, a começar pelas legendas [inseridas sobre as imagens]. A matéria original não tem imagens de Zé Dirceu, Lula, Dilma, Marighella”, afirmou o jornalista, que, em 1996, acompanhou a produção da reportagem e a edição do material.

Molica destaca que, entre um trecho e outro da reportagem, o vídeo editado insere uma narração diferente da dele para listar organizações guerrilheiras e integrantes delas. Nada disso faz parte da matéria original, que cita os justiçamentos de quatro pessoas: Salatiel Teixeira Rolim, o Chinês; Carlos Alberto Maciel Cardoso, o Juca; Francisco Jacques Moreira de Alvarenga e Márcio Leite de Toledo.

Também é falsa a legenda do post no Facebook, que afirma que o PT pagou para que a Rede Globo “enterrasse” o arquivo. A reportagem original tem 5 minutos e 50 segundos e foi disponibilizada este final de semana no portal G1, da Globo. A matéria ainda é mencionada no perfil de Fernando Molica no site Memória Globo.

O vídeo viral também inclui diversas alegações falsas sobre a ex-presidente Dilma. A petista não participou da ação que resultou na morte do militar Mário Kozel Filho, em 1968, e não era companheira de Vera Sílvia Magalhães, ex-guerrilheira entrevistada para um documentário produzido para a TV Câmara em 2003.

Por fim, o homem russo que fala em uma entrevista exibida na parte final do vídeo que viralizou não é general, não se chama Anatholy Navashki e não menciona a ex-presidente em sua fala. Mikhail Vasilyevich Popov, o homem que aparece nas imagens, é um filósofo e economista russo que falava em uma entrevista de 2017 sobre o papel de Vladimir Lenin e Josef Stalin no comunismo mundial. O Brasil é citado uma única vez, quando o pesquisador fala sobre economia. As legendas que aparecem no vídeo, em que o homem conta sua experiência em solo brasileiro, foram inventadas e Dilma nem sequer é mencionada.

Veja a seguir a checagem para cada parte do vídeo, que acumula mais de 3,4 milhões de interações no Facebook.

Reportagem sobre justiçamentos não citava ex-presidentes

Dos mais de 12 minutos do vídeo aqui verificado, menos de quatro contam com trechos da reportagem original do Fantástico sobre justiçamentos. Mesmo estes trechos foram editados, com a inserção de imagens dos ex-presidentes Lula, Dilma e Fernando Henrique Cardoso, além de José Dirceu e Carlos Marighella. A reportagem original não citou nenhum deles, nem exibiu suas imagens. O conteúdo falava especificamente de quatro justiçamentos que foram considerados, segundo o jornalista Fernando Molica, como as quatro grandes execuções desse período.

“Essa é uma matéria que, por si só, já é delicada para a esquerda, ela fala de crimes que foram cometidos, são assassinatos”, disse Molica ao Estadão Verifica. “E a matéria fala de quatro casos muito específicos, que são os quatro grandes casos. Na matéria, eu até falo de um caso antiga da Elza [Fernandes], que foi feito pelo PCB na década de 1930. Mas não tem Lula, nem Dilma, nem o Fernando Henrique Cardoso”, destacou.

Molica não foi o único repórter a abordar o assunto. Segundo o jornalista, naquele mesmo final de semana de 1996, o ex-guerrilheiro Carlos Eugênio Sarmento concedeu uma entrevista a uma revista semanal. Em 2021, o jornalista Lucas Ferraz lançou um livro sobre as execuções intitulado Injustiçados: execuções de militantes nos tribunais revolucionários durante a ditadura, editado pela Companhia das Letras.

Morte do soldado Mário Kozel Filho não teve envolvimento de Dilma

A partir dos 3 minutos e 27 segundos, o vídeo exibe duas fotografias lado a lado. À esquerda, a ex-presidente Dilma Rousseff aparece sentada atrás de uma mesa cheia de papeis, com um fuzil ao fundo, encostado à parede. A foto foi adulterada e não faz parte da reportagem do Fantástico. A imagem original é de 1988 e foi feita em Porto Alegre, onde Dilma ocupava o cargo de secretária municipal da Fazenda. O fuzil não existe na imagem original, como já mostrou esta checagem feita em 2019 pelo UOL Confere.

Já à direita aparece uma imagem identificada como do atentado ao Quartel General do 2º Exército, no Ibirapuera, em São Paulo, que resultou na morte do soldado Mário Kozel Filho, de 18 anos, em 26 de junho de 1968. A imagem, porém, não é do atentado. À direita, na fotografia, aparecem dois Fuscas, enquanto a narração afirma que Dilma foi a mentora do atentado e que não chegou a sair do veículo enquanto explosivos eram jogados no quartel. Segundo a narração, Dilma permaneceu dentro do segundo Fusca.

O Estadão noticiou o atentado em 27 de junho de 1968 e publicou uma série de fotos do episódio na página 82 daquela edição. Nenhuma delas mostra um cenário parecido com o da imagem utilizada no vídeo viral. Não há descrição de Fuscas no episódio, apenas de uma caminhonete Volkswagen. Uma nítida imagem do Arquivo Público do Estado de São Paulo mostra um lugar bem diferente do que aparece no vídeo adulterado.

À esquerda, foto usada no vídeo falso e atribuída ao atentado que matou Kozel; à direta, foto do atentado, pertencente ao acervo do Arquivo Público do Estado de São Paulo

Além disso, o Estadão Verifica já mostrou que Dilma não participou do atentado. Em 1968, ela era integrante do Comando de Libertação Nacional (Colina). A historiadora Carla Luciana Silva, professora da Universidade Estadual do Oeste do Paraná e autora do livro A revolução da VPR, a Vanguarda Popular Revolucionária, lembra que Dilma não militou na VPR e fez parte apenas da VAR-Palmares, após a fusão do primeiro grupo com o Colina, em julho de 1969.

Vera Sílvia não era companheira de Dilma

Vera Sílvia Magalhães, que integrou o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), não era companheira de Dilma Rousseff na guerrilha, embora as duas tenham integrado movimentos de luta armada no combate à ditadura militar no Brasil. No vídeo, o nome de Vera aparece errado – é grafado como Vana, o segundo nome de Dilma. Numa narrativa que busca enquadrar a ex-presidente, o vídeo faz parecer que Vera Sílvia fala sobre como ocorreu o treinamento militar e um dos ataques organizados pelo grupo MR-8. Dilma, contudo, não é citada em nenhum momento.

A entrevista de Vera Sílvia foi concedida à TV Câmara para a série documental Memória Política, no episódio “Vera Sílvia Magalhães – A História de uma Guerrilheira”. No documentário, Vera conta a história do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, em setembro de 1968. Ela falou com a equipe responsável pelo material em 12 de maio de 2003, quase sete anos após a reportagem do Fantástico ir ao ar. A transcrição completa da entrevista está disponível no site da Câmara dos Deputados e mostra que Dilma Rousseff não é citada na conversa, embora a edição dos vídeos faça parecer que a ex-presidente teria participado do sequestro.

O manifesto deixado pelos sequestradores de Elbrick foi assinado por dois grupos: a Ação Libertadora Nacional (ALN) e o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). Dilma não integrou nenhum dos dois. Em setembro de 1969, quando aconteceu o sequestro, ela fazia parte da Vanguarda Armada Revolucionária – Palmares (VAR-Palmares). Antes, a partir de 1964, foi da Organização Revolucionária Marxista – Política Operária (Polop), depois passou a integrar o Colina. Só em julho de 1969, quando o Colina e o VPR se uniram, ela passou a integrar o VAR-Palmares.

O historiador Eurelino Coelho, professor da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) afirma ser pouco provável que Dilma e Vera Sílvia tenham atuado juntas. “O que posso dizer é que Vera e Dilma sempre militaram em organizações diferentes, ela no MR-8 e Dilma nos Comandos de Libertação Nacional. As trajetórias de ambas até a luta armada foram completamente distintas. Vera vem do movimento estudantil pecebista no RJ e Dilma, secundarista em Minas Gerais, filiou-se à Polop por volta de 64″, disse.

Coelho afirma ainda que a história dos dois grupos é bastante diferente. “A Polop fazia críticas duríssimas ao PCB. O MR-8 surge de um racha no PCB do Rio e Vera é protagonista dessa história. O Colina surge de um racha na Polop. Ambas as organizações avançaram para a luta armada, mas partindo de premissas teóricas bem distintas. Não posso dizer se chegaram a acontecer ações armadas em que Colina e MR-8 atuaram juntos, mas acho pouco provável”, afirma.

General russo não existe

Os seis minutos finais do vídeo viral mostram um conteúdo totalmente inventado. Antes de mostrar a entrevista de um pesquisador russo, o material inclui uma legenda mentirosa: “O vídeo em que o general russo conta a verdade sobre 64 e desmarcara os comunistas do Brasil ele diz que o Brasil já é comunista (sic)”. A seguir, o vídeo exibe um homem identificado como general Anatholy Navashki, que fala em russo.

O homem que concede a entrevista não se chama Anatholy Navashki, não é general e não falava sobre comunismo no Brasil em 1964. Ele é um cientista, filósofo e economista russo chamado Mikhail Vasilyevich Popov e, embora estude comunismo e marxismo, não dedica sua entrevista a falar sobre o Brasil. O País, aliás, é mencionado uma única vez no vídeo original, quando ele diz que, naquele momento – a entrevista foi concedida em 2017 –, a produtividade da Rússia se assemelhava à de países que são ex-colônias, como Brasil, África do Sul e Índia. A palavra Dilma não é mencionada nenhuma vez. Para conferir, basta acionar as legendas em português no vídeo original no YouTube.

O Estadão Verifica buscou por referências a um general russo chamado Anatholy Navashki, mas não encontrou nenhum militar com este nome, tampouco com atuação no período correspondente à ditadura militar no Brasil, de 1964 a 1985. O nome é mencionado apenas em legendas de outros vídeos iguais ao que foi verificado aqui.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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